Microplástico: um dos principais poluentes dos oceanos

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Partículas quase invisíveis de microplástico são prejudiciais à vida marinha e ao ser humano

Microplástico
Imagem de Brian Yurasits em Unsplash

O microplástico, como o próprio nome diz, é uma pequena partícula de plástico. Esse tipo de material é um dos principais poluentes dos oceanos. Alguns pesquisadores consideram que o tamanho máximo do microplástico é de 1 milímetro, enquanto outros adotam a medida de 5 milímetros.

O grande problema é que, como mencionado em nossa matéria sobre a grande quantidade de plástico nos oceanos, o microplástico altera a composição de certas partes dos oceanos, prejudicando o ecossistema da região e consequentemente a saúde humana.

Crescente consumo de plástico

Nas últimas décadas, a produção de plástico tem aumentado significativamente em função da sua aplicabilidade em itens de diferentes setores. Dentre os polímeros mais comuns, destacam-se o polipropileno, o polietileno, o policloreto de vinila, o poliestireno e o polietileno tereftalato, que correspondem a cerca de 90% da demanda de plástico no mundo.

Essa procura por materiais plásticos está relacionada ao seu baixo custo, alta durabilidade e resistência a produtos químicos, radiação e pressão. Em consequência do consumo de produtos feitos por esses polímeros, são geradas grandes quantidades de resíduos que nem sempre são reciclados ou reutilizados, sendo lançados de forma direta ou indireta no ambiente e causando uma série de danos. Desse modo, as atividades antrópicas e industriais são consideradas altamente impactantes, pois são as principais fontes de inserção de plásticos no ambiente.

Como o microplástico vai parar no meio ambiente?

Lavagem de roupa

Grande parte das roupas são compostas por fibras têxteis sintéticas de plástico - um exemplo é o poliéster. Durante a lavagem das roupas, por meio do choque mecânico, as partículas de microplástico se desprendem e acabam sendo enviadas para o esgoto, indo parar em corpos hídricos e no ambiente.

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As fibras têxteis de plástico também vão parar no ar. Um estudo sugere que o simples atrito de um membro do corpo com o outro, quando a pessoa está vestida com roupas de fibras têxteis sintéticas plásticas, já seria o suficiente para dispersar o microplástico na atmosfera. Essa poeira de microplástico pode ser inalada, juntar-se ao vapor ou ir parar em seus alimentos, por exemplo.

Cosméticos e produtos de higiene

Alguns sabonetes, cremes, pastas, géis e máscaras esfoliantes são um perigo para o ambiente. Esses produtos podem ser feitos com partículas de polietileno que, após o uso, caem diretamente na rede de esgoto. Mesmo quando há estações de tratamento, as microesferas de plástico dos cosméticos não são retidas pela filtragem de partículas, pois são muito pequenas, e acabam indo parar no oceano.

Tintas látex e acrílicas

Uma reportagem mostrou que a tinta plástica utilizada em casas, carros e navios se desprende por meio de intempéries e vai parar no oceano, formando uma camada de microplástico na superfície do mar. Vale ressaltar que as tintas látex e acrílicas usadas para artesanato também podem ser acrescentadas nesse tópico como materiais geradores de microplástico.

Pesca fantasma

A pesca fantasma está associada ao abandono e descarte de equipamentos desenvolvidos para capturar animais marinhos. Além de colocar em risco toda a vida marinha, esses itens possuem plástico em sua composição. Ao se degradarem, essas partículas plásticas se transformam em microplástico.

Nurdles

Diferente dos resíduos plásticos que se degradam até se tornarem microplástico, os nurdles já são feitos com um tamanho reduzido. Eles são a maneira mais econômica de transferir grandes quantidades de plástico para fabricantes de uso final do material em todo o mundo. O problema é que navios e trens despejam acidentalmente essas bolinhas em estradas ou no mar; ou a parte que sobra da produção não é tratada adequadamente. Se alguns milhares de nurdles caem no mar ou em uma rodovia, é praticamente impossível fazer a limpeza.

Material semelhante aos nurdles são os pellets, feitos da mesma maneira mas em formato cilíndrico. Os pellets também vão parar no ambiente devido às perdas no transporte e contaminam corpos hídricos, solo e animais.

Descarte incorreto

Durante o ano, pelo menos oito milhões de toneladas de resíduos plásticos que foram descartados incorretamente vão parar nos oceanos, lagos e rios do mundo todo. Esses descartes, se fossem encaminhados corretamente para a reciclagem, poderiam voltar para a cadeia energética. Mas, uma vez no oceano, se fragmentam em microplástico e acabam entrando na cadeia alimentar, participando inclusive da dieta humana.

Cada canudo, sacola, tampa, rótulo ou embalagem descartados incorretamente se quebrarão e formarão microplástico. O plástico não desaparece, só fica menor.

Impactos do microplástico

Incorpora partículas tóxicas

Quando escapa para o meio ambiente, o microplástico atua como captador de poluentes orgânicos persistentes (POPs) altamente nocivos. Dentre esses poluentes estão os PCBs, os pesticidas organoclorados, o DDE e o nonilfenol. Os POPs são tóxicos e estão diretamente ligados a disfunções hormonais, imunológicas, neurológicas e reprodutivas. Eles ficam durante muito tempo no ambiente e, uma vez ingeridos, têm a capacidade de se fixarem na gordura do corpo, no sangue e nos fluidos corporais de animais e humanos.

Entra na cadeia alimentar

Ingerir microplástico contaminado não é muito difícil, já que essas partículas estão presentes no meio ambiente desde o final da Segunda Guerra Mundial. Na Indonésia, trabalhadores da pesca já estão consumindo mexilhões contaminados por plásticos. Mas não é somente na Indonésia, no Reino Unido e na Austrália, os mexilhões também estão contaminados por essas partículas.

Recentemente, um novo estudo realizado pela Universidade de Bayreuth mostrou que o microplástico está presente em mexilhões de todo o mundo. A equipe de pesquisadores investigou a carga de microplástico de quatro espécies desse molusco que são vendidas com frequência como alimento em supermercados de doze países ao redor do mundo.

Todas as amostras analisadas continham partículas microplásticas, e os pesquisadores detectaram um total de nove tipos diferentes de plástico. O polipropileno (PP) e o tereftalato de polietileno (PET) foram os tipos de plástico mais comuns encontrados durante a realização da pesquisa.

Além disso, outra pesquisa concluiu que a água potável é uma fonte significativa de microplástico na dieta humana. Por isso, a padronização de métodos para analisar microplástico faz-se urgentemente necessária.

Causa poluição química

Os bisfenóis, utilizados em larga escala pela indústria, estão presentes em tintas, resinas, latas, embalagens e materiais de plástico em geral. Quando escapam para o ambiente, além da poluição visual e física que causam, geram poluição química. Uma vez no ambiente e no organismo, o bisfenol se comporta como um disruptor endócrino, podendo causar esterilização, problemas comportamentais, diminuição da população, entre outros.

Retarda o crescimento de plantas

Um estudo realizado por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst e da Universidade Shandong, na China, mostrou que o microplástico presentes no solo podem reduzir a biomassa total das plantas, o que tem influência direta no rendimento e valor nutricional das safras.

Apresenta riscos para a vida animal

O microplástico também apresenta diversos riscos para a vida animal. Quando vai parar no meio ambiente, ele pode reduzir a população de animais, prejudicar o desenvolvimento de ovos de aves, causar deformidades sexuais em répteis e peixes e provocar alterações na metamorfose de anfíbios. Três pesquisas realizadas com o objetivo de analisar a disseminação de microplástico entre esses indivíduos mostraram que 30% dos peixes amazônicos têm o intestino contaminado por partículas plásticas.

Outra pesquisa demonstrou que os plásticos no oceano podem liberar produtos químicos que causam deformidades nas larvas de ouriços-do-mar. Em um experimento, ouriços-do-mar que tiveram contato com esses compostos tóxicos desenvolveram uma variedade de anormalidades, incluindo esqueletos deformados e complicações no sistema nervoso. Dessa maneira, pode-se concluir que produtos químicos utilizados para tratar plásticos também podem apresentar riscos para a vida animal, já que são liberados na água.

Por fim, um estudo demonstrou que os microplásticos afetam as espécies marinhas de forma desigual. A equipe de pesquisadores identificou tendências que ajudam a explicar por que certos animais são mais vulneráveis à ingestão de plástico do que outros, como é o caso de peixes. De acordo com os dados coletados, espécies que vivem em ambientes marinhos mais poluídos e ocupam níveis tróficos superiores nas cadeias alimentares são mais suscetíveis ao consumo de microplásticos.

