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Povos tradicionais da Amazônia já estão sentindo o que a comunidade científica vem alertando: a alta nas temperaturas vai impactar a vida daqueles que têm na floresta o seu sustento

  • Estudo analisou 56 reservas extrativistas da Amazônia brasileira para avaliar de que modo as mudanças climáticas vão impactar 18 das principais espécies vegetais coletadas na floresta.
  • Castanha-do-brasil, açaí, andiroba, copaíba, seringueira, cacau e cupuaçu são alguns dos produtos que correm o risco de desaparecer ou ter a produção diminuída nos próximos 30 anos.
  • Além do impacto ambiental, há também o impacto social, com provável agravamento da pobreza e êxodo de povos tradicionais para áreas urbanas.

“A gente mora aqui no Pará e uma das grandes produções que a gente tem é o açaí, e ultimamente a gente tem tido uma perda muito grande por essa questão da temperatura”, diz Ladilson Amaral, do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (STTR), no Pará. “A gente percebe que o açaizal já vai começando a mudar, começa a ficar enfraquecido, não consegue dar mais fruta e acaba morrendo”.

Nos últimos tempos, Ladilson tem notado também a diminuição das castanheiras, as gigantes que se destacam na mata pela altura – de 30 a 50 metros – e pela importância econômica que têm para os povos da floresta, incluindo os moradores do Assentamento Agroextrativista Eixo Forte, onde o agricultor vive, próximo do núcleo urbano de Santarém. “Com a temperatura, muitas castanheiras estão morrendo mesmo dentro da natureza, assim como o açaizeiro”.

Os povos tradicionais da Amazônia já vêm sentindo na prática o que alerta o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), lançado nesta segunda-feira (09/08): o aumento na temperatura média global é uma realidade, e está se intensificando, com impactos talvez irreversíveis na biodiversidade e no equilíbrio da maior floresta tropical do planeta – e, consequentemente, na vida daqueles que tiram dela seu sustento.

Uma pesquisa realizada por cientistas de cinco universidades públicas brasileiras tratou de quantificar esses impactos analisando 18 das principais espécies vegetais utilizadas para a subsistência em 56 Reservas Extrativistas (Resex) da Amazônia brasileira.

O estudo concluiu que as mudanças climáticas previstas para os próximos 30 anos deverão afetar especialmente as espécies nativas. As projeções foram baseadas num cenário de altas emissões, conhecido por RCP 8.5 (Representative Concentration Pathway ou trajetória representativa de concentrações), que considera as tendências de emissões de CO2 sem a implementação de políticas de mudança climática.

Das 56 reservas analisadas, 21 poderão perder pelo menos uma espécie de relevância, enquanto quatro reservas localizadas em Rondônia – Barreiro das Antas, Rio Cautário, Pacaás Novos e Curralinho – poderão perder todas as espécies analisadas no estudo, o que impactaria mais de 90 famílias extrativistas. Como as mudanças climáticas interferem na temperatura e distribuição das chuvas, as condições necessárias para a ocorrência dessas árvores deixam de existir, mesmo dentro das reservas.

Impacto social

Castanha-do-brasil, açaí, andiroba, copaíba, seringueira, cacau e cupuaçu são alguns dos produtos relevantes para o extrativismo que correm o risco de desaparecer ou ter sua produção diminuída dentro das reservas. O estudo, realizado com a ajuda de modelos computacionais, avaliou fatores climáticos históricos dos locais onde essas plantas crescem, tais como temperatura, umidade, tipo de solo, e lançou projeções para o ano de 2050, considerando as mudanças climáticas previstas pelos cientistas.

“É uma preocupação em várias frentes”, explica Pedro Eisenlohr, um dos autores do estudo. “Temos o impacto ambiental e conservacionista, e o impacto social que essa mudança no cenário da biodiversidade acarreta para as populações tradicionais”.

