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Por Lihuan Zhou e Hayden Higgins em WRI Brasil | Finanças sustentáveis são essenciais na luta para reverter as mudanças climáticas, e o setor tem dado alguns sinais de progresso.

Da mesma forma que no restante do setor privado, dentro do qual pelo menos 20% das duas mil maiores empresas de capital aberto do mundo se comprometeram a atingir emissões líquidas zero até 2050, muitos investidores estão determinados a reduzir suas emissões de carbono. Por exemplo, mais de 450 empresas, que juntas administram US$ 130 trilhões em ativos, se juntaram à Aliança Financeira de Glasgow pelo Zero Líquido, uma coalizão de iniciativas de bancos, administradores e proprietários de ativos, seguradoras e outras instituições de serviços financeiros.

Só que reduzir as emissões – um esforço também chamado de mitigação – não é a única coisa que os investidores precisam fazer para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.

Como estabelecido no Acordo de Paris, também precisamos construir resiliência aos impactos climáticos e assegurar uma transição justa para as comunidades e trabalhadores afetados pelas ações em prol do clima. Atingir essas metas exige um conceito mais abrangente de insvestimentos sustentáveis. Sem isso, os investidores perderão uma oportunidade de impacto e vantagem competitiva.

A definição de investimentos alinhados ao Acordo de Paris

Investimentos sustentáveis está entre as três principais metas do Acordo de Paris. O objetivo é “tornar os fluxos financeiros consistentes com a redução das emissões de gases de efeito estufa e com o desenvolvimento resiliente ao clima”. Atingir a meta financeira é essencial para concretizar também as outras duas: limitar o aumento da temperatura a 1,5°C e se adaptar a um clima em constante mudança. E todas devem ser alcançadas de forma justa, compartilhando os custos e benefícios da transição para uma economia de baixo carbono, um processo também chamado de “transição justa”.

Embora os investidores ainda priorizem a meta relacionada à temperatura e a redução de emissões que ela exige, deveriam estar igualmente preocupados em promover a adaptação e uma transição justa. As metas do Acordo de Paris não serão cumpridas sem uma transição justa, sem a inclusão de trabalhadores, povos indígenas, comunidades na linha de frente e outros grupos cujas vidas e meios de subsistência se encontram ameaçados pelas ações necessárias para promover uma economia resiliente e de baixo carbono.

Em resumo, as transições climáticas não acontecerão sem justiça social. E sem uma transição climática os impactos das mudanças no clima continuarão se tornando mais severos – não apenas para a humanidade, mas também em termos de rendimentos de mercado.

Por que os investidores devem priorizar a resiliência às mudanças climáticas

A adaptação climática deveria ser tão importante para os investidores quanto a mitigação. As empresas em que investem precisam estar preparadas para os impactos de um mundo em aquecimento – desde os efeitos mais pontuais, como ondas de calor que matam as safras, até os crônicos, como as migrações induzidas pelas mudanças no clima. Em paralelo, outras podem se beneficiar ao oferecer produtos essenciais para um futuro mais resiliente ao clima, como colheitas mais resistentes ou novas formas de construir.

Os investidores precisam entender a inteligência por trás desse mercado. O Fundo Monetário Internacional descobriu que os danos diretos dos impactos climáticos representaram um custo de US$ 1,3 trilhão entre 2010 e 2019. Cada furacão, seca, incêndio e inundação causados ou reforçados pelas mudanças climáticas pode fechar negócios, derrubar ações ou exigir que trabalhadores faltem ao trabalho. Esses impactos físicos resultam em retornos menores. Um estudo do WRI sobre as usinas termelétricas indianas mostrou como a seca poderia interromper a geração de energia e ameaçar os lucros.

Empresas e investidores institucionais inteligentes já trabalham para minimizar esses riscos. Porém, a preocupação ainda não está incorporada de forma sistemática nos produtos financeiros, principalmente no caso de fundos de gestão passiva, como fundos mútuos e ETFs (sigla em inglês para exchange traded fund). Fundos como esses raramente levam em conta a resiliência ou riscos físicos.