Provocam prejuízos à saúde humana

Os alimentos embalados por recipientes contendo bisfenol sofrem contaminação. Ao consumirmos esses produtos, ingerimos também o bisfenol, cujo consumo está comprovadamente associado a diabetes, síndrome do ovário policístico, câncer, infertilidade, doenças cardíacas, fibromas uterinos, abortos, endometriose, déficit de atenção, entre outras doenças.

Além disso, um relatório chamado “Plastics, EDCs & Health: A Guide For Public Interest Organizations and Policy-makers on Endocrine Disruption Chemicals & Plastics” demonstrou que diversos tipos de plástico se comportam como disruptores endócrinos, podendo causar esterilização, problemas comportamentais, diminuição da população e outros danos à saúde.

Microplástico revelado na placenta de gestantes

Pela primeira vez, pesquisadores de um estudo publicado na revista Environment International encontraram microplástico nas placentas de mulheres gestantes, o que causou grande preocupação.

Os pesquisadores notaram uma dúzia de partículas de plástico em apenas 4% de placenta, o que sugere que o número total de microplásticos pode ser muito maior. Todas as partículas analisadas eram plásticos tingidos de azul, vermelho, laranja ou rosa e podem ter origem em embalagens, tintas ou cosméticos e produtos de higiene pessoal.

No estudo, os pesquisadores concluíram que "devido ao papel crucial da placenta no apoio ao desenvolvimento do feto e em atuar como uma interface com o ambiente externo, a presença de partículas de plástico potencialmente nocivas é uma questão de grande preocupação. Mais estudos precisam ser realizados para avaliar se a presença de microplásticos pode desencadear respostas imunológicas ou pode levar à liberação de contaminantes tóxicos, resultando em danos. ”

Outra pesquisa mostrou que as mamadeiras podem ser fonte de ingestão de microplástico em bebês. Observando as taxas de consumo de leite em mamadeiras e de amamentação em todo o mundo, pesquisadores estimaram que um bebê consome, em média, 1,6 milhão de partículas de microplástico todos os dias.

Na América do Norte, onde mamadeiras de plástico são mais comuns e as taxas de amamentação são mais baixas quando comparadas aos índices de países em desenvolvimento, esse número chega a 2,3 milhões de partículas por dia. Na Europa, a taxa é de 2,6 milhões; na França, Holanda e Bélgica, entretanto, pode chegar até 4 milhões.

Para saber mais sobre esse tema, acesse a matéria “Mamadeiras podem ser fonte de ingestão de microplástico em bebês, diz estudo”.

Como evitar a presença de microplástico?

Confira dicas de como evitar a disseminação de microplásticos:

  • Diminua o consumo de plásticos;
  • Não consuma animais marinhos e contribua com iniciativas que retirem redes de pesca e outros plásticos do mar;
  • Evite consumir alimentos armazenados em recipientes de plástico;
  • Troque sua escova de dentes de plástico por uma de bambu;
  • Tente usar absorventes de pano ou coletor menstrual;
  • No lugar de tecidos de fibra sintética, utilize algodão orgânico;
  • Quando comprar alimentos, cosméticos e produtos em geral, prefira aqueles que venham em embalagens de vidro, papel ou sem embalagens, como shampoos e sabonetes em barra;
  • Recicle, reutilize e reaproveite;
  • Zere o consumo de itens de plástico supérfluos, como canudinhos, glitter, copos descartáveis e sacolas;
  • Pegue e dê carona. Cada carro a mais é sinônimo de mais microplástico no ar e na água;
  • Zere o consumo de cosméticos com esfoliantes sintéticos: substitua-os por receitas naturais;
  • Descarte corretamente e encaminhe para reciclagem;
  • Conheça a New Plastics Economy, uma iniciativa que quer repensar o futuro aplicando os princípios da Economia Circular ao ramo do plástico, começando pelas embalagens;
  • Pressione empresas e governos para que diminuam o uso de plástico, utilizem embalagens retornáveis e com design menos nocivo e garantam o retorno do plástico utilizado à cadeia de produção.

Embora sejam encontrados nos mais diversos ambientes, detectar e identificar o microplástico ainda é um desafio, já que não existe uma metodologia padrão para esses processos. Diante disso, pesquisadores de diferentes áreas estão empenhados em estabelecer a melhor técnica para realizar esses procedimentos em amostras ambientais. Enquanto isso, você pode adotar algumas medidas citadas acima para diminuir a disseminação de microplástico no meio ambiente e reduzir os diversos danos causados por eles.



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