Desperdício de alimentos: causas e prejuízos econômicos e ambientais

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O custo da comida jogada fora é de 750 bilhões de dólares ao ano

Desperdício de alimentos
Imagem editada e redimensionada de Liana Mikah, está disponível no Unsplash

Você sabia que o desperdício de alimentos atinge um terço de toda a comida produzida no mundo? Pois é, a política do mercado financeiro que gera produção em excesso e o transporte são fatores significativos para esse problema. Mas além disso, há desperdício de alimentos na cozinha da nossa casa. Vamos dar uma olhada mais profunda nessa questão.

De acordo com a FAO (agência das Nações Unidas preocupada em erradicar a fome), 54% do desperdício de alimentos no mundo ocorre na fase inicial da produção, que é composta pela manipulação pós-colheita e pela armazenagem.

Os outros 46% do desperdício, de acordo com a mesma fonte, ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Tudo isso também contribui para a insegurança alimentar e a crise climática.

Quando lembramos que todos os dias 870 milhões de pessoas passam fome, esses dados sobre desperdício de alimentos se tornam aterrorizantes.

No mundo

A Europa sozinha é responsável por 222 milhões de toneladas do desperdício de alimentos, o equivalente a toda a produção de alimentos na região da África Subsaariana!

Em colheitas menos sofisticadas, grande parte da produção é perdida no transporte e manuseio.

No Brasil, grande parte do desperdício de alimentos acontece durante o manuseio e logística da produção: na colheita, o desperdício é de 10%. Durante o transporte e armazenamento, a cifra é de 30%. No comércio e no varejo, a perda é de 50%, enquanto nos domicílios 10% vai para o lixo.

Segundo um relatório do Instituto de Engenharia Mecânica, existe uma perda de 37% e 80% da produção de arroz no Leste Asiático. Na Índia, 20 milhões de toneladas de trigo são perdidas por sistemas de abastecimento e distribuição impróprios.

Em países desenvolvidos, o desperdício tem uma razão mais estética, onde consumidores se recusam a comprar produtos com aparência mais abatida ou feridos, e as próprias redes rejeitam alimentos de aparência menos saudável.

No Reino Unido, 30% da colheita britânica é rejeitada por não atingir as expectativas do mercado quanto a suas características físicas, e sete milhões de toneladas de alimentos (o equivalente a dez bilhões de libras, ou 40 bilhões de reais) são descartadas pelo mesmo motivo.

O desperdício também está presente na casa dos consumidores. Um relatório da ONU destacou que 74 kg de comida são desperdiçados por pessoa a cada ano. No Reino Unido, os resíduos comestíveis representam cerca de oito refeições por família a cada semana.

Além da comida desviada no processo de produção e desperdiçada na mesa do consumidor, a indústria alimentícia desperdiça alimentos ricos em proteínas e fibras dietéticas de alta qualidade, conduzindo-os para outros fins, como ração ou produção de energia.

O pesquisador Pia Silventoinen defende em sua tese que substâncias como farelos de cereais poderiam ser utilizados para produção de outros alimentos, levando a dietas mais saudáveis.

Consciência e prática do consumidor

Uma pesquisa feita pela Unilever, chamada World Menu Report, afirma que 96% dos brasileiros se preocupam com desperdício de alimentos, uma porcentagem alta em comparação à Alemanha (79%), aos Estados Unidos (77%) e à Rússia (69%). Porém, o que é contraditório é que o país possui um dos maiores índices de desperdício de alimentos do mundo! Com 40 mil toneladas de alimentos que vão para o lixo todo dia. Segundo a ONG Banco de Alimentos (organização que busca combater a fome e o desperdício de alimentos), cada brasileiro desperdiça mais de meio quilo de alimento por dia.

As causas para tamanho desperdício são muitas. Muitos produtos, como frutas e vegetais, estragam antes de saírem das prateleiras. Muitos consumidores compram produtos que estragam antes de irem para a mesa e uma parte considerável do que chega até ela não é consumido. Existem também os problemas durante o transporte. Longas distâncias e embalagens impróprias (ou até mesmo a ausência de embalagens) são fatores impactantes.

Prejuízos econômicos

Quanto mais alimento jogado fora, mais caro ele fica. Inclusive foi baseada nessa lógica de mercado que, na década de 1930 (e ainda hoje, ilegalmente), no Brasil, a produção de café em excesso foi queimada para gerar lucro.

