Talvez o verdadeiro recomeço não esteja em um único dia do ano, mas na possibilidade de recomeçar a cada 28 dias
Todo fim de dezembro, a cena se repete: listas de promessas surgem como rituais modernos de esperança. Emagrecer, mudar de carreira, poupar dinheiro, ler mais livros, ser uma pessoa melhor. O problema é que, poucas semanas depois, a maioria dessas metas já foi abandonada. Talvez o erro não esteja na falta de disciplina individual, mas no próprio modo como organizamos o tempo. E se o problema das metas de ano novo for, na verdade, o calendário que usamos para medi-las?
O calendário gregoriano, adotado oficialmente em 1582 pelo papa Gregório XIII, não nasceu de uma relação íntima com a natureza, mas de uma necessidade política, econômica e religiosa. Seu objetivo era corrigir distorções do antigo calendário juliano e alinhar datas litúrgicas, especialmente a Páscoa, aos interesses da Igreja Católica e dos Estados europeus. Ao longo dos séculos, esse sistema foi exportado como padrão global, acompanhando a expansão colonial e a consolidação do capitalismo industrial. O tempo passou a ser dividido em meses irregulares, anos longos e metas distantes, desconectadas dos ciclos naturais do corpo e do planeta.
A natureza, no entanto, não funciona em blocos de 12 meses desiguais. Ela se organiza em ciclos claros, repetitivos e observáveis: o dia e a noite, as estações do ano, as marés e, sobretudo, as fases da Lua. Um ciclo lunar completo dura cerca de 28 dias — um período previsível, constante e biologicamente significativo. Antes da padronização do calendário atual, diversas civilizações se orientavam pelo tempo lunar para plantar, colher, pescar, celebrar e planejar a vida cotidiana.
Especialistas em psicologia comportamental e neurociência do hábito apontam que metas muito longas e abstratas tendem a gerar frustração e abandono. O cérebro humano responde melhor a objetivos curtos, mensuráveis e palpáveis, que ofereçam sensação frequente de progresso e recompensa. Em vez de promessas anuais grandiosas, ciclos menores permitem ajustes, aprendizados e recomeços mais constantes.
Na prática, metas lunares podem ser simples e profundamente transformadoras. Durante um ciclo de 28 dias, faz mais sentido propor, por exemplo, evitar comer depois das 20 horas, observar os efeitos dessa mudança no sono e na digestão e então decidir se ela será mantida. Ou ainda evitar tocar no celular nos primeiros 15 minutos após acordar, criando um pequeno espaço diário de silêncio, presença e organização mental antes da avalanche de estímulos digitais.
Outros exemplos incluem restringir o consumo de álcool por um ciclo lunar, em vez de assumir um compromisso rígido e permanente; adotar a “segunda sem carne” por 28 dias, avaliando impactos na saúde, no bolso e na pegada ambiental; ou substituir absorventes descartáveis por calcinhas menstruais de pano ou coletores menstruais durante um mês, reduzindo resíduos e ampliando a percepção sobre o próprio corpo.
Ao alinhar metas às fases da Lua, o planejamento ganha também uma dimensão simbólica e funcional. A Lua Nova favorece a intenção e o início de hábitos, como experimentar uma nova rotina alimentar ou iniciar uma pausa digital matinal. A Lua Crescente estimula o esforço e a adaptação às dificuldades iniciais. A Lua Cheia convida à observação dos resultados, à consciência dos benefícios e até à celebração das pequenas conquistas. Já a Lua Minguante é o momento de revisar excessos, ajustar expectativas e abandonar o que não funcionou, sem culpa.
Essa lógica cíclica é especialmente relevante para mulheres em idade reprodutiva. O ciclo menstrual médio também dura cerca de 28 dias e envolve variações hormonais que impactam energia, foco, sociabilidade e necessidade de recolhimento. Ignorar essas oscilações em nome de uma produtividade constante é uma violência silenciosa naturalizada pela cultura do desempenho. Metas lunares permitem respeitar os ritmos do corpo, distribuindo tarefas, autocuidado e descanso de forma mais inteligente e saudável.
Mais do que uma proposta simbólica ou espiritual, trocar metas anuais por metas lunares é um gesto político e cultural. Significa questionar um modelo de tempo imposto, linear e produtivista, que exige constância artificial e pune pausas. É reconhecer que corpos, ecossistemas e relações funcionam melhor em ciclos, não em linhas retas.
Talvez o verdadeiro recomeço não esteja em um único dia do ano, mas na possibilidade de recomeçar a cada 28 dias. Sem listas inalcançáveis, sem culpa crônica, sem a ilusão de controle absoluto. Apenas metas possíveis, aprendizado contínuo e uma vida mais sincronizada com o tempo vivo da natureza.