Financiado pelo Edital USP Sustentável, manual tem como objetivo avaliar a saúde ambiental de riachos por meio da identificação de invertebrados aquáticos bioindicadores
Por Claudia Costa – Jornal da USP | Ephemeroptera, Plecoptera, Coleoptera, Besouro d’água, Crustacea e Pitu são alguns nomes de insetos aquáticos que vivem entre rochas, galhos, folhas e raízes, e que são bioindicadores, revelando a saúde do riacho e do ambiente ao redor. Para que as pessoas possam monitorar e avaliar a saúde do riacho, foi criado um manual de bolso, que ajuda na identificação e exploração dos invertebrados aquáticos. “O objetivo é aproximar as pessoas dos riachos e da vida que existe nele”, afirma Paula Caroline dos Reis Oliveira, uma das autoras da publicação, que é resultado de seu pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba. Invertebrados: bioindicadores da saúde dos riachos integra a Série Produtor Rural e está disponível para download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP.
Os riachos estão presentes em praticamente todas as paisagens e representam cerca de 77% de toda a rede fluvial do planeta. “São eles que alimentam os rios maiores e concentram uma enorme biodiversidade, além de fornecerem serviços ecossistêmicos essenciais e serem a base da saúde dos grandes rios. Se queremos rios limpos, com água de qualidade e biodiversidade, precisamos cuidar primeiro dos riachos”, destaca a autora do projeto, que teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), visando avaliar o papel das florestas restauradas na saúde de riachos. “Muitas vezes passamos por eles todos os dias sem perceber sua importância. Como todos nós vivemos em uma bacia hidrográfica, existe um riacho próximo de cada um de nós, e todos podemos fazer parte da sua conservação”, comenta.
Ao longo do projeto foi observada a necessidade de comunicar a ciência para além do meio acadêmico e, principalmente, de aproximar as pessoas dos riachos existentes em seus territórios. “A ideia surgiu justamente dessa necessidade: mostrar que qualquer pessoa pode conhecer, monitorar e contribuir para a conservação e a restauração desses ecossistemas”, reitera a pesquisadora, destacando que o manual foi viabilizado pelo projeto USP Sustentável — Águas que nos Conectam, permitindo que estudantes de graduação e pós-graduação da USP participassem ativamente da aplicação do manual em escolas, feiras de ciências e outras ações de educação ambiental. “Essa experiência aproximou a Universidade da sociedade”, avalia.

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O manual conta ainda com a autoria de outros três pesquisadores: João Paulo Becker Lotufo Júnior, César Claro Trevelin e Silvio Frosini de Barros Ferraz. Paula explica que o livro nasceu da união de conhecimentos complementares: o professor Silvio Ferraz contribuiu com sua experiência em hidrologia florestal e na relação entre floresta, paisagem e água, trazendo a base científica sobre o funcionamento das microbacias; Paula participou principalmente da parte relacionada à ecologia de riachos, aos bioindicadores e ao monitoramento da saúde ambiental desses ecossistemas; e o pesquisador João Lotufo Júnior trouxe sua experiência em educação e divulgação científica, ajudando a transformar conceitos técnicos em uma linguagem acessível para diferentes públicos.
Além disso, César Trevelin teve papel fundamental na comunicação visual, já que as ilustrações tornam o conteúdo mais claro, facilitam a identificação dos organismos e deixam o manual mais atrativo e útil para quem está aprendendo. “Foi um trabalho bastante integrado, em que cada autor contribuiu com sua especialidade para construir um material cientificamente sólido, mas ao mesmo tempo prático, didático e acessível”, analisa Paula.
O manual
O manual traz orientações para coleta e identificação, indicando por exemplo, o que será preciso levar para a exploração: peneira de cozinha, bandeja retangular, pinça, forma de gelo, lupa e pipeta plástica. É preciso que a atividade seja realizada sempre com um adulto responsável pela segurança, escolhendo um trecho seguro do riacho e de fácil acesso. Todo o material coletado deve ser depositado na bandeja com água e depois é só separar cada animal encontrado na forma de gelo para identificação. Depois é só fazer uma conta seguindo a tabela do livro, na qual pode ser verificada se a saúde do rio é ruim, média ou boa.

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Segundo Paula, a pontuação representa a sensibilidade de cada grupo de invertebrados à degradação da saúde do riacho. “Os organismos mais sensíveis à poluição e às alterações do habitat recebem pontuações mais altas, enquanto aqueles mais tolerantes recebem pontuações menores”, explica. Como ela lembra, os invertebrados são excelentes bioindicadores porque vivem no riacho durante grande parte do seu ciclo de vida e respondem aos impactos provocados pelas atividades humanas na microbacia. “Diferentemente de uma análise química, que representa apenas o momento da coleta, esses organismos integram os efeitos de múltiplos estressores ao longo do tempo”, analisa. “Como costumamos dizer, os riachos se parecem com a paisagem que os cerca, e os bioindicadores refletem essa relação muito bem”, diz.

“Durante o monitoramento, o observador identifica os diferentes grupos encontrados no riacho e calcula suas pontuações. O valor final fornece uma estimativa da saúde ambiental do riacho. Quanto maior a pontuação, melhor é a saúde do riacho”, informa. E depois da pesquisa, é só enviar as informações para um banco de dados coletivo (na obra está disponível um QR Code para compartilhamento dos resultados). Como dizem os autores, ao avaliar a saúde do riacho e enviar as informações, todos contribuem com o monitoramento contínuo da água de forma colaborativa. “Estes dados poderão ser utilizados para tomadas de decisão, pesquisas e ações de cuidado com a saúde dos nossos riachos”, destacam.
Para a pesquisadora, são dois os principais objetivos do manual: o primeiro é levar as pessoas aos riachos — ou, quando isso não for possível, trazer os riachos até elas por meio de um material acessível e ilustrado; e o segundo, incentivar o monitoramento participativo da saúde dos riachos, por meio da ciência cidadã, utilizando organismos bioindicadores. “Esperamos que este manual incentive cada vez mais pessoas a conhecerem os riachos presentes em seus territórios e a participarem do monitoramento da sua saúde. Quanto mais pessoas envolvidas, maiores serão as chances de conservarmos nossas águas para as próximas gerações”, conclui.
Veja a cartilha Invertebrados: bioindicadores da saúde dos riachos na íntegra neste link.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.