Um relatório feito em 2013 apontou que, apesar de trazer lucro para pouquíssimas pessoas, em escala mundial, o desperdício de alimentos custa 750 bilhões de dólares por ano. Agora imagine essa quantia em reais.

Prejuízos ambientais

O desperdício de alimentos prejudica enormemente o meio ambiente. Imagine que boa parte dos agrotóxicos, água, terras, fertilizantes, desmatamento, transporte, gastos de energia e petróleo para a produção de máquinas e combustíveis empregados em todos os processos da agropecuária são utilizados em vão. Isso faz com que seja necessário intensificar ainda mais a produção e, consequentemente, a pressão ao meio ambiente.

No caso de desperdício de alimentos de origem animal, o prejuízo ambiental é maior, pois a criação de carneiro ou boi demanda maiores quantidades de insumos que a produção vegetal.

Isso sem falar na questão do aumento da quantidade de resíduos sólidos, que é formado majoritariamente por resíduos orgânicos (60%).

O desperdício e a perda de alimentos também causam cerca de 10% das emissões que contribuem para a crise climática.

Por outro lado, reduzir a perda e o desperdício de comida cortaria as emissões de gases de efeito estufa, desaceleraria a destruição da natureza por meio da conversão de terras e poluição, aumentaria a disponibilidade de alimentos e, com isso, também ajudaria a reduzir a fome.

Como evitar

Grande parte do desperdício de alimentos está na própria produção. Mas o consumidor pode contribuir de alguma forma para mudar esse quadro.

A primeira dica seria, sempre que possível, optar por alimentos produzidos localmente, uma vez que estes não sofrem (ou sofrem menos) as perdas do transporte e da degradação, tornando-se, quem sabe, um locávoro.

Outra forma de evitar desperdício é optar por consumir Pancs (Plantas alimentícias não-convencionais) ruderais, pois essas são uma alternativa às monoculturas e muitas vezes nascem naturalmente em casa ou nas proximidades, podendo ser colhidas na hora do uso, ou pouco tempo antes, evitando também perdas de transporte a longa distância e degradação pelo armazenamento.

Você também evita o desperdício de alimentos aprendendo a fazer receitas com cascas, raízes e sementes. Você já pensou em comer casca de banana, por exemplo? Já conhece nossas 18 diferentes formas de reaproveitar a casca do limão? Ou ainda os sete benefícios da semente de abóbora para a saúde?

Você também pode contatar os produtores de alimentos mais próximos e formar grupos de consumo com seus vizinhos, pois fazendo compras coletivas o preço fica mais em conta e o produtor pode produzir de acordo com a demanda, evitando desperdício.

Professoras da Universidade de Illinois, Brenna Ellison e Melissa Pflugh Prescott, apontam, em estudo, que desenvolver habilidades culinárias podem ajudar, à medida que os consumidores saberão lidar melhor com as sobras, reaproveitando e armazenando corretamente na geladeira ou no freezer. O planejamento das refeições com antecedência também pode ajudar, assim, evita-se comprar em excesso ou deixar que alimentos estraguem por não serem utilizados.

Além dos consumidores, as instituições também podem tomar algumas medidas. Mas Ellison e Prescott sugerem que a questão do desperdício seja pensada junto à questão da obesidade. Em refeitórios, por exemplo, em vez de cobrar uma multa por desperdício de comida, é melhor investir no uso de pistas comportamentais, como fornecer conchas e pratos menores que estimulem as pessoas a selecionar menos alimentos. Caso contrário, as pessoas acabam sendo incentivadas à ingestão excessiva só para não ter que pagar a multa.

Nas escolas, as cantinas podem pegar itens como maçãs inteiras ou embalagens fechadas de outros alimentos e reutilizá-los em refeições futuras, desde que sigam os protocolos de segurança. As instituições também podem doar esses itens para outras organizações sem fins lucrativos ou criar programas em que enviem os itens para casa com os alunos que possam estar enfrentando a insegurança alimentar.

Outra alternativa aliada a essas é compostar seus resíduos orgânicos. Assim, em vez de virar “lixo” e ocupar espaço em aterros e lixões, ele vira húmus e servirá de insumo, inclusive, para você doar ou começar a plantar localmente em algum espaço compartilhado com vizinhos.


Fontes: FAO e UNEP


Veja também:

 

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