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Nova pesquisa explica como funciona o cérebro de indivíduos com visões de mundo extremistas

Imagem de PublicDomainPictures em Pixabay

Um estudo publicado na segunda-feira (21) no periódico The Royal Society Publishing aponta que alguns traços psicológicos podem ajudar na identificação de pessoas vulneráveis ​​à radicalização ideológica. Conduzido com cerca de 350 cidadãos norte-americanos, a pesquisa examinou a relação entre as características cognitivas dos indivíduos – o processo inconsciente pelo qual o cérebro aprende e processa informações do meio ambiente – e suas visões de mundo.

Os resultados sugerem a existência de paralelos entre o desempenho de pessoas com visões extremistas em jogos cerebrais e o padrão de atitudes políticas, religiosas e dogmáticas a que elas aderem. Em artigo para o jornal The Conversation, Leor Zmigrod, autor principal do estudo e professor do Departamento de Psicologia e Instituto de Neurociência Clínica e Comportamental da Universidade de Cambridge, explica como foram obtidos os resultados.

Jogos cerebrais

Cada participante do estudo completou uma série de testes de personalidade e recebeu tarefas neuropsicológicas destinadas a explorar diferenças individuais implícitas na maneira como os seres humanos interagem com o ambiente, toma decisões e reage a mudanças ou desafios.

Todas as tarefas eram neutras e objetivas. Os participantes receberam instruções sobre os estímulos visuais que se moviam na tela e não tinham nenhum conhecimento prévio de qual processo mental a tarefa estava medindo.

Em uma tarefa, os participantes tiveram de determinar se um grupo de pontos estava se movendo para a esquerda ou para a direita. Em outro, eles precisavam memorizar uma série de formas visuais ou números e, em seguida, relatar a ordem em que apareciam na tela.

A equipe utilizou o desempenho dos indivíduos nesses “jogos cerebrais” para extrair informações sobre sua percepção, aprendizado e capacidade de se envolver em um processamento mental complexo e estratégico.

Com isso, os pesquisadores descobriram que indivíduos com atitudes extremistas tendem a apresentar mau desempenho em tarefas mentais complexas. Pessoas que endossam a violência para proteger seu grupo ideológico também possuem fracas habilidades de regulação emocional – são mais impulsivas e buscam sensações e emoções diferentes.

Além disso, a equipe examinou a assinatura psicológica de diferentes visões políticas. Em algumas tarefas cognitivas, os participantes foram solicitados a responder da forma mais rápida e precisa possível. Algumas pessoas priorizaram estratégias mentais lentas e constantes, enquanto outras optaram, inconscientemente, por estratégias rápidas e furiosas que sacrificam a precisão, mas se destacam na velocidade.

Nessas tarefas, pessoas com uma posição política conservadora costumavam ser mais cautelosas, porque seus cérebros priorizavam abordagens mais lentas e precisas. Em contraste, as mentes de indivíduos com visões mais liberais de mundo e daqueles que acreditam que o status quo existente deve ser revisado têm maior probabilidade de adotar estratégias perceptivas mais rápidas e menos precisas.

Mentes dogmáticas

De acordo com o professor Zmigrod, a abordagem também revelou outra impressão digital psicológica inesperada: a natureza da mente dogmática.

Os participantes dogmáticos que resistiam a atualizar suas crenças em resposta a evidências novas e confiáveis ​​eram mais lentos para processar evidências em tarefas perceptivas. Portanto, quando foram solicitados a determinar se os pontos estavam se movendo para a esquerda ou para a direita da tela, eles demoraram mais para processar as informações e tomar uma decisão.

Os indivíduos dogmáticos também apresentaram uma personalidade mais impulsiva – o que os levava a tomar decisões prematuras com base em evidências que eram mal compreendidas. Isso significa que, se nosso cérebro for mais lento para amarrar as peças de evidência em seu ambiente perceptivo, podemos inadvertidamente nos tornar mais resistentes a evidências e perspectivas alternativas.

A pesquisa mostra que o cérebro humano contém pistas – “metáforas sutis”, como descreve o professor – para as ideologias que escolhemos seguir e as crenças às quais nos apegamos rigidamente. Parece haver semelhanças ocultas nas mentes dos indivíduos mais dispostos a tomar medidas extremas para apoiar suas doutrinas ideológicas.

O processo idiossincrático sob o qual nosso cérebro funciona pode refletir as ideologias que escolhemos adotar. Se nossa mente tende a reagir aos estímulos com cautela, ela também pode ser atraída por ideologias cautelosas e conservadoras. Se lutamos para processar e planejar sequências de ação complexas, podemos ser atraídos para ideologias mais extremas que simplificam o mundo e nosso papel nele.

Esses traços cognitivos que as ideologias deixam em cada indivíduo podem não ser necessariamente consertados. A pesquisa psicológica também mostra que temos a capacidade de mudar, crescer e nos tornarmos mais abertos e tolerantes. Segundo Zmigrod, o estudo é somente um primeiro passo, mas entender como esse processo pode contribuir para medidas de suporte a pessoas vulneráveis ​​ao extremismo e promover a compreensão social através das divisões ideológicas.

A relação entre ideologia e os traços psicológicos

As análises revelaram que as atitudes ideológicas dos indivíduos refletiam suas estratégias cognitivas de tomada de decisão. Conservadorismo e nacionalismo foram relacionados a uma maior cautela nas tarefas de tomada de decisão perceptiva e ao processamento reduzido de informações estratégicas, enquanto o dogmatismo foi associado ao acúmulo de evidências mais lento e tendências impulsivas.

A religiosidade foi associada a uma maior percepção de risco. Atitudes pró-grupo extremas, incluindo endosso de violência contra grupos divergentes, foram vinculadas a uma capacidade de memória reduzida, a estratégias perceptivas mais lentas e a tendências para impulsividade, refletindo sobreposições com os perfis psicológicos de conservadorismo e dogmatismo.

Assinaturas cognitivas e de personalidade também foram geradas para ideologias como autoritarismo, justificativa do sistema, orientação de dominação social, patriotismo e receptividade a evidências ou pontos de vista alternativos, elucidando seus fundamentos e destacando caminhos para pesquisas futuras. Juntas, essas descobertas sugerem que as visões de mundo ideológicas podem refletir as funções perceptivas e cognitivas de baixo nível.


Fontes: The Royal Society Publishing e The Conversation


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