A poluição indoor afeta a qualidade do ar em ambientes internos e pode trazer impactos na saúde e bem-estar das pessoas
A poluição indoor, também conhecida como poluição interna, é um problema “invisível” que pode estar presente dentro de casas, escritórios, escolas, comércios e outros ambientes fechados. Você pode estar exposto à poluição do ar sem nem imaginar, porque ela pode acontecer onde a gente menos espera: nos espaços onde passamos grande parte do nosso tempo e nos sentimos mais seguros.
Quando pensamos em baixa qualidade do ar, é comum imaginar centros urbanos, avenidas muito movimentadas, grandes engarrafamentos, chaminés industriais emitindo fumaça e outras cenas um tanto quanto sufocantes.
Mas a poluição do ar não é um problema restrito ao ambiente externo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição à poluição do ar doméstico, por exemplo, está associada a cerca de 3,1 milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo. Ou seja, a qualidade do ar dentro das casas também representa um problema de saúde pública.
Esse é um cenário recorrente em locais onde o uso de combustíveis sólidos, como lenha e carvão, ainda são usados para cozinhar. A queima desses componentes emite material particulado fino (PM2.5) e gases que, quando inalados, aumentam o risco de problemas respiratórios e até cardiovasculares.
Apesar de receber menos atenção do que a poluição atmosférica nas grandes metrópoles, a poluição “indoor” (termo derivado do inglês que remete à poluição em ambientes internos) pode afetar diretamente a saúde e a qualidade de vida das pessoas. E ainda assim, esse é um assunto que costuma passar despercebido.
Mas afinal, o que causa a poluição indoor e por que ela merece tanta atenção?
O que causa a poluição indoor?
A poluição indoor pode ter diversas origens. Em muitos casos, ela é resultado de atividades comuns no dia a dia, combinadas com ventilação insuficiente, ambientes muito cheios e a presença de materiais que liberam substâncias químicas no ar.
Um estudo de 2025 publicado na Springer Nature mostrou que dentro de casa, por exemplo, fumar, utilizar fontes de combustão para aquecimento e até cozinhar são atividades que podem liberar poluentes como PM2.5, monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO2) e compostos orgânicos voláteis (VOCs, da sigla em inglês).
Dependendo da intensidade dessas atividades e das condições de ventilação do ambiente, os níveis desses contaminantes podem ultrapassar os limites considerados seguros para a saúde.
Poluição sem fumaça
No entanto, nem sempre a poluição indoor está relacionada à fumaça. Móveis novos, paredes recém pintadas, revestimentos, colas e outros materiais de construção, além dos produtos de limpeza, também podem liberar compostos químicos no ambiente.
Um estudo, publicado na Buildings em 2021, mediu a qualidade interna do ar de 20 apartamentos residenciais após uma reforma. A análise mostrou que a média de dióxido de carbono (CO2) em cerca de 15 residências ultrapassaram os limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a qualidade do ar em ambientes internos (IAQ, da sigla em inglês).
Saiba mais sobre os cuidados com o uso de produtos de limpeza na matéria: Produtos de limpeza, mesmo alguns “ecológicos”, são extremamente nocivos para a saúde, alertam cientistas
Síndrome do Edifício Doente
Além disso, também foram encontrados níveis elevados de VOCs, principalmente de formaldeído, uma substância comprovadamente cancerígena. De acordo com a publicação, essas substâncias estão frequentemente relacionadas à Síndrome do Edifício Doente (SED).
A SED é um conjunto de sintomas que atingem os habitantes de um prédio, e inclui dores de cabeça, irritação nos olhos, nariz e garganta, fadiga e dificuldades de concentração.
O resultado mostrou que a poluição indoor causada pela reforma está principalmente relacionada à substituição de materiais de acabamento dos apartamentos. Como apontado pelos pesquisadores, os moradores sequer tinham consciência desse problema.
A importância da ventilação
O artigo da Springer Nature também reforça outro fator importante sobre a poluição indoor: a ventilação. Embora abrir portas e janelas ajude na renovação do ar, a pesquisa aponta que ambientes mal ventilados tendem a acumular poluentes gerados internamente.
Por outro lado, em regiões urbanas com altos níveis de poluição atmosférica, o ar externo também acaba funcionando como uma fonte de contaminação. Isso ocorre pois partículas e outros poluentes acabam entrando nos ambientes fechados.
Contaminantes biológicos
Além dos poluentes químicos, fungos, bactérias, vírus, ácaros e outros microrganismos também podem afetar a qualidade do ar. Esse fator pode representar riscos à saúde, especialmente em locais onde há uma grande circulação de pessoas e, principalmente, ventilação inadequada.
De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, da sigla em inglês), os contaminantes biológicos estão frequentemente associados a ambientes que apresentam excesso de umidade, acúmulo de água parada e falhas no sistema de ventilação e climatização.
Isso ocorre porque nessas condições os microrganismos conseguem se proliferar com mais facilidade e se dispersar pelo ar nos ambientes indoor.
Quais são os riscos da poluição indoor?
Uma revisão de estudos, liderada pelo Weifang Fiber Inspection Institute, na China, analisou cerca de 20 anos de pesquisa sobre a qualidade do ar em ambientes fechados e seus impactos na saúde humana.
O resultado mostrou que a poluição indoor não atua de forma isolada no corpo, afetando apenas as vias respiratórias. O que os dados mostram é que respirar ar de baixa qualidade dentro de casa, escritórios, escolas e outros ambientes fechados pode causar respostas em cadeia no corpo. Os efeitos da poluição indoor se espalham por diferentes sistemas fisiológicos, principalmente quando a exposição ocorre de forma contínua.
