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O guia quebra paradigma de que pessoas acometidas pelo câncer devem apenas descansar e evitar esforços físicos

Por Ivanir Ferreira em Jornal da USP A USP fez parte da equipe de elaboração do primeiro Guia Oncológico Brasileiro, que traz recomendações de prevenção e controle do câncer e redução da mortalidade por meio da prática regular de atividade física. Produzido por pesquisadores de renomadas instituições ligadas ao combate ao câncer, o documento quebra o paradigma das últimas décadas de que pessoas diagnosticadas com a doença deveriam descansar e evitar esforços físicos. Há evidências científicas de que se manter ativo diminui o risco do câncer de mama, de cólon, do reto, de útero, de próstata e o de pulmão. Ainda, a atividade física tem efeito protetor após o diagnóstico de câncer, contribuindo para diminuir a mortalidade. O lançamento do guia foi feito neste 06 de abril, quando se celebra o Dia Mundial da Atividade Física.

Segundo o coordenador do trabalho, Rafael Deminice, pesquisador de fisiologia do exercício e professor associado da Universidade Estadual de Londrina (UEL), “já é consenso na literatura científica que todo sobrevivente de câncer deve ser encorajado a manter-se fisicamente ativo durante seu tratamento e por toda a vida”, relata ao Jornal da USP.

O guia foi produto de um extenso trabalho de pesquisadores de várias instituições: da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), do Instituto Nacional do Câncer (INCA), da Escola de Educação Física e Esporte da (EEFE) da USP e da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Voltado para profissionais da saúde, o material consiste no levantamento e avaliação dos principais guias internacionais de recomendação de atividade física para paciente oncológico e produções científicas com revisão sistemática, metanálise e ensaio clínico randomizado.

Como resultado dessas análises, foi possível observar que, se a pessoa for fisicamente ativa, mesmo que seja somenteem horas de lazer, o risco de ela desenvolver câncer de mama, de colo de útero, do reto, próstata, pulmão diminui consideravelmente, relata a professora Patrícia Chakur Brum, professora titular em fisiologia do exercício da EEFE, uma das pesquisadoras convidadas para participação na produção do guia. “E se a pessoa já tiver sido diagnosticada com câncer, a atividade física tem efeito protetor para mortalidade pela doença”. Um estudo publicado nos Estados Unidos em 2018, com mais de mil sobreviventes de câncer de mama, próstata e colorretal mostrou que 8,1% dos sobreviventes eram inativos e 34,1% não praticava os níveis recomendados de atividade física, relata o guia.

Mulheres sobreviventes ao câncer de mama

Na USP, Patrícia Brum desenvolve pesquisa básica e clínica em que procura compreender os mecanismos pelos quais o exercício físico se torna benéfico à saúde, tornando -se indispensável na prevenção e tratamento complementar do câncer. Como atividade de extensão universitária associada à pesquisa, acompanha desde 2017 um grupo de mulheres sobreviventes de câncer de mama que remam na Raia Olímpica da USP, o programa Remama, e cujas integrantes têm sentido ao longo do tempo melhora em seus parâmetros de saúde física e mental por se manterem ativas.

Após o tratamento e reabilitação, as pacientes são liberadas para remar seguindo o protocolo de que o exercício físico diminuiria a reincidência da doença e traria mais qualidade de vida para elas, que já passaram pelo tratamento do câncer de mama. Ainda, a escolha pela canoagem para essas mulheres segue um movimento de que o exercício com os membros superiores pode e deve ser realizado, pois até auxilia no tratamento e controle do linfedema e não o contrário, como se pensava anteriormente, relata a pesquisadora.

Desse trabalho, feito em parceria com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e a Rede Lucy Montoro, de onde as pacientes vieram, juntamente como CEPEUSP e EEFE, foram publicados vários artigos científicos, entre os quais um relacionado à inatividade física e comportamento sedentário na pandemia do novo coronavírus: Determinants of Health and Physical Activity Levels Among Breast Cancer Survivors During the COVID-19 Pandemic: A Cross-Sectional Studypublicado na Frontiers in Physiology.

Esse estudo demonstrou que as participantes do Remama se tornaram inativas e aumentaram o tempo sedentário durante a pandemia e em consequência desse hábito ganharam entre 1 e 15 kg nesse período. A partir da detecção desse contexto, foi iniciado o programa “Remama ON”, um programa de condicionamento físico e educação em saúde online para as participantes do Remama e apoiado pela Pró Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) no edital 02/2021 Inclusão Social e Diversidade na USP em atendimento a agenda 2030 de desenvolvimento sustentável da ONU. O artigo Efeito do exercício nos marcadores de inflamação em sobreviventes do câncer de mama: The Yale Exercise and Survivorship Study, publicado na Scilit, mostra essa relação benéfica da atividade física e menores riscos de câncer.

Pacientes oncológicos

Sobre o guia, Patrícia Brum relata que pouco se discute sobre a realização de exercícios físicos com os pacientes oncológicos, mas em sua opinião, na medida que os tratamentos avançam proporcionando mais sobrevida às pessoas, é necessário que se busquem mecanismos que lhes tragam mais qualidade de vida. O guia dará mais segurança aos profissionais de saúde nas condutas médicas para seus pacientes quanto à prática de atividade física, mesmo que eles estejam em tratamento quimioterápico, radioterapia, terapia hormonal, dentre outros,

Segundo o documento, 50% dos cânceres são evitáveis por meio da prevenção. Somente no Brasil, aproximadamente 27% (114.497 casos) de todos os casos de câncer e 34% (63.371 mortes) de todas as mortes por câncer poderiam ser evitadas mediante a promoção de um estilo de vida saudável, como não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas, manutenção do peso corporal, alimentação saudável e praticar atividade física.

O documento traz um vasto conteúdo e de fácil compreensão, relata Deminice. Sobre o tempo ideal para sair do sedentarismo, manter o peso e colher os benefícios à saúde, o pesquisador recomenda 150 minutos semanais de intensidade moderada (caminhar rápido, por exemplo) ou ao menos 75 minutos semanais de intensidade vigorosa (correr, jogar futebol ou pular corda) ou ainda uma combinação equivalente de atividades moderadas e vigorosas.

Depois de lançado, o documento será público e de livre acesso e, em breve, será tema de artigo científico. Além do professor Rafael Demenice (UEL) e da professora Patrícia Chakur Brum (EEFE/USP), outros pesquisadores estiveram envolvidos no trabalho: Daniela Dornelles Rosa, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC); Fabio Fortunato Brasil de Carvalho, do Instituto Nacional do Câncer (INCA); Leandro Fórnias Machado de Rezende, da Universidade Federal de São Paulo(Unifesp); Leandro Martin Totaro Garcia, da Queens University Belfast – Reino Unido; Raquel Rieira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Renata Cangussu, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC); e Ronaldo Corrêa Ferreira da Silva, do Instituto Nacional do Câncer ( INCA).

Mais informações: Patricia Chakur Brum, e-mail pcbrum@usp.br , e Rafael Deminice, e-mail rdeminice@uel.br .