Isso se deve, em parte, à dificuldade de medir, categorizar e avaliar esses riscos. As estruturas para a divulgação são irregulares, o que deixa até mesmo os investidores com dificuldade de conceber um fundo ou produto financeiro sustentável, usando informações que podem ser incorretas, incompletas ou imprecisas.

Ainda assim, nenhum fundo pode ignorar os impactos climáticos. E as empresas, como membros desses fundos, devem agir de forma proativa para incorporar os riscos climáticos em suas estratégias gerais, além de tomar decisões para aumentar a resiliência.

Os investidores, por sua vez, podem investir diretamente em projetos de adaptação para apoiar as empresas em seus esforços visando aumentar a resiliência. Também podem contribuir para melhorar a resiliência das comunidades onde as empresas operam e onde vivem seus funcionários. Afinal, mesmo se ainda houver eletricidade depois de uma tempestade, a produtividade dos funcionários vai cair se não encontrarem ruas, pontes ou transporte em condições de uso. As empresas com boas práticas de adaptação e resiliência serão recompensadas pelos investidores com a compra de ações e custos de capital mais baixos.

Por que os investidores devem priorizar uma transição justa

Para alguns investidores, cujo foco principal é gerar impactos positivos ou fazer o que é certo, a transição justa é uma escolha simples. Entretanto, investidores mais focados em retornos financeiros também precisam reconhecer a materialidade da questão – e que esse é um processo amplo e de longo prazo. O desempenho financeiro de uma empresa depende cada vez mais de suas práticas no ambiente de trabalho, na comunidade onde opera e em como contribui para a sociedade como um todo.

O Acordo de Paris é claro ao endossar uma transição justa – porque a ação climática acontece de forma mais ágil e eficaz quando mobiliza grandes massas e evita prejudicar aqueles que busca proteger. De acordo com a Climate Focus, por exemplo, é impossível cumprir o Acordo de Paris sem proteger os territórios indígenas, uma vez que as comunidades indígenas e locais ocupam e protegem grande parte das florestas do mundo, responsáveis por enorme armazenamento de carbono.

As empresas que não aceitam a necessidade de uma transição justa podem ter de arcar com os riscos à sua reputação. Esse equilíbrio pode ser complexo, como visto em estudos de caso desde o Marrocos até Alberta, no Canadá. Uma empresa de mineração de cádmio cujo metal é utilizado em células solares fotovoltaicas, por exemplo, pode acabar poluindo a água de comunidades próximas, colocando em risco sua reputação corporativa, mesmo que seu produto contribua para reduzir as emissões de carbono.

Os investidores precisam agir de forma proativa para identificar questões pertinentes em uma transição justa e selecionar investimentos de forma diligente. Também devem incorporar essas questões em seus processos de gestão (stewardship), para fazer com que as empresas que recebem os investimentos também caminhem nessa direção.

Setor financeiro precisa ir além de zerar emissões líquidas

O alinhamento ao Acordo de Paris é um processo abrangente. Outros elementos que os investidores devem considerar incluem, por exemplo, se as empresas que apoiam alinharam seus esforços de lobby com a ação climática.

Embora muitos investidores tenham estabelecido compromissos visando emissões líquidas zero, o Acordo de Paris – cujas metas quase todos os governos do mundo estão comprometidos a concretizar – vai muito além da redução de emissões. O acordo estabelece metas e uma visão para a construção de uma economia global descarbonizada, resiliente, inclusiva e equitativa.

Na corrida por investimentos sustentáveis, padrões, ações e discursos às vezes andam fora de sincronia. Um investimento alinhado ao Acordo de Paris só se concretiza quando os três fatores – mitigação, adaptação e transição justa – são considerados.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.

Este texto foi originalmente publicado por WRI Brasil de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.