A biorreciclagem de plástico utiliza agentes biológicos para decompor resíduos e pode abrir novos caminhos para a reciclagem
A biorreciclagem de plástico utiliza agentes biológicos, como microrganismos e enzimas, para degradar determinados polímeros. Dependendo do processo, também pode permitir a recuperação de componentes que podem ser reaproveitados.
A tecnologia vem despertando o interesse de pesquisadores como uma alternativa para enfrentar um dos maiores desafios ambientais da atualidade: o acúmulo de resíduos plásticos no planeta.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo produz cerca de 430 milhões de toneladas de plástico por ano. Apesar do volume produzido, menos de 10% dos resíduos plásticos são efetivamente reciclados.
Além disso, a diversidade dos polímeros, as misturas de materiais e a presença de aditivos dificultam a separação e o processamento dos resíduos. Em um estudo sobre o comércio internacional de resíduos plásticos, pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Sydney observaram que materiais de baixo valor comercial muitas vezes acabam descartados por não despertarem o interesse dos recicladores.
Nesse cenário, a biorreciclagem de plástico surge como uma possibilidade para ampliar as alternativas de tratamento e recuperação de resíduos. Mas como os agentes biológicos conseguem atuar sobre um material tão resistente? E até que ponto essa tecnologia já pode ser aplicada em escala industrial?
O que é biorreciclagem de plástico?
A biorreciclagem de plástico é um processo que utiliza organismos vivos ou seus componentes, como enzimas, para atuar sobre a estrutura química dos plásticos.
Dessa forma, algumas enzimas conseguem quebrar as ligações que formam determinados polímeros, liberando moléculas menores que podem ser utilizadas como matéria-prima para produzir novos materiais.
A atuação dos agentes biológicos depende do tipo de plástico e das características de sua estrutura molecular. Os microrganismos podem produzir enzimas capazes de degradar certos polímeros, enquanto enzimas isoladas também podem ser utilizadas diretamente no tratamento dos resíduos.
Como funciona a biorreciclagem?
Em um artigo publicado em 2025 no Journal of Water Process Engineering, pesquisadores explicam como as enzimas podem atuar sobre a estrutura dos plásticos.
Na prática, os plásticos são formados por longas cadeias de moléculas chamadas polímeros. Na biorreciclagem, as enzimas atuam sobre essas estruturas e promovem a quebra das ligações químicas que mantêm as cadeias unidas.
O resultado pode ser a liberação de moléculas menores, que passam por etapas de separação e purificação antes de serem utilizadas novamente como matéria-prima.
Outro estudo, publicado na revista Biochemistry, analisou o comportamento do polietileno tereftalato (PET), utilizado na fabricação de garrafas de bebidas e embalagens. Nesse caso, enzimas chamadas PETases e cutinases podem promover a despolimerização do material, liberando compostos como o ácido tereftálico e o etilenoglicol. Esses componentes podem ser recuperados e utilizados na fabricação de um novo PET, reduzindo a necessidade de matéria-prima virgem.
Outra descoberta importante é que algumas bactérias e fungos também conseguem produzir enzimas que participam da degradação de polímeros. De acordo com os pesquisadores, a bactéria Ideonella sakaiensis, identificada em 2016, utiliza duas enzimas, PETase e MHETase, para decompor o PET em componentes menores.
Saiba mais na matéria: Entenda o que é despolimerização
Biorreciclagem de plástico versus biodegradação
Apesar de terem processos que possam soar parecidos, é importante diferenciar a biodegradação da biorreciclagem de plástico.
Um artigo, publicado na Science of The Total Environment, mostra que a biodegradação pode envolver a decomposição do plástico até substâncias mais simples, como água, dióxido de carbono e biomassa.
Já a biorreciclagem busca recuperar componentes que possam retornar à cadeia produtiva. Portanto, degradar um plástico não significa necessariamente reciclá-lo.
Quais plásticos podem ser biorreciclados?
O PET, usado em garrafas, embalagens e até fibras têxteis, é um dos principais alvos das pesquisas sobre biorreciclagem de plástico. Um estudo, publicado em 2025 na revista Chemical Science, mostra que enzimas capazes de quebrar esse polímero já apresentam resultados promissores, embora ainda existam desafios para ampliar o processo e torná-lo economicamente competitivo.
As pesquisas também investigam outros materiais, como alguns tipos de poliuretano (PU), poliamida (PA) e policarbonato (PC). Uma revisão publicada na revista Microbiology and Molecular Biology Reviews, em 2025, também apresenta avanços na identificação de microrganismos e enzimas capazes de atuar sobre esses polímeros ou seus derivados.
