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Pesquisas sugerem que não ter filhos pode aumentar nível de satisfação pessoal, mas há ressalvas. Entenda

Se você não tem filhos – e, em algum momento, declarou aos quatro ventos que não pretende tê-los –, é provável que a frase “Você nunca vai saber o que é a verdadeira felicidade!” lhe seja familiar. Mas será que de fato existe uma relação entre satisfação pessoal e paternidade? Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, acreditam que não.

Publicada na revista científica PLOS One, a pesquisa não encontrou diferenças significativas nos níveis de satisfação com a vida, bem como nos traços de personalidade, entre pais e pessoas sem filhos. O estudo foi conduzido por Jennifer Watling Neal e Zachary Neal, ambos professores associados do departamento de psicologia da universidade.

Durante o processo de pesquisa, mais de um quarto dos entrevistados disseram que haviam optado por não ter filhos – um número muito mais alto do que os autores do estudo esperavam.

Cada um no seu quadrado

A equipe acredita que esta pesquisa seja inédita, porque dividiu “não pais” (pessoas que não têm filhos) em três categorias: indivíduos que não querem ter filhos; indivíduos que ainda não têm filhos, mas planejam ter; e indivíduos que não têm, não querem ou não podem ter filhos, mas que estão abertos a mudar de ideia no futuro.

De acordo com o professor Neal, a maioria dos estudos anteriores não se preocupava em distinguir as três categorias, agrupando todos os não pais em uma única classificação para compará-los àqueles que são pais. Para ele, a distinção correta ajuda a compreender os resultados e obter análises mais precisas.

O estudo usou um conjunto de três perguntas para determinar as classificações: “Você tem, ou já teve, algum filho biológico ou adotivo?”, “Você planeja ter um filho, biológico ou adotivo, no futuro?” e “Você poderia ou gostaria de ter filhos biológicos ou adotivos?”. As questões aceitavam como resposta “sim” ou “não”.

A equipe classificou como “livres de crianças” (ou childfree, no original em inglês) as pessoas que responderam “não” a todas as perguntas.

Medindo os níveis de “felicidade”

Os pesquisadores também mediram os níveis de felicidade usando a Escala de Satisfação com a Vida e o modelo Big Five, ou os Cinco Grandes, que define os traços de personalidade.

Modelo Big Five, ou os Cinco Grandes
De acordo com um modelo de compreensão da personalidade desenvolvido na década de 1980, denominado Big Five (“Os cinco grandes”), o comportamento humano é composto por cinco traços de personalidade que formam a sigla OCEAN: abertura, conscienciosidade, extroversão, afabilidade e neuroticismo. Imagem de MissLunaRose12, disponível em Wikimmedia e licenciada sob CC-BY 4.0.

Os Cinco Grandes Fatores da Personalidade – abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo – compõem o modelo de personalidade mais aceito e mais comumente usado na psicologia acadêmica.

Os pesquisadores usaram dados de uma amostra representativa de 981 adultos que responderam à pesquisa, realizada pelo Instituto de Políticas Públicas e Pesquisa Social da universidade.

“Depois de controlar as características demográficas, não encontramos diferenças na satisfação com a vida e diferenças limitadas nos traços de personalidade entre as três categorias de indivíduos sem filhos e indivíduos com filhos”, disse Neal.

Com base nos resultados, os pesquisadores também descobriram que 27% da amostra em Michigan se identificava como childfree – ou seja, pessoas que não têm e não querem ter filhos. A taxa, que corresponde a 2 milhões de adultos, é muito mais alta do que a estimada em estudos anteriores, que oscilava de 2% a 9%.

O que dizem estudos anteriores?

Em 2019, um estudo conduzido por pesquisadores pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, revelou que casais com filhos podem, de fato, ser mais felizes em comparação com outros – mas só quando as “crianças” já saíram de casa.

Outro estudo, realizado em 2014 pela Open University, no Reino Unido, garantiu que casais sem filhos têm maiores níveis de satisfação com a vida a dois do que aqueles que são pais.

Durante a pesquisa, homens e mulheres sem filhos se disseram mais felizes com seus relacionamentos e mais valorizados por seus parceiros. Segundo os autores, casais sem filhos dedicam mais tempo à qualidade do relacionamento, a apoiar o parceiro, a dizer “eu te amo” e a conversar abertamente.

No geral, a maior parte dos estudos que se debruçaram sobre o assunto concluiu que casais sem filhos são mais felizes do que os que optaram pela paternidade. Em 2016, pesquisadores da Universidade do Texas analisaram dados de 22 países e chegaram à mesma conclusão.

Pressão social, estresse e redução do bem-estar

Embora seja quase um consenso entre os pesquisadores que casais com filhos sejam menos felizes do que os childless, alguns dados chamam a atenção.

No estudo da Open University, por exemplo, mulheres sem filhos apresentavam as maiores taxas de insatisfação com a vida no geral – mesmo que estivessem felizes no namoro ou no casamento. Por outro lado, as mães se disseram mais felizes do que todos os outros grupos, ainda que a vida afetiva não estivesse lá essas coisas.

Outro dado que se destaca é o alto nível de satisfação de pais com filhos que já vivem fora de casa – aqueles do estudo alemão de 2019. O que explicaria isso?

Pressões no trabalho, elevado custo de vida e ausência de políticas públicas que favoreçam a paternidade podem explicar. Ter filhos pode fazer muito bem para a saúde mental – desde que haja suporte financeiro, emocional e social para criá-los sem culpa e sem estresse.

Lembra do estudo da Universidade do Texas? Os 22 países analisados pelos pesquisadores revelaram resultados bastante diferentes. Em Portugal, Noruega e Suécia, por exemplo, casais com filhos se mostravam mais felizes do que aqueles que não tinham filhos.

O que esses locais têm em comum? Boas políticas públicas, com suporte financeiro para quem tem filhos, tempo razoável de licença e normas que conciliam trabalho com paternidade.

A felicidade está no que te faz bem

Segundo as pesquisas, se você optar por ter filhos, a melhor alternativa é se mudar para a Suécia! Brincadeiras à parte, a verdade é que não existe segredo para a felicidade. A escolha depende de você. Tudo bem ter filhos – e tudo bem não ter.

Só o que não vale é tomar uma decisão tão importante com base na opinião alheia. Sabemos que a pressão social para ter filhos, sobretudo sobre as mulheres, ainda é grande.

No entanto, cada vez mais pessoas optam por adiar ou simplesmente não passar pela experiência de gestar e criar uma criança. Afinal, não é uma tarefa simples. Crianças exigem tempo, dedicação, dinheiro, paciência e muito, muito amor.

Se você está na dúvida, coloque tudo na balança e consulte, acima de tudo, seu próprio desejo. Ser feliz é encontrar aquilo que te satisfaz: seja ter filhos, construir uma carreira sólida, priorizar o relacionamento afetivo ou trabalhar por uma causa em que você acredita. O segredo da felicidade não está nas pesquisas. Está em você.