Impactos no sistema respiratório
De acordo com os pesquisadores, a presença de PM2.5 e compostos químicos está diretamente relacionada à inflamações no sistema respiratório, redução da capacidade pulmonar e irritação das vias aéreas.
A OMS alerta que a exposição prolongada à poluição do ar em ambientes domésticos pode desencadear doenças como pneumonia, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e até câncer de pulmão.
Impactos causados por contaminação biológica
Em relação aos contaminantes biológicos, dados da EPA mostram que a exposição à esses agentes pode estar relacionada a uma série de efeitos à saúde. Em especial, em pessoas que já apresentam algum tipo de sensibilidade.
É o caso das alergias, crises de asma e outras irritações respiratórias. A permanência prolongada nesses ambientes pode piorar sintomas pré-existentes e ainda desencadear novas reações.
Impactos no sistema cardiovascular
Os estudos sugerem que o coração também reage à qualidade do ar que respiramos. No entanto, no sistema cardiovascular os efeitos são mais silenciosos e agem alterando a frequência cardíaca e aumentando o estresse fisiológico, que é a resposta natural do organismo à estímulos estressantes.
A OMS também associa a exposição prolongada à poluição indoor ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, como doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral (AVC).
Impactos no sistema neurológico
Os estudos também mostraram efeitos negativos no sistema neurológico, com alterações em marcadores de atividade cerebral e no desempenho cognitivo. Ou seja, a qualidade do ar pode influenciar fatores como atenção, concentração e funcionamento mental. E isso pode ocorrer mesmo em ambientes onde não há poluição aparente.
Os pesquisadores reforçam que o risco não está apenas em episódios extremos de poluição, e sim na exposição constante em ambientes fechados, onde passamos a maior parte do nosso dia. Nesse cenário, a ventilação e os sistemas de filtragem de ar deixam de ser apenas um conforto e passam a ser fatores diretamente ligados à saúde.
Quem é mais vulnerável?
Outra questão relacionada à poluição indoor é que esse não é um problema homogêneo, já que ele pode ter origens diferentes, dependendo da realidade de cada lugar do mundo.
A OMS também destaca que, em muitos países, mulheres e crianças são os grupos mais expostos à poluição indoor, já que permanecem mais tempo nos locais onde os alimentos são preparados.
Pode parecer estranho para quem vive nas grandes metrópoles, mas cerca de 2,1 bilhões de pessoas em todo o mundo ainda cozinham com combustíveis e tecnologias que geram altos níveis de poluição dentro de casa. Além de lenha e carvão, querosene e esterco também são utilizados em algumas regiões do planeta.
Como reduzir a poluição indoor?
No caso dos contaminantes biológicos, a EPA recomenda que o controle de umidade, a manutenção adequada de sistemas de ventilação e ar-condicionado, além da prevenção do acúmulo de água em ambientes internos seja feita regularmente. Essas são medidas essenciais para reduzir a presença desses contaminantes e melhoram a qualidade do ar interno.
Para os pesquisadores do Weifang Fiber Inspection Institute, os estudos mostram que a redução da poluição indoor não depende de uma única ação isolada. Dentre as estratégias sugeridas, controlar a fonte de emissão de poluentes, apesar de parecer a mais óbvia, é também a mais eficaz, já que isso reduz a carga de contaminantes no ar.
Outro ponto é a ventilação. Seja natural ou mecânica, a ventilação é o principal mecanismo de dispersão dos poluentes internos. Renovar o ar ajuda a reduzir a concentração de partículas, gases e VOCs, principalmente em locais onde a circulação de ar é limitada.
Abordagem integrada pode ajudar
O artigo da Springer Nature ainda destaca que uma abordagem integrada de gestão dos edifícios pode promover a qualidade do ar nos ambientes internos. Isso inclui: um projeto arquitetônico eficiente, a operação contínua de sistemas de ventilação, com manutenção preventiva, além da filtragem e monitoramento dos poluentes.
Dessa forma, os pesquisadores reforçam que reduzir a poluição indoor vai além de ações individuais e deve contar com uma boa infraestrutura e planejamento ambiental. Em ambientes bem planejados e manejados o risco de acúmulo de poluentes é comprovadamente menor. E isso impacta de maneira positiva a saúde de quem ocupa esses espaços.
Impactos da poluição indoor nos animais de estimação
A presença de animais de estimação dentro de casa também faz parte das preocupações com a poluição indoor. Além deles serem expostos ao ar do ambiente, eles também participam da composição deste ar.
Um estudo publicado na Environmental Science & Technology mostrou que os cães também podem influenciar na qualidade do ar em ambientes fechados. Isso ocorre porque os animais também liberam partículas e microrganismos durante o dia a dia. Esses fatores podem variar de acordo com o porte e comportamento do cachorro, além do seu grau de “agitação”.
Além de contribuir para mudanças na composição do ar, os animais também podem trazer partículas externas para dentro de casa, principalmente os animais que passeiam regularmente.
Por outro lado, pesquisadores do Reino Unido alertam que os pets também são afetados pelo ar “doméstico”.
O estudo, publicado na PNAS, sugere que a exposição contínua à poluição do ar dentro de casa, assim como em humanos, pode estar associada a problemas respiratórios em cães, principalmente em animais com doenças pré-existentes.
Os estudos reforçam que o ambiente doméstico e tudo que compõe o ar interno funciona como um sistema compartilhado, onde partículas, poeira, microorganismos ou poluentes atingem todos os habitantes, independentemente da espécie.