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O conceito de afrofuturismo mistura tecnologia, ancestralidade, distopia e fantasia do ponto de vista da comunidade negra

O afrofuturismo é um movimento cultural que usa o conceito da tecnologia para projetar um futuro do ponto de vista da comunidade negra, a partir de obras literárias, musicais, acadêmicas e do audiovisual. 

O termo afrofuturismo surgiu em 1994, graças ao crítico cultural Mark Dery, em seu ensaio chamado “Black to the Future” (em português “Pretos para o futuro”). No ensaio, Mark defende que pessoas negras também têm muito o que falar sobre tecnologia e cultura que está por vir. O conceito já vinha sendo discutido bem antes da década de 1990, nos Estados Unidos, mas foi só depois de Mark que o movimento começou a ganhar forma e força. 

Os participantes do afrofuturismo utilizam a experiência da diáspora Africana, da escravidão e da luta por direitos iguais para visualizar um futuro onde eles são os personagens principais. Em um mundo onde a supremacia branca não moldou tudo em que as pessoas acreditam e pregam.

Além disso, o afrofuturismo se caracteriza pela ficção científica, pela ancestralidade, fantasia e distopia. Desta forma o movimento afrofuturismo se constrói como um guia para que a sociedade chegue em um futuro de empoderamento da população negra. 

Por ser um movimento cultural, o avanço e desenvolvimento do afrofuturismo é tido por meio de obras musicais, literárias, cinematográficas e acadêmicas. Figuras como a autora Octavia Butler, a cantora Janelle Monáe e o compositor e poeta Sun Ra são grandes exemplos do trabalho afrofuturista. 

Importância do afrofuturismo

As demandas do afrofuturismo são as mesmas que o movimento negro defende, a mudança do sistema — que é estruturalmente racista —, o fim da violência policial, o fim das prisões e mais oportunidades para pessoas negras, seja no mercado de trabalho ou nos espaços culturais. 

Muito além da representatividade nos produtos culturais, o afrofuturismo faz com que as pessoas repensem o sistema racista em que se encontram. Ou seja, ao entrar em contato com esse tipo de protagonismo negro, o indivíduo consegue questionar o mundo em que vive e imaginar uma sociedade onde as pessoas não sofrem discriminação e não são divididas de acordo com sua raça ou origem etnica. 

Os artistas e pensadores que fazem parte do movimento também conseguem projetar um futuro onde a sua ancestralidade não foi apagada e onde eles podem ser os protagonistas do desenvolvimento humano. Ao fornecer a essas comunidades marginalizadas a visão de futuro, os afrofuturistas conseguem fazer com que as pessoas tenham esperança e tentem proteger seus iguais.

Em entrevista para o portal Clever, o romancista gráfico do afrofuturismo, Tim Fielder, comentou um pouco sobre a importância do movimento: “Temos o poder de mostrar o aspecto de um futuro inclusivo”. 

“Podemos mostrar como é a habitação e o transporte  ergonômico, a alimentação e a igualdade da água, assim como o desmantelamento do racismo estrutural. Quando uma narrativa é incorporada com esses elementos visuais, assume um tecido de ligação mais poderoso. Isto é afrofuturismo“, conclui.  

Exemplos do afrofuturismo 

Como já foi mencionado, o afrofuturismo não é um conceito que surgiu recentemente.Existem diversas obras que abordam o assunto e podem exemplificar de forma literal e prática o intuito do movimento. Confira a seguir uma lista de exemplos de afrofuturismo em produtos culturais:

Filhos de Sangue e Ossos de Tomi Adeyemi

A trama, escrita por Tomi Adeyemi, é o primeiro livro da saga e foi publicado em 2018. A história mistura a cultura africana ocidental com temas que são relevantes no dia de hoje, enquanto conta a história de Zélie Adebola. A jovem personagem precisa lutar para trazer de volta a magia de seu mundo e livrar ele da monarquia violenta que a domina. 

Kindred: Laços de Sangue de Octavia Butler 

Um dos principais marcos da literatura afrofuturista, “Kindred” conta a história de Dana, uma escritora negra, que sem querer, viaja no tempo em seu aniversário de 26 anos. Logo, ela se encontra presa no século XIX pré-guerra civil, nas fazendas sulistas dos Estados Unidos, onde a escravidão ainda é uma realidade para muitos. 

“Space is the Place” de Sun Ra

O poeta e compositor de jazz, Sun Ra, é mundialmente conhecido por seu trabalho com o afrofuturismo. No filme “Space is the Place”, o artista escreveu todas as letras e criou músicas com seu estilo experimental chamado de “música cósmica”. Na história Sun Ra se encontra em uma viagem intergalática transcendendo o espaço e tempo.

George Clinton 

Compositor e musicista, George Clinton trabalhou com o coletivo Parliament-Funkadelic, e teve papel significativo para o funk da cultura afro-americana durante os anos 70. Ele baseou suas obras musicais em ficção científica, moda extravagante, cultura psicodélica e humor surreal.

Shuri: A Procura do Pantera Negra

Os quadrinhos do Pantera Negra são famosos por trazerem o afrofuturismo para um debate mais amplo, discutindo a pauta racial dentro do mundo dos super-heróis. Nesta edição, a história é focada em Shuri, a irmã mais nova do herói, e a jovem mais inteligente de Wakanda. A trama é voltada para as dificuldades e obstáculos que Shuri encontra ao tentar entender seu próprio caminho, achar seu irmão e salvar seu país. 

“Dirty Computer” de Janelle Monáe 

A cantora e compositora Janelle Monáe sempre aborda o afrofuturismo em suas obras, desde o início de sua carreira. O seu álbum “Dirty Computer” não é diferente, aproximando cada vez mais o seu ouvinte do tema. 

Gilberto Gil 

A cultura pop brasileira não fica de fora. Gilberto Gil é um dos grandes nomes do afrofuturismo brasileiro, o que se concretiza em músicas como “Cérebro eletrônico”, de 1969, e “Tipo África”, de 1977.  Além de ser uma figura importante para a música popular brasileira e o movimento anti-ditadura no Brasil, Gilberto Gil tem papel significativo quando se trata da comunidade negra. 

“Sleepless Nights” de Dinner Party

A banda de jazz Dinner Party é formada por Kamasi Washington, Robert Glasper, Terrace Martin e 9th Wonder. Os quatro integrantes trabalham juntos para trazer o afrofuturismo em suas músicas e seus clipes, como o vídeo de “Sleepless Nights” que os acompanha em uma jornada espacial. 

Atualmente, o integrante Kamasi Washington está trabalhando no desenvolvimento de uma história em quadrinhos que também aborda o afrofuturismo