Organofosforados: o que são, sintomas de intoxicação, impactos e alternativas

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Saiba mais sobre seus usos, como os organofosforados agem, quais sintomas causam e as alternativas

Organofosforados

Os agrotóxicos organofosforados são ésteres, amidas ou derivados tiol dos ácidos de fósforo, contendo várias combinações de carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo, enxofre e nitrogênio. Compostos orgânicos altamente lipossolúveis e biodegradáveis, eles são rapidamente hidrolisados tanto nos meios biológicos quanto no ambiente, se distribuindo de forma rápida pelos tecidos orgânicos e ultrapassando as barreiras placentárias e hematoencefálicas.

Os organofosforados têm sido um dos inseticidas agrotóxicos mais utilizados desde meados do século XX, sendo uma alternativa aos hidrocarbonetos clorados, que persistem no meio ambiente. O primeiro organofosforado a ser sintetizado, em 1854, foi o tetraetilpirofosfato (TEEP), e atualmente existem mais de 50 mil formulações conhecidas de agrotóxicos organofosforados - aproximadamente 40 delas são utilizadas como inseticidas.

Os agrotóxicos são produtos químicos ou biológicos utilizados para exterminar doenças ou pragas que prejudicam a produção agrícola. Eles atuam no controle de endemias, como nos casos de dengue, febre amarela ou doença de Chagas.

O uso desses produtos está em alta nos países em desenvolvimento, como no caso do Brasil, em que foi registrado um crescimento de 162% da utilização de agrotóxicos em um período de 12 anos, de 2000 a 2012, o que gera um grave problema de saúde pública. Estima-se que milhões de agricultores sejam intoxicados anualmente no mundo e que mais de 20 mil mortes sejam causadas em consequência da exposição a agrotóxicos, levando o Instituto Nacional do Câncer a se posicionar contra o uso das substâncias.

As razões da ampla utilização desses compostos como inseticida são sua forte atividade biológica, combinada com sua instabilidade na biosfera, que fazem com que eles tenham um tempo pequeno de meia-vida em plantas. Eles são os mais utilizados também por conta de seu baixo custo, síntese fácil e baixa toxicidade para muitos organismos.

No entanto, além de serem os mais utilizados, os organofosforados são também os agrotóxicos que mais causam problemas à saúde humana. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), eles são os maiores causadores de intoxicações, sendo responsáveis por um grande número de mortes no Brasil devido à toxicidade aguda.

Como exemplo dos efeitos à saúde humana é possível citar o clorpirifós, inseticida neurotóxico que, quando estudado em laboratório, desregulou os hormônios da tireoide de camundongos, interferiu no sistema reprodutivo masculino de ratos, induziu alterações histopatológicas de testículos e levou à diminuição da contagem de espermatozoides e da fertilidade animal. Em humanos, ele pode causar desde dores de cabeça até inconsciência, além de ter sido associado ao aumento do risco de leucemia e de linfoma não-Hodgkin.

Absorção pelo organismo humano

Os organofosforados são absorvidos pelo organismo humano pelas vias oral, cutânea e respiratória. Após sua absorção, são sintetizados e seus produtos são rapidamente distribuídos pelos tecidos. As reações de síntese ocorrem principalmente no fígado, formando produtos menos tóxicos e mais polares - trata-se do organismo tentando eliminar os organofosforados de forma mais fácil. De acordo com a Agricultural Insurance Organization (OGA), em 2003, a meia-vida destes compostos após administração única pode variar de minutos a poucas horas, dependendo de qual o composto específico e qual a via de absorção.

A síntese do composto pode ocorrer de forma a ativá-lo ou inativá-lo. A inativação se dará pela ligação do organofosforado a certos sítios no organismo ou por modificações bioquímicas. Sua eliminação ocorre principalmente pelas fezes ou urina. Uma pequena parte é eliminada de forma inalterada pela urina, enquanto 80 a 90% do que foi absorvido é eliminado em 48 horas de forma alterada.

Mecanismo de ação

O mecanismo de ação dos organofosforados se dá principalmente pela inibição enzimática. Os principais alvos de sua atuação tóxica entre as enzimas esterases são a acetilcolinesterase (AChE), nas sinapses químicas e nas membranas dos eritrócitos, e a butirilcolinesterase (BChE) no plasma. A inibição da AChE leva ao acúmulo da acetilcolina (ACh) nas terminações nervosas, já que esta é responsável por hidrolisar a ACh produzindo colina e acetato.

A ACh é responsável por estimular receptores pós-sinápticos, devendo se desligar do receptor ao fim do estímulo para liberá-lo para estímulos futuros e evitar respostas repetitivas e descontroladas após um único estímulo. Quando ocorre a intoxicação, os centros esterásicos da AChE são inibidos por uma ligação covalente do agrotóxico organofosforado nas enzimas colinesterases, e sua ação é cessada. Nesses casos, há acúmulo de ACh, gerando hiperestimulação colinérgica e aparecimento dos sinais e sintomas desencadeados por interações com os receptores nicotínicos, muscarínicos e do sistema nervoso central.

A ligação entre o organofosforado e as colinesterases é um processo que demora de 24 a 48 horas para ocorrer e, durante esse intervalo, o tratamento através de um antídoto ainda é eficaz. Como a ligação é estável, sem o tratamento específico há fosforilação da enzima, causando seu envelhecimento por perda de grupamento alquila. Depois disso a enzima afetada não se regenera mais. Quando o processo estiver completo a enzima não poderá mais ser reativada e a recuperação da atividade enzimática poderá levar semanas para ocorrer.

