O que é poluição luminosa?

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Entenda o que é a poluição luminosa, que causa danos à saúde de humanos e animais

Terra vista do espaço

Em 1994, um terremoto de magnitude 6.7 causou um imenso apagão em Los Angeles, nos Estados Unidos. Com isso, muitos moradores ligaram assustados para a emergência informando sobre uma “enorme nuvem prateada” no céu. Eles afirmavam que ela poderia ser a causadora do apagão ou até mesmo fazer parte de uma invasão alienígena. A nuvem nada mais era do que a Via Láctea, que eles estavam vendo pela primeira vez. A história não causa espanto se considerarmos que cerca de 2/3 dos norte-americanos e metade dos europeus não conseguem visualizar nossa galáxia à noite por conta da poluição luminosa.

visão das estrelas longe de centros iluminados

A poluição luminosa começou há milhares de anos de forma bem simples, com o fogo e as velas, mas claro que tais impactos eram muito baixos. Porém, com a invenção da eletricidade, no século XIX, e com o surgimento das primeiras iluminações públicas no fim daquele mesmo século, nosso mundo foi tomado pela luminosidade da luz artificial.

Poluição luminosa é o excesso de luz artificial emitida pelos grandes centros urbanos. Ela pode ser emitida de diversas formas, como por luzes externas, anúncios publicitários e, principalmente, pela iluminação pública. O impacto da poluição luminosa começou a ser mais conhecido com a pressão de astrônomos amadores dos Estados Unidos na década de 1980. Eles reclamavam da perda de visibilidade quando tentavam observar estrelas. Além disso, a poluição luminosa tem outras consequências, afetando nossa saúde e os ecossistemas, tornando-se um grande prejuízo para todos os cidadãos.

Tipos de poluição luminosa

Brilho do céu (sky glow)

Exemplo de poluição luminosa

É o brilho do céu à noite ou em partes dele. Sua causa mais comum são luzes artificiais que emitem poluição luminosa acumulada e que podem ser vistas a quilômetros de distância do espaço. De acordo com a International Dark Sky Association, de Los Angeles, o brilho da iluminação pode ser visto a mais de 300 km de distância. Esse fenômeno é pior em áreas com alta concentração de poluição atmosférica. O uso de lâmpadas de sódio mal direcionadas causa um efeito de cor alaranjada. Se o brilho tender para o branco, é devido ao uso de lâmpadas de mercúrio, que são mais nocivas ao meio ambiente.

Luz intrusa (light trespass)

Esse tipo de poluição luminosa ocorre quando a iluminação de um ambiente invade o outro. Por exemplo, quando a luz da iluminação pública da rua invade seu quarto e não permite que ele fique totalmente escuro durante a noite.

Ofuscamento (glare)

Ocorre quando a luz excessiva não é protegida propriamente e brilha de forma horizontal, diminuindo a visibilidade, causando desconforto e até cegueira momentânea. Um exemplo desse tipo de poluição luminosa ocorre quando um carro trafega com faróis altos na direção contrária à nossa.

Existem diversos tipos de poluição luminosa

Desordem (light clutter)

Essa poluição luminosa é causada por grupos excessivos de luzes que podem gerar confusão, distração de obstáculos e causar acidentes. A desordem pode ser observada em estradas em que as luzes são mal posicionadas e acabam por distrair ou atrapalhar os motoristas, contribuindo para a ocorrência de acidentes. A cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, possui excessivas luzes coloridas, sendo um exemplo de desordem de luz.

Excesso de iluminação (over illumination)

É o uso excessivo da luz, gerando desperdício de energia. Nos Estados Unidos, o excesso de iluminação é responsável por um desperdício aproximado de 2 milhões de barris de petróleo por dia. Como pode ser observado na imagem, a luz utilizada para iluminar o prédio não era necessária.

Impactos

A poluição luminosa causa diversos impactos para os seres vivos, afetando os ciclos migratórios, alimentares e reprodutivos de diversas espécies de animais e plantas. A aranha orb weaver, por exemplo, utiliza a atração que as luzes artificiais exercem em insetos para capturá-los, construindo sua teia próximas às fontes artificiais de luz e destruindo o balanço de um ecossistema inteiro.

Outro impacto é a influência negativa em rotas migratórias de aves - várias espécies migrantes noturnas têm seus mecanismos de orientação interferidos e se desorientam ao atravessarem áreas muito iluminadas. Essa interferência leva esses pássaros a se chocarem com prédios, montanhas, solo ou até mesmo uns com os outros. Em 1954, aproximadamente 50 mil aves morreram após seguirem um farol da força área americana e voarem diretamente para o solo. Algumas aves acreditam que a primavera chegou mais cedo e começam a se reproduzir prematuramente ou até mesmo a migrar antes da época correta por causa da grande iluminação.

As tartarugas-de-couro fazem seus ninhos na praia e, quando os filhotes nascem, eles são instintivamente guiados pelo reflexo da luz das estrelas e da lua para seguirem em direção ao mar. Porém, ao invés de irem ao encontro dos oceanos, eles seguem as luzes dos hotéis e das ruas em direção ao continente e acabam morrendo de desidratação, devorados por algum predador ou até mesmo atropelados por carros.

Animais com bioluminescência - que é a produção e emissão de luz por um organismo vivo e que tem diversas funções (camuflagem, comunicação e atração de presas e parceiros para reprodução) - também são afetados. Em áreas intensamente iluminadas, esse fenômeno perde sua função. Por esse motivo, em diversas regiões do mundo, os vaga-lumes são cada vez mais escassos. As fêmeas dos vaga-lumes utilizam a bioluminescência para atrair os machos em até 45 metros de distância, mas, com a presença de luz artificial, essa ferramenta é prejudicada, reduzindo a reprodução da espécie.

Algumas espécies de plantas não florescem se a duração da noite é mais curta, enquanto outras florescem prematuramente. A fotossíntese induzida pela luz artificial pode produzir um crescimento anormal e uma defasagem nos períodos de floração e descanso das plantas.

Outros impactos para o meio ambiente são a desorientação das abelhas, o aumento da vulnerabilidade dos zooplânctons para os peixes, a invasão de espécies nas cidades, como as mariposas gigantes na Ásia, e a exposição de animais noturnos a predadores, limitando seu tempo de alimentação e reprodução.

Problemas para humanos

Fora os impactos citados, nós humanos também sofremos com essa exposição intensa à luz, afinal, nós também somos animais. O excesso de luz exterior invade nossas casas e perturba nosso sono. Além disso, a iluminação atrai alguns insetos que podem ser portadores de doenças.

A luz noturna provoca mudanças no sono e confunde o ritmo circadiano, que é o período de aproximadamente 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico de praticamente todos os seres vivos. Esse ritmo influencia os nossos padrões de sono, temperatura e produção de hormônios. Essa confusão tem sido relacionada com distúrbios de sono, depressão, obesidade e transtornos de humor.

Estudos recentes também sugerem que a exposição prolongada à luz artificial pode aumentar o risco de desenvolver certos tipos de câncer, como o de mama e outros relacionados aos hormônios. Pesquisas indicaram que mulheres que trabalham durante a noite têm maiores chances de desenvolver câncer de mama e, em 2007, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês) considerou trabalho noturno como um “provável cancerígeno humano”.

A visualização da nossa galáxia a olho nu também é afetada pela poluição luminosa e, hoje em dia, quem nasceu e viveu nas grandes cidades não tem contato com o universo. O excesso de iluminação desperdiçada em direção ao céu ofusca nossa visão e faz com que a imagem perca qualidade, de modo que apenas as estrelas mais cintilantes são visíveis. Veja na figura abaixo a constelação de Orion vista em áreas urbanas (direita) e em áreas livres de poluição luminosa (esquerda).

Astrônomos amadores sofrem muito com esse impacto, sendo necessário que se dirigirem para zonas mais afastadas das cidades, em locais pouco iluminados e mais altos. Essa iluminação também interfere nos equipamentos dos astrônomos, como o espectrográfico, que são instrumentos que medem como a luz emitida por um objeto se dispersa em cores diferentes. Com essa medição é possível definir a massa, composição química, temperatura e luminosidade de um corpo no espaço, porém, a poluição luminosa interfere nas medições.

Adicionalmente, alguns elementos utilizados nas lâmpadas para se manterem acesas são altamente poluentes e podem causar grandes impactos ambientais quando descartados. Entre esses elementos estão o mercúrio, chumbo, cádmio, estrôncio e bário.

Isso sem contar que a poluição luminosa é um grande desperdício de energia e dinheiro. Aproximadamente um quarto de todo o gasto de energia é direcionado para geração de luz. Um pesquisa realizada na Áustria em 2008 descobriu que cerca de 30-50% da contribuição do governo para o efeito estufa se devia à iluminação pública, da qual aproximadamente 30% é desperdiçada iluminando o céu. As consequências desse desperdício são inúmeras, pois grande parte dessa energia consumida é originada de fontes poluidoras como termoelétricas, que consomem recursos naturais e liberam poluentes como o dióxido de carbono para atmosfera, além de ser um peso no orçamento.

Soluções

Felizmente, comparada a outros tipos de poluição, a poluição luminosa é uma das mais facilmente remediadas. A iluminação correta é aquela em que a luz ilumina a área que interessa iluminar. Se cada fonte de iluminação refletir para baixo a luz que iria para os lados e para cima, melhora-se a iluminação da área com menor potência e consumo de energia. A ilustração abaixo exemplifica essa medida.

A substituição por lâmpadas mais eficientes diminui o consumo de energia e ilumina mais. Para o sistema de iluminação pública, uma das lâmpadas mais eficientes são as de vapor de sódio de alta e baixa pressão, que possuem um tempo de vida longo, baixo consumo energético e ótima eficiência se comparadas aos outros modelos. As lâmpadas LED têm sido apontadas como outra opção por consumirem pouca energia e serem direcionadas, porém, essas lâmpadas emitem uma luz mais forte que as lâmpadas comuns. A instalação de sensores de presença em alguns locais também diminui o gasto energético, iluminando a área apenas quando ela necessita ser iluminada.

Algumas medidas já vêm sendo tomadas. Em Paris, por exemplo, da 1h às 7h da manhã, luzes de lojas, escritórios e fachadas da cidade das luzes devem estar apagadas, excetuando áreas turísticas como a Torre Eiffel, que pode ficar acessa.

Flagstaff, no Arizona (EUA), é a primeira cidade grande moderna com céu escuro, em que medidas foram amplamente tomadas para diminuir a poluição luminosa, como o direcionamento das luzes e sua proteção para que a luz não se disperse e a limitação da iluminação emitida por acre. Ainda assim, a poluição luminosa aumenta em 20% a cada ano, na maioria das vezes devido à associação entre segurança e luz.

No Brasil, existe a necessidade de uma legislação nacional, fixando parâmetros a fim de evitar e corrigir a poluição luminosa. Além de medidas normativas, a conscientização da população é fundamental. O Laboratório Nacional de Astrofísica preparou uma apostila que alerta e fornece informações sobre a poluição luminosa e as formas de combatê-la. Eles apresentam uma “regra de ouro” que todos nós deveríamos seguir: “iluminar apenas o que for preciso e apenas durante o tempo que for necessário”.

Ações como as citadas podem economizar energia, dinheiro e diminuir os danos para o meio ambiente. E não apenas esses benefícios. Diminuir essa poluição pode nos devolver a capacidade de olhar além de nós mesmos e vislumbrarmos a imensidão do espaço.

Veja as incríveis imagens gravadas pelo fotógrafo e astrônomo Mark Gee para a Semana Internacional do Céu Escuro.



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