Já plásticos mais comuns, como polietileno (PE), polipropileno (PP) e policloreto de vinila (PVC), ainda representam um desafio maior. De acordo com a Chemical Science, esses materiais apresentam estruturas químicas resistentes à degradação enzimática, e ainda não existem processos capazes de viabilizar sua reciclagem em larga escala.
O poliestireno (PS) também está entre os polímeros para os quais ainda não são conhecidos microrganismos ou enzimas capazes de promover uma degradação eficiente. É o que aponta a revisão da Microbiology and Molecular Biology Reviews.
Além disso, os pesquisadores reforçam que encontrar microrganismos que interagem com determinado plástico não significa que ele já possa ser biorreciclado em escala industrial.
Quais são os desafios para ampliar a biorreciclagem?
Embora os resultados com o PET sejam promissores, a biorreciclagem de plástico ainda enfrenta obstáculos para se tornar uma alternativa economicamente competitiva em larga escala.
A tecnologia ainda não alcança todos os plásticos
Os pesquisadores apontam que, atualmente, apenas uma parcela dos resíduos plásticos é adequada à degradação enzimática, e que os processos ainda precisam avançar em eficiência e viabilidade econômica.
Um dos desafios está nas características do próprio material: garrafas e fibras de PET, por exemplo, podem apresentar uma estrutura mais cristalina, que dificulta o acesso das enzimas às cadeias poliméricas. Por isso, alguns resíduos precisam passar por um pré-tratamento em temperaturas elevadas antes da etapa enzimática.
Processo precisa ser otimizado para uso em larga escala
Outro estudo, publicado na revista Communications Materials, mostra que o custo da biorreciclagem também é um entrave. Isso porque as enzimas precisam apresentar alta atividade e estabilidade para atuar em grandes volumes de resíduos, sem perder eficiência durante o processo.
Para os pesquisadores, apesar da descoberta de uma infinidade de enzimas naturais capazes de catalisar a degradação do PET nos últimos 20 anos, elas ainda não estão otimizadas para um uso industrial eficiente e econômico. Por outro lado, a reciclagem enzimática segue sendo vista com otimismo.
Apesar dos desafios, algumas iniciativas já demonstram o potencial de aplicação da tecnologia fora dos laboratórios. Em uma unidade de demonstração industrial na França, a empresa Carbios despolimerizou 36 toneladas de resíduos de PET em 2025, utilizando enzimas desenvolvidas para esse processo. A instalação permite testar a tecnologia em escala pré-industrial e aprimorar as condições necessárias para sua futura aplicação comercial.
Separação ineficaz dos resíduos plásticos
Plásticos descartados podem conter misturas de polímeros, corantes, aditivos e contaminantes, o que dificulta o tratamento. O estudo da Chemical Science também argumenta que a separação dos resíduos faz diferença: a coleta inadequada e a triagem pouco eficiente dificultam o reaproveitamento de materiais que poderiam servir de matéria-prima nesses processos.
Impactos ambientais da biorreciclagem de plástico
Os pesquisadores também reforçam a necessidade de avaliar os impactos ambientais de todo o processo. Embora a ação das enzimas ocorra em condições mais brandas do que alguns processos químicos, o pré-tratamento dos resíduos, o consumo de energia e as etapas de purificação também precisam entrar nessa conta.
No artigo da Chemical Science, uma análise de ciclo de vida identificou que a reciclagem enzimática de PET de alta cristalinidade, como o utilizado em garrafas, pode apresentar impacto ambiental maior do que a produção de PET virgem de origem petroquímica. O pré-tratamento necessário para tornar o material acessível às enzimas foi um dos fatores responsáveis pelo resultado.
Ainda assim, a pesquisa aponta que o cenário pode ser diferente para outros resíduos. Para os pesquisadores, embalagens termoformadas de baixa cristalinidade e materiais multicamadas podem servir como alternativas mais interessantes para a reciclagem enzimática, especialmente quando esses materiais não encontram rotas eficientes de reaproveitamento e acabam em aterros ou na incineração.
A biorreciclagem de plástico não precisa substituir todas as formas de reciclagem para fazer diferença. Ao permitir a recuperação de componentes de materiais que hoje têm poucas alternativas de reaproveitamento, essa tecnologia pode ampliar as possibilidades de tratamento dos resíduos plásticos.
As pesquisas com outros polímeros também avançam e podem abrir caminho para novas soluções, tão necessárias, no tratamento do lixo plástico.