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Desmatamento, poluição luminosa e uso de pesticidas estão levando o vaga-lume ao risco de extinção. Entenda

Vaga-lume piscando, grilo que canta interrompido pelo som da fogueira estalando a madeira seca, céu estrelado e comida feita na panela de barro. Tudo isso é característico de um cenário que já quase não existe mais: a vida como ela era antes da urbanização

A perturbação urbana não prejudica somente os habitantes dos centros urbanos. Infelizmente, o pequeno besouro que acende, também conhecido como pirilampo, também foi atingido. O vaga-lume está em vias de extinção, por causa da perda de habitat, da poluição luminosa e do uso de pesticidas.

O nome pirilampo é originário do grego peri (em volta) e lampein (luz). Por ser comum na Mata Atlântica e em outros ecossistemas brasileiros, o pequeno inseto também foi agraciado com seu nome tupi: “uauá”. Na linguagem popular, é chamado também de mosca-de-fogo, salta-martim, lampíride, lampiro, lumeeira, pirífora, entre outros nomes.

Vaga-lumes no Brasil

Em entrevista ao Jornal da Unesp, o biólogo molecular Vadim Viviani, docente do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências (IB) da instituição, explica que só no Brasil há mais de 500 espécies diferentes de vaga-lume. 

De acordo com o pesquisador, “alguns têm estágio larval de cerca de um ano, no qual se alimentam de caramujos, e fase adulta, que dura apenas um mês”. Já outros têm estágio larval mais longo.

Um terceiro tipo, mais raro (encontrado apenas na América do Sul), “além de produzir luz verde-amarelada por fileiras de lanternas ao longo do corpo, é o único que produz luz vermelha, localizada na cabeça. A larva, que se alimenta de piolhos-de-cobra, dura dois anos e o adulto, em média, uma semana”.

Para Viviani, é importante preservar o vaga-lume para manter o equilíbrio ecossistêmico, de modo que também seja possível investigar a sua luz e aplicá-la para fins biotecnológicos e biomédicos. 

Isso porque os genes das luminosidade do vaga-lume podem ser utilizados como biomarcadores (indicadores mensuráveis de detecção de doenças), já que, ao serem transferidos para uma bactéria, ela fica iluminada.

Riscos à sobrevivência do vaga-lume

Apesar de sua importância para o meio ambiente e para a ciência, o vaga-lume está desaparecendo. Pesquisas publicadas na BioScience indicam que a perda de habitat, a poluição luminosa e os pesticidas ameaçam a ocorrência do vaga-lume. 

De acordo com Sara Lewis, professora de biologia da Universidade Tufts e pesquisadora do vaga-lume, a perda de habitat é o principal motivo pelo qual há cada vez menos insetos bioluminescentes (que emitem luz própria).

Sem as condições ambientais necessárias ao seu desenvolvimento, o vaga-lume não consegue completar seu ciclo de vida. Uma espécie originária da Malásia, cientificamente chamada de Pteroptyx tener, é um exemplo nesse sentido. Mangais e plantas específicas para sua reprodução, que constituem seu habitat natural, foram aos poucos sendo substituídos fazendas de aquicultura e plantações para extração de óleo de palma.

Poluição luminosa nas cidades é nociva para os vaga-lumes

Outro fator significativo que prejudica a reprodução do vaga-lume é a luminosidade das cidades. De acordo com pesquisadores, em entrevista para a CNN, as luzes acesas durante a noite impedem que os vaga-lumes encontrem parceiros sexuais.

Isso porque a forma de atração utilizada entre eles é o padrão bioluminescente (que emite luz naturalmente) localizado na parte inferior do segmento abdominal do inseto.

A luciferina (classe de pigmentos responsável pela bioluminescência em animais) é oxidada pelo oxigênio nuclear, com mediação da enzima luciferase, resultando em oxiluciferina, que perde energia na forma luz, e não calor – uma forma da fêmea comunicar a sua presença para atrair o parceiro sexual.

A poluição luminosa pode surgir de luzes da rua, sinais comerciais e brilho do céu, uma iluminação mais difusa que se espalha para além dos centros urbanos e pode ser mais brilhante que a lua cheia.

O vaga-lume macho também exibe padrões bioluminescentes específicos para atrair as fêmeas, que respondem em troca. Infelizmente, luzes artificiais podem imitar e, assim, confundir os sinais entre eles. 

Além disso, a poluição luminosa pode ser muito intensa para os vaga-lumes, que acabam emitindo e reconhecendo inadequadamente sinais ritualísticos para o acasalamento.

Pesticidas também são um problema

No livro Antes que os vaga-lumes desapareçam ou Influência da iluminação artificial sobre o ambiente, o autor brasileiro Alessandro Barghin concorda que a iluminação artificial tem um papel importante na queda do número de vaga-lumes em nosso ecossistema.

Mas os obstáculos para a permanência do vaga-lume não param por aqui. Ainda há um terceiro fator que inviabiliza a reprodução desse inseto: o uso de pesticidas. 

De acordo o Center of Biological Diversity, pesticidas sistêmicos como os neonicotinoides que penetram no solo e na água, prejudicam as larvas do vaga-lume e suas presas, impossibilitando que se alimentem. 

Para piorar, como os vaga-lumes são geralmente encontrados em habitats de áreas úmidas, eles são ameaçados pela pulverização de inseticidas contra mosquitos. Como resultado, as larvas passam fome ou têm anomalias de desenvolvimento que impedem o crescimento da população.

Como reduzir a pressão ambiental sobre o vaga-lume?

Os protestos públicos do Grupo Especialista em Vaga-lume da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), bem como da Rede Internacional de Vaga-lumes, procuram promover a conscientização sobre as populações cada vez menores de vaga-lume.

Para proteger esses insetos luminosos que há muito cativam a imaginação com suas luzes de conto de fadas, muito trabalho ainda precisa ser feito, especialmente considerando o relatório do UK Wildlife Trusts sobre o “apocalipse silencioso”, em que 41% da população mundial espécies de insetos enfrentam extinção.

O portal americano Treehugger listou quatro principais formas de reduzir a pressão ambiental sobre o vaga-lume:

  • Evitar o uso de pesticidas;
  • Não eliminar vermes, caramujos e lesmas – desse modo, as larvas dos vaga-lumes podem se alimentar;
  • Desligar as luzes sempre que possível;
  • Providenciar grama, folhagens e arbustos, que são bons ambientes para o vaga-lume;

Outra prática que tem sido vista como a salvação para o vaga-lume é o ecoturismo. Em lugares como o Japão, Taiwan e Malásia, é uma atividade recreativa assistir às espetaculares exibições de luzes apresentadas por algumas espécies de vaga-lume. Se essa prática se estender para outras regiões do globo, como o Brasil, é possível que tenha impactos positivos.