Entre as espécies mais afetadas está a castanha-do-brasil, que poderá deixar de existir em nove reservas. Segundo a pesquisa, a castanha contribui na Amazônia brasileira com a renda de mais de 2 mil famílias extrativistas e mais de 400 pessoas associadas a cooperativas. Em 2019 foram extraídas, apenas na Região Norte, 30 mil toneladas de castanhas, a maior parte na Amazônia, o que corresponde a 93% da produção brasileira e representa cerca de US$ 22 milhões. As castanheiras dependem de um ambiente preservado para sua reprodução e só são polinizadas por alguns tipos de insetos.

Das 18 espécies de árvores avaliadas no estudo, 11 podem ter reduzida a sua área de incidência e nove podem chegar mesmo a desaparecer de algumas reservas. O açaí pode não sobreviver em duas Resex, afetando 288 famílias apenas dentro dessas reservas. As seringueiras não resistirão em cinco Resex, impactando 332 famílias, e a copaíba, de onde é extraído o óleo, deixará de existir em seis reservas, afetando 368 famílias. Não existem informações precisas sobre o uso das espécies nas Resex, o que significa que o número que famílias impactadas dentro dessas reservas pode ser ainda maior.

As perdas serão mais significativas em regiões que atualmente já sofrem com queimadas, mineração e desmatamentos ilegais. Como a subsistência das famílias está ancorada principalmente no extrativismo e, em pequena escala, na agricultura de subsistência e pecuária, o estudo alerta para um provável agravamento da pobreza e êxodo dos povos tradicionais para áreas urbanas. Ao afetar centenas de populações tradicionais, o desaparecimento das espécies representa também um risco à proteção da biodiversidade.

Prioridade na conservação

“Nós avaliamos toda a Bacia Amazônica dentro do território brasileiro e detectamos que na Amazônia central nós temos locais com maior adequabilidade para as espécies, tanto com o cenário climático atual e principalmente com o cenário climático futuro”, afirma Eisenlohr, da Universidade do Estado de Mato Grosso. “Isso fortalece que é ali que nós precisamos de mais unidades de conservação”.

O estudo aponta que a Amazônia central apresenta melhores condições para as espécies por estar distante das áreas periféricas, que são fortemente afetadas pelas pressões ligadas à expansão da fronteira agrícola e pecuária, como a fragmentação de habitat e incêndios.

Apesar de estar relativamente próximo da área apontada como prioritária para conservação, o Assentamento Eixo Forte, onde vive Ladilson Amaral, está ainda perto do núcleo urbano de Santarém e, por isso, sofre os impactos do desmatamento e de microclimas diferentes daquele existente na floresta densa. Isso explica o agricultor estar percebendo a perda das castanheiras e açaizais.

Amaral conta que as famílias extrativistas vivem da diversidade da região, contando com cupuaçu, mandioca, café, pupunha. A horta, algumas galinhas e o artesanato também entram na conta. “Desde que foi criado o assentamento em 2005, a gente começou a trabalhar em projeto de reflorestamento daquilo que trazia renda maior. O açaí foi o carro-chefe”, explica.

Como apontamentos para os tomadores de decisão, os cientistas indicam a criação de novas unidades de conservação na Amazônia central e a proteção das já existentes. Sugerem o incentivo à pesquisa científica para desenvolvimento de variedades mais resistentes de plantas e a distribuição dessas sementes a famílias extrativistas nas Resex. O desenvolvimento de programas de manejo das principais espécies utilizadas pelas comunidades tradicionais, monitorando populações e armazenando sementes, também é indicado na pesquisa.

“Além da manutenção da floresta em pé, além da questão da redução de gases de efeito estufa, nós também consideramos de extrema importância que as políticas de restauração sejam implementadas principalmente em fronteiras agrícolas”, avalia Eisenlohr. “Aqui no norte do Mato Grosso, nós temos uma série de programas de restauração e projetos que visam dar subsídios teóricos para que as melhores espécies sejam utilizadas na restauração, aquelas que possivelmente vão suportar melhor as mudanças climáticas”.

Os autores do estudo vêm investigando o que eles chamam de  “plantas do futuro”, espécies resistentes para a restauração e altamente promissoras para a transição entre os biomas Cerrado e Amazônia. Na região norte do estado de Mato Grosso,  o Instituto Centro de Vida (ICV) tