Explorar petróleo na Amazônia é uma atividade controversa que deixa um rastro de destruição há décadas
Falar sobre a Amazônia é falar sobre um território vivo. Um lugar onde rios são estradas, matam a sede e são fonte de alimento. Onde os povos da floresta constroem sua vida, sua história e sua identidade. Onde cada mudança no ambiente repercute no cotidiano de quem mais depende dele. É nesse contexto que discutir a exploração de petróleo na Amazônia ganha outra dimensão.
A floresta não é apenas um espaço geográfico: é um lugar habitado, completo e essencial para milhões de pessoas e outros seres vivos. Compreender essa realidade ajuda a explicar por que a exploração petrolífera na região merece ser observada com atenção.
A exploração de petróleo na Amazônia ocorre há muitos anos. Sua primeira grande onda começou na década de 1970. Embora mais da metade da floresta esteja em território brasileiro, o bioma se estende por Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname e as Guianas, formando a Pan-Amazônia. Essa configuração faz com que a atividade petrolífera e seus impactos ultrapassem fronteiras, afetando diferentes países que compartilham o mesmo ecossistema.
Ao analisar o histórico da região, um padrão se repete: desastres ambientais, rios contaminados e impactos sociais profundos. Esses efeitos não são isolados nem acidentais. Eles resultam do modo como a exploração se desenvolveu, em áreas remotas e vulneráveis da floresta.
Explorar petróleo na Amazônia não é apenas uma decisão econômica. É uma atividade que pode atravessar a vida de comunidades inteiras, alterar a dinâmica dos rios, pressionar ecossistemas e deixar marcas de longo prazo. Enquanto o debate segue nos campos político e econômico, na floresta a pergunta é outra: quais impactos reais essa atividade traz para quem vive e depende diretamente desse território?
Histórico e impactos da exploração de petróleo na Amazônia
No Equador, o primeiro poço de petróleo foi perfurado em 1967, na região de Lago Agrio, que aparece na foto de abertura da matéria. A partir dali, outros blocos foram descoberto e passaram a ser explorados massivamente.
Pouco tempo depois, em 1972, o país passou a exportar petróleo. A região, antes coberta por floresta nativa, ganhou estradas e viu a população crescer de 75 mil habitantes, na década de 1960, para 740 mil em 2010.
Segundo a Universidad Andina Simón Bolívar, apesar da indústria petrolífera ser a principal impulsionadora da economia há mais de 50 anos, o Equador enfrenta dívidas e estagnação econômica. A exploração de petróleo na Amazônia não contribuiu para o desenvolvimento das regiões envolvidas. Pelo contrário: aumentou desigualdades, precarizou o trabalho e deixou comunidades inteiras desassistidas.
Além disso, inúmeros derramamentos de petróleo marcaram a história dessas áreas. Um dos mais recentes ocorreu em junho de 2024, próximo à província de Orellana, no rio Napo. Esse é o principal rio da Amazônia equatoriana e um dos maiores de todo o país.
Mapa dos desastres
No mapa a seguir, editado a partir do projeto Monoil, é possível observar a quantidade e a localização dos desastres ambientais. Cada ponto em vermelho representa um episódio de derramamento de petróleo. Os losangos em roxo sinalizam áreas onde houve o rompimento de oleodutos.

Rios contaminados
O Peru também se destaca na exploração de petróleo na Amazônia. Esse foi o primeiro país sul-americano a perfurar um poço de petróleo, ainda em 1863, em Zorritos, na costa Norte do Pacífico. Em 1930, chegou a ocupar a nona posição no ranking mundial de produção petrolífera, mesmo antes de iniciar a exploração amazônica, que começou em 1939.
Assim como ocorreu no vizinho Equador, a década de 1970 marcou o primeiro auge da exploração na Amazônia peruana. Entre 1979 e 1985, o país viveu seu período de maior produção. Na virada para o século XXI, já somava mais de 674 poços perfurados.
Entre 1970 e 2009, cerca de 84% da Amazônia peruana esteve sob avaliação técnica ou negociação com petroleiras. Essas áreas se sobrepuseram a mais da metade das terras indígenas homologadas, reservas de povos isolados, reservas territoriais em processo de reconhecimento e áreas protegidas. A Amazônia peruana abriga cerca de 60 etnias indígenas, incluindo 15 povos isolados.
Consequências da contaminação
Entre 2013 e 2014, o governo peruano declarou estado de emergência ambiental e sanitária, nas bacias dos rios Corrientes, Marañón, Pastaza e Tigre. Estudos mostraram que as chamadas “águas de formação” – água concentrada no mesmo local de formação de petróleo e gás natural – elevaram as concentrações de chumbo e outros metais pesados nos rios. Como consequência, os povos indígenas locais passaram a apresentar altos níveis de chumbo no sangue.
Outros estudos colaboram com essa análise, mostrando que os derramamentos de óleo bruto não são a única fonte de poluição ambiental dessa atividade. Águas de formação e produção, além dos resíduos das operações de extração, também impactam profundamente o meio ambiente e trazem graves consequências.
Essas águas são ricas em material particulado, cloretos, óleo disperso, hidrocarbonetos dissolvidos, ácidos orgânicos, fenóis e metais pesados como o bário, o cádmio, o chumbo e o cromo. Ou seja, mesmo sem derramamento direto de óleo, a poluição é grave e persistente.
Derramamentos de petróleo
A história da exploração de petróleo na Amazônia revela um padrão de desastres ambientais, documentado ao longo de mais de cinco décadas. Assim como no Equador e Peru, há registros de inúmeros desastres, seguidos de degradação ambiental e impactos sociais severos, especialmente entre povos indígenas na Colômbia, Bolívia e Venezuela.
O relatório La sombra del petróleo (Oxfam, 2020) mostrou que, entre 2000 e 2019, ocorreram 474 derramamentos apenas na Amazônia peruana. Mais de 65% foram causados por corrosão dos dutos, falhas operacionais e condições inseguras. Quase 29% dos derramamentos foram atribuídos a terceiros, incluindo sabotagens, atentados e vandalismo. Cerca de 6% ocorreram por “causas naturais” sem definição. Cerca de 2 mil áreas diferentes foram afetadas.
O relatório também aponta para um “jogo do empurra” sobre a responsabilidade dos desastres. Existem situações em que a narrativa de sabotagem é usada para criminalizar comunidades indígenas, militarizar seus territórios ancestrais e justificar intervenções externas.
Segundo a Oxfam, há ainda evidências de conluio entre petroleiras e empresas contratadas para a remediação dos danos, muitas vezes sem qualificação adequada e com custos superfaturados.
Os impactos dessas ações atingem o planeta de muitas formas, seja pela destruição da biodiversidade ou pela deterioração da saúde e da qualidade de vida dos povos da floresta.
Impactos da contaminação ambiental
Um estudo publicado em 2024 pela MDPI investigou a contaminação gerada pela exploração de petróleo na Amazônia equatoriana. Até 2015, mais de 400 mil barris de petróleo bruto haviam sido derramados em uma região prioritária para a conservação da biodiversidade e extremamente vulnerável.
Com os derramamentos, a poluição causada não fica concentrada em um só local, mas atinge enormes áreas e impacta diretamente na biodiversidade e em todos os serviços ecossistêmicos oferecidos pela floresta.
As análises mostraram hidrocarbonetos – compostos nocivos – em todas as amostras de sedimentos coletadas em 24 regiões dos rios Aguarico e Napo, dentro da floresta amazônica. Concentrações mais elevadas foram encontradas no rio Blanco Chico, cercado por blocos de extração de petróleo e gás natural.
De acordo com os bioindicadores utilizados, algumas delas são bem antigas, coincidindo com áreas exploradas na década de 1970.
Os pesquisadores alertam para uma contaminação generalizada, inclusive em regiões em que não se esperava encontrar contaminação.
Consequências na saúde
Diversos estudos mostram que o contato com o solo e a água contaminados, além do consumo de peixes da região, aumenta o risco de câncer, doenças crônicas e abortos espontâneos em gestantes. Em Orellana e Sucumbíos, no Equador, o número de crianças com leucemia é três vezes maior do que no resto do país.
Outro estudo detectou maior ocorrência de anemia em homens da região. Os pesquisadores relacionam esses impactos à exposição a hidrocarbonetos.
Apesar das evidências científicas, a indústria petrolífera continua avançando.
Empresas e governos costumam defender que a exploração petrolífera impulsiona a economia nas regiões produtoras, envolvendo geração de empregos, infraestrutura e arrecadação de receitas. Mas a lógica econômica que sustenta essa promessa também carrega contradições.
Essas contradições ficam ainda mais claras quando se observa o que acontece com a receita gerada por essa indústria, especialmente os royalties.
Royalties não significam desenvolvimento
Quando a discussão chega aos royalties – muitas vezes apresentados como justificativa para ampliar a exploração petrolífera – a realidade se mostra menos promissora do que a promessa.
Estudos mostram que, nas regiões produtoras de petróleo, os recursos raramente se convertem em melhoria concreta da qualidade de vida da população.
Uma análise publicada na Cepal Review, da ONU, aponta que os municípios beneficiados pelos royalties no Brasil registram baixo impacto em indicadores sociais estruturais e permanecem dependentes de economias frágeis e pouco diversas, mesmo após décadas de repasses constantes.
Em paralelo, uma revisão de estudos, publicada pela Spring Nature destaca que essa dependência cria vulnerabilidades de longo prazo. Isso porque, quando a economia gira em torno de um recurso volátil, como o petróleo, as oscilações de preço desencadeiam instabilidade fiscal, estagnação e aprofundamento de desigualdades locais.
Nesse caso, o que deveria impulsionar o desenvolvimento, muitas vezes se transforma num ciclo de incerteza, concentrando renda no topo da administração pública, enquanto as comunidades seguem expostas a riscos sociais e ambientais crescentes.
Esse cenário se torna ainda mais sensível quando o debate chega à Amazônia brasileira, uma região biodiversa, ambientalmente fragilizada pela atividade humana e permeada de desigualdades sociais históricas.
Exploração de petróleo na Amazônia brasileira
No Brasil, de acordo com o Instituto Socioambiental, a exploração de petróleo na Amazônia começou em 1953, com 15 poços perfurados nas regiões do alto, médio e baixo Amazonas, numa pesquisa feita pelo Conselho Nacional do Petróleo da época. No entanto, os poços não se mostraram comercialmente viáveis.
Até 1976, a Petrobras – fundada em 1954 na Era Vargas – perfurou cerca de 200 poços “no escuro”. A partir de 1978, com equipamentos mais modernos, a estatal passou a explorar gás natural entre os rios Juruá e Tefé, no Amazonas.
Já em 1986, depois de conflitos e invasões a terras indígenas, o poço Urucu – em Coari – foi perfurado, tornando-se o primeiro poço comercialmente relevante da Amazônia brasileira.

Dados de 2024 do projeto Amazônia Livre de Petróleo e Gás mostram que 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km²) da Pan-Amazônia estão em algum estágio de exploração ou prospecção, com 871 blocos de exploração de petróleo e gás identificados.
A imagem a seguir, editada a partir do Monitor da Amazônia Livre de Petróleo e Gás, mostra a fase de cada bloco e suas regiões.

Exploração de petróleo na foz do Amazonas
Em 2024, o Brasil tinha 416 áreas em estudo, 255 em exploração ou produção e 131 em oferta. Entre as mais sensíveis, está o bloco FZA-M-59, a margem equatorial brasileira. Essa região compreende a foz do rio Amazonas.
Um ofício assinado por 80 organizações alertou para os riscos de um desastre ambiental nesta região. A foz é rica em biodiversidade e é essencial para milhões de pessoas, mas é alvo de petroleiras há mais de uma década.
“A floresta amazônica, a foz do rio Amazonas e o oceano atlântico nesta faixa equatorial, não são apenas uma parte vital da biodiversidade do nosso planeta, mas também uma fonte essencial para a vida de milhões de pessoas direta e indiretamente. Os impactos dessa atividade e um eventual derramamento de óleo podem ocasionar danos imensuráveis para o meio ambiente e para a população, em ecossistemas sensíveis como os manguezais e sistemas de recifes”.
Histórico do processo
Ainda em 2013, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) leiloou doze blocos da região, mas nenhum recebeu licença para operar.
No ano seguinte, a BP Energy (British Petroleum) e a Petrobras, solicitaram o licenciamento do bloco FZA-M-59. O Ibama analisou o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e apontou falhas e inconsistências entre 2015 e 2019. Assim, a britânica – dona de 70% do consórcio – desistiu, deixando a Petrobras assumir o bloco sozinha.
Isso ocorreu porque as soluções apresentadas pela BP Energy não se mostraram efetivas e o Ibama alertou a empresa sobre o possível encerramento do processo.
O ofício ressalta que a Petrobras adquiriu os direitos da BP Energy mesmo ciente dos desafios para comprovar a viabilidade ambiental do projeto. A empresa britânica, vale lembrar, não conseguiu essa comprovação ao longo de cinco anos de embate com o Ibama.
Em 2023, o Ibama chegou a recusar o pedido de licença. Ainda assim, a Petrobras seguiu pressionando o órgão ambiental – apesar das pendências relevantes – e contou com o apoio de parte da bancada política.
Mesmo diante desse histórico, em outubro de 2025 o Ibama concedeu a autorização para a perfuração marítima do poço batizado como Morpho, no bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas. A licença permite a pesquisa de recursos petrolíferos na área. Segundo o Instituto, após um “rigoroso processo de licenciamento ambiental” a autorização foi emitida .
Por que não explorar petróleo na foz do Amazonas?
O Brasil concentra mais de 60% da Amazônia. A região abriga uma biodiversidade única, com espécies de animais e plantas que só existem nessa região do planeta. Não à toa é chamada por muitos de “pulmão do mundo”, pois conta com uma área de 6,7 milhões de km², coberta de árvores que vêm sendo suprimidas ano após ano, substituídas pela atividade agropecuária, madeireira ou da mineração.
Além disso, o bioma é a terra ancestral de indígenas e outros povos tradicionais, incluindo comunidades ribeirinhas, que dependem diretamente dos rios e de toda natureza viva ao redor.

Recifes na foz do Amazonas
Um estudo, publicado em 2018 na Frontiers in Marine Science, confirma a existência de um sistema de recifes de corais – entre o Amapá e o Maranhão – que pode superar 56 mil km². Pesquisadores realizaram um estudo inédito com o suporte de vídeos submersíveis, num procedimento nunca antes realizado.
A primeira hipótese da existência de recifes de corais na foz do Amazonas surgiu em 1977. Esses recifes formam um ecossistema complexo e pouco estudado. Inúmeros peixes e invertebrados encontrados na região dependem da saúde dos recifes para viver. A atividade pesqueira também depende do equilíbrio nesta região.
Os pesquisadores alertam para a urgência na adoção de medidas de conservação da foz do Amazonas, transformando essa em uma área marinha protegida.
Manguezais da Costa Norte
Outro ponto importante está relacionado aos manguezais. Segundo o ICMBio, a costa do Amapá, Pará e Maranhão abriga mais de 1,12 milhão de hectares de manguezais.
Esses ecossistemas capturam carbono, reduzem a erosão e protegem as zonas costeiras. Por outro lado, são extremamente sensíveis à poluição dos ambientes aquáticos.
Quando se observa a floresta, os rios, os recifes e os manguezais como partes de um mesmo sistema, torna-se claro que os impactos não se limitam a um único ambiente. Eles se acumulam e se espalham por toda a Amazônia. É a partir desse entendimento que se constrói uma visão mais ampla do que realmente está em jogo.
O histórico de exploração de petróleo na Amazônia, nas últimas décadas, mostra que seus impactos não se limitam às áreas onde os poços são perfurados. Eles seguem o curso dos rios, alcançam comunidades inteiras e permanecem no ambiente por muito tempo. São efeitos que se acumulam e moldam a vida de quem vive na floresta. Olhar para o passado, com atenção, é fundamental para compreender o que está em risco e para evitar que velhas lições continuem se repetindo.