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Com reconhecimento de papel no enfrentamento à crise climática, guardiões de 80% da biodiversidade do planeta têm vozes amplificadas em Glasgow e querem gerir fundos climáticos

Agência Pública

Por Anna Beatriz Anjos em Agência Pública – A primeira semana da COP-26, em Glasgow, na Escócia, foi marcada por um comunicado inédito: no dia 1º de novembro, os governos do Reino Unido, EUA, Alemanha, Noruega e Países Baixos, junto a dezessete entidades filantrópicas, anunciaram que doarão US$ 1,7 bilhão – quase R$ 10 bilhões no câmbio atual – para que povos indígenas e comunidades locais protejam seus territórios e ajudem a combater as mudanças climáticas. 

O gesto inédito é apenas um dos episódios que colocaram as populações nativas em lugar de destaque no início da conferência do clima mais importante dos últimos anos. Dias depois, o príncipe Charles, do Reino Unido, recebeu um grupo de indígenas de diferentes lugares do mundo. Entre eles, estava a brasileira Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que trouxe a esta COP a maior comitiva de sua história, com mais de 40 representantes.  

O protagonismo foi além dos encontros e salas oficiais. Os indígenas estiveram na linha de frente dos dois atos por justiça climática que tomaram as ruas da cidade escocesa na sexta-feira (5) e no sábado (6). Entre eles, lideranças brasileiras como Guajajara, Célia Xakriabá e as jovens Samela Sateré Mawé e Juma Xipaia, também integrantes da delegação da Apib. Além disso, entre os eventos paralelos à COP, organizados pela sociedade civil, há um sem fim de mesas e debates em que os povos nativos são as figuras centrais.

A análise de que a relevância e alcance das vozes indígenas vêm crescendo nas últimas conferências do clima, até chegar a patamar inédito em Glasgow, foi confirmada por lideranças ouvidas pela Agência Pública durante a última semana. 

“Das COPs de que participei, essa é totalmente diferente, nunca tive tanta agenda na minha vida como tive aqui”, contou Sineia do Vale, do povo Wapichana, coordenadora do Departamento Ambiental do Conselho Indígena de Roraima (CIR) há duas décadas. Vale, que discursou na Cúpula de Líderes sobre o Clima promovida pelo governo dos EUA em abril e atua em negociações internacionais sobre o tema há pelo menos dez anos, está em sua quarta conferência. “Tem sido uma COP diferente, onde os povos indígenas tiveram espaço, foram ouvidos e realmente conseguiram trazer suas estratégias”, disse.

Ex-relatora especial da ONU sobre Direitos Indígenas, a filipina Victoria Tauli-Corpuz frequenta as COPs desde sua primeira edição, no Rio de Janeiro, em 1992, quando a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês) foi assinada.

Ela prefere aguardar o fim das negociações para qualificar esta como “a COP indígena” – e afirma que só o fará se as demandas desses grupos forem atendidas em pontos importantes –, mas destaca que as populações nativas vieram paulatinamente construindo sua participação não apenas nos ambientes de articulação da sociedade civil, mas dentro da própria estrutura da Convenção. “É um resultado da crescente força do movimento global dos povos indígenas”, explica. “Envolve organização, tomada de consciência, pesquisa e treinamento em habilidades de advocacy. É um pacote de mobilização.” 

Ainda de acordo com Tauli-Corpuz, a coordenação entre povos de diferentes lugares do mundo e o apoio de atores externos, como a academia, fizeram com que o papel indígena no enfrentamento às mudanças climáticas ganhasse relevância.

Este texto foi originalmente publicado por Agência Pública de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original.