Sintomas da intoxicação

Os sintomas vão aparecer de forma rápida ou tardia, dependendo da solubilidade do organofosforado nos tecidos. Se a absorção do produto ocorrer pela via respiratória, os sintomas tendem a aparecer em poucos minutos; já nas absorções pelas vias cutânea ou oral os sintomas podem demorar a se manifestar. No entanto, se ocorrer uma exposição cutânea pontual, os efeitos tendem a surgir em uma área restrita, sendo a reação exacerbada se houver lesão cutânea ou dermatite.

A intoxicação por estes agrotóxicos tem o quadro clínico característico de hiperestimulação colinérgica, podendo ocorrer intoxicação aguda, sub-crônica ou crônica (neurotoxicidade tardia).

Quando ocorre intoxicação aguda há um conjunto de sintomas denominados síndrome parassimpaticomimética, muscarínica ou colinérgica. A exposição do indivíduo a baixos níveis do composto está associada a lacrimejamento, salivação e micção/defecação involuntárias. Níveis mais elevados são associados a confusão, ataxia, diminuição dos reflexos, convulsões, coma e paralisia no centro respiratório. A evolução dos sintomas até a morte decorre da insuficiência respiratória, produzida pelo conjunto de ações muscarínicas nos brônquios, nicotínicas nas placas motora e centrais. O tempo entre a exposição e o óbito pode variar de cinco minutos a 24 horas, dependendo da via de exposição, dose e outros fatores. Geralmente a intoxicação é tratada com anticolinérgicos (atropina) e regeneradores da AChE (oximas).

A intoxicação subcrônica ocorre dentro de 24 a 48 horas após a exposição, sendo caracterizada pela debilidade dos músculos próximos da extremidades, flexores do pescoço, língua, faringe e músculos respiratórios, comprometimento da função respiratória, diminuição ou ausência dos reflexos miotendinosos e envolvimento de nervos cranianos.

Já a intoxicação crônica é atribuída a várias exposições, envolvendo diferentes substâncias e doses. Há evidências de aparecimentos de sintomas como desordens de personalidade e psiquiátricas (psicoses, ansiedade, depressão, alucinações e agressividade), neurotoxicidade retardada (paralisia dos nervos motores), parkinsonismo, diminuição dos reflexos, dificuldade de concentração, depressão da medula óssea e anemia aplástica, com possibilidade de desenvolvimento de leucemia.

Danos causados ao meio ambiente

Há muitos estudos sobre os efeitos agudos causados pelos compostos organofosforados, mas os inseticidas não se restringem somente a esses efeitos, agredindo o meio ambiente e provocando também efeitos crônicos sobre invertebrados e vertebrados, como resultado de longas exposições a diferentes moléculas de organofosforados. Esses inseticidas apresentam duas características marcantes: são mais tóxicos para os vertebrados que os demais inseticidas e são quimicamente instáveis, portanto se degradam no ambiente impedindo sua absorção pelos seres vivos.

Estimativas de eficiência de aplicação relatam que apenas cerca de 0,1% dos pesticidas aplicados atingem as pragas-alvo, enquanto o restante se espalha pelo ambiente. O uso desse produto causa também, em grande parte, contaminação de espécies que não interferem no processo de produção que se tenta controlar (espécies não-alvo).

Além disso, ainda que o tempo de meia-vida destes compostos não seja longo, existe a possibilidade de permanecerem na água resíduos e subprodutos em níveis relativamente nocivos para o consumo humano. Assim, eles podem ser transportados por via terrestre ou aérea, afetando uma maior área e podendo também contaminar recursos hídricos superficiais e subterrâneos utilizados no abastecimento de água potável dos municípios. Junto com sua capacidade de dispersão, isso pode causar grandes danos não só a uma população específica de animais e plantas, mas gerar um desequilíbrio ecológico.

Outro problema é a contaminação por embalagens com borras. A destinação dessas embalagens é prevista na Lei 9.974 de 6 de junho de 2000 (alteração da Lei 7.802/89), que obriga os usuários a devolverem as embalagens aos estabelecimentos comerciais e também responsabiliza as empresas produtoras e comercializadoras a recolherem e destinarem adequadamente estas embalagens. Entretanto, é verificado que anualmente são comercializados cerca de 130 milhões de unidades de embalagens de agrotóxicos e somente 10 a 20% são recolhidas e destinadas adequadamente, favorecendo a contaminação do meio ambiente.

Alternativas para evitar seu consumo

Todas essas informações nos levam a questionar se os problemas causados por esses agrotóxicos justificam seu uso. Uma alternativa para se evitar o consumo desse "veneno" é procurar por alimentos orgânicos, que são produzidos por meio de outras técnicas de agricultura que não utilizam agrotóxicos, hormônios ou outros produtos químicos. As técnicas utilizadas em todo o seu processo de produção buscam respeitar o ambiente e visam a qualidade do alimento.

Caso não haja como comprar esses alimentos, deve-se recorrer a outras técnicas, como a higienização de forma natural (veja em nossa matéria “Livre seus alimentos de pesticidas de forma saudável”), buscar alimentos dentro de sua época, já que para a produção de um alimento em sua época certa há necessidade de menor quantidade de agrotóxicos, e procurar produtos com origem identificada, pois isso garante um maior comprometimento do produtor a se enquadrar nas normas definidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), obedecendo os limites determinados.

E não se esqueça: grande parte das mudanças provém dos consumidores. Informe-se sobre quais pesticidas são permitidos no Brasil e pressione as autoridades quanto a leis mais restritivas para liberação desses produtos e uma maior fiscalização para garantir o uso correto. Além de pressionar para o uso de alternativas como os biopesticidas e os bioestimulantes.

Confira o vídeo (em espanhol) sobre a intoxicação por agrotóxicos organofosforados produzido pelo canal "Aprendiendo Medicina MED-X".


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