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Estudo que analisou dados de mais de 15 mil pessoas na meia-idade mostra que exercícios moderados, mesmo em baixa frequência, já oferecem proteção à saúde mental

Por Fernanda Bassette – Agência FAPESP | Manter-se fisicamente ativo ao longo da vida pode reduzir de forma significativa o risco de sintomas depressivos na velhice. Essa é a principal conclusão de um estudo internacional que analisou dados de mais de 15 mil pessoas com 50 anos ou mais, acompanhadas por até 12 anos no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Foram incluídos participantes de dois grandes projetos: o Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA, na sigla em inglês), no Reino Unido, e o Estudo sobre Saúde e Aposentadoria (HRS, em inglês), nos Estados Unidos. Ambos acompanham periodicamente adultos mais velhos, com questionários semelhantes e avaliações realizadas a cada dois anos, o que permite comparações consistentes entre populações diferentes.

“Nessa pesquisa, buscamos entender a associação entre a atividade física e a incidência de sintomas depressivos em idosos, usando dois conjuntos de dados muito comparáveis”, conta André de Oliveira Werneck, integrante do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e primeiro autor do artigo publicado em junho do ano passado no Journal of Affective Disorders.

A investigação foi conduzida com apoio da FAPESP durante estágio de pesquisa realizado por Werneck no Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London (Reino Unido), quando ainda estava no doutorado.

O longo período de acompanhamento (12 anos em ambos os grupos), diz Werneck, foi essencial para avaliar como mudanças no comportamento ao longo do tempo influenciam a saúde mental. Em geral, nos estudos tradicionais, a atividade física costuma ser medida apenas no início do seguimento, como se o comportamento dos participantes permanecesse estável ao longo dos anos. “Mas muita coisa pode mudar ao longo de 12 anos. As pessoas podem se exercitar mais ou menos, desenvolver doenças, mudar seus hábitos, e isso pode introduzir vieses importantes”, explica Werneck.

Por isso, os pesquisadores adotaram uma abordagem epidemiológica inovadora conhecida como target trial emulation (emulação de ensaio-alvo). O método utiliza ferramentas estatísticas avançadas para simular, a partir de dados observacionais, como seria um ensaio clínico randomizado de longo prazo.

Essa ferramenta resolve um dos maiores gargalos das pesquisas de longo prazo. No mundo real, pessoas que se exercitam com frequência costumam ter vantagens que mascaram os resultados – como maior renda ou menos doenças prévias. O algoritmo corrige essas desigualdades matematicamente, nivelando as condições de todos os participantes. É como se o computador projetasse duas realidades paralelas para os mesmos idosos: a vida como ela realmente aconteceu versus um cenário ideal onde todos cumpriram a rotina de treinos sem interrupções.

“Criamos cenários de intervenções plausíveis e estimamos como seria o risco de sintomas depressivos se as pessoas mantivessem esses níveis de atividade física ao longo dos 12 anos”, explica o pesquisador.

Dois cenários

Foram avaliados dois cenários principais: praticar atividade física moderada ou vigorosa pelo menos duas vezes por semana, ou realizar ao menos um dia de atividade física vigorosa na semana. Em ambos os casos, os resultados da simulação apontaram redução consistente no risco de desenvolver sintomas depressivos, tanto na coorte norte-americana quanto na inglesa.

Entre os norte-americanos, a prática de atividades físicas moderadas duas vezes por semana esteve associada a uma redução de cerca de 12% no risco de sintomas depressivos; entre os ingleses, a queda foi de aproximadamente 13%. Já o cenário com pelo menos um dia de atividade física vigorosa reduziu o risco de sintomas depressivos em 13% nos Estados Unidos e 16% no Reino Unido.

“Nossos resultados demonstram que a prática de atividade física moderada já traz benefícios tão grandes para as pessoas idosas quanto a atividade vigorosa. Não há necessidade de exercícios muito intensos”, diz Werneck. E não é preciso fazer um exercício físico organizado. Atividades como caminhar e cuidar do jardim já entram na categoria de atividade física moderada e são práticas mais acessíveis à população idosa.

Os resultados da simulação também indicam que atividade física em doses menores do que as recomendações tradicionais pode ser suficiente para a saúde mental – a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica a prática de 150 minutos de atividade moderada a intensa por semana, incluindo também exercícios de força muscular. “Alguma atividade física é melhor do que nenhuma. A partir de certo ponto, o ganho adicional passa a ser pequeno”, afirma Werneck, ressaltando que políticas públicas deveriam priorizar pessoas completamente inativas a saírem do sedentarismo porque já haveria um ganho em saúde mental.

Risco da depressão em idosos

Segundo a OMS, a depressão é um problema de saúde pública e afeta mais de 25 milhões de indivíduos no mundo. Entre os idosos, está crescendo de forma acelerada, causando aumento do risco de mortalidade, piora de doenças crônicas, declínio cognitivo e maior vulnerabilidade ao suicídio.

O professor do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London Brendon Stubbs, orientador de Werneck, disse por e-mail à Agência FAPESP que a escolha do público idoso para análise do impacto da atividade física na saúde mental foi estratégica. “A depressão em pessoas idosas é comum, pouco reconhecida e frequentemente confundida como parte normal do envelhecimento, o que não é verdade”, afirma. “Além disso, trata-se de um grupo que tende a praticar menos atividade física e a enfrentar fatores de risco adicionais, como isolamento social e perda de autonomia, o que reforça a relevância de investigar estratégias preventivas para esse grupo.”

Stubbs destaca que a atividade física é uma das poucas intervenções capazes de atuar simultaneamente na saúde mental, física e funcional, com risco muito baixo e ampla acessibilidade. “Mesmo pequenas quantidades já estão associadas a uma redução significativa dos sintomas depressivos. A relação não é do tipo tudo ou nada”, diz o pesquisador. “Caminhar, pedalar ou fazer jardinagem, desde que elevem a frequência cardíaca, já podem trazer benefícios.”

O estudo não avaliou se existe algum tipo específico de exercício que seja superior aos outros. Mas, segundo os pesquisadores, tanto atividades aeróbicas quanto treinamento de força e movimentos funcionais mostraram associação positiva com a saúde mental. “Isso é importante, porque permite que as pessoas escolham atividades de que gostam e que consigam manter ao longo do tempo. Do ponto de vista da saúde mental, o melhor exercício é aquele que se encaixa na vida da pessoa, respeita sua capacidade física e parece viável”, diz Stubbs.

Segundo os pesquisadores, a adesão à prática da atividade física a longo prazo ainda é o maior desafio e é onde muitas intervenções fracassam. Eles ressaltam que as estratégias mais eficazes são aquelas que incorporam o movimento à rotina diária – em vez de tratá-lo como uma tarefa separada – e estimulam a interação social.

“A conexão social é fundamental. Praticar atividade física com outras pessoas, mesmo de forma informal, melhora a adesão e o humor. A flexibilidade também é importante. Permitir que as pessoas ajustem a intensidade e o tipo de atividade conforme sua necessidade é muito mais eficaz do que programas rígidos. A atividade física deve ser vista como uma ferramenta para manter a independência e o bem-estar, e não como um remédio”, afirma Stubbs.

Para os autores, os resultados desse estudo podem orientar políticas públicas mais inclusivas, com foco em pequenas mudanças sustentáveis e na criação de ambientes que facilitem o movimento na velhice. “Integrar a promoção da atividade física à atenção primária, aos serviços comunitários e ao planejamento urbano amigável ao envelhecimento é fundamental. Investir em programas e espaços que tornem a atividade física fácil, social e prazerosa pode gerar retornos importantes para a saúde mental da população idosa”, finaliza Stubbs.

O artigo Effect of physical activity intervention on late-life depressive symptoms: a target trial emulation using two cohort studies pode ser lido em sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0165032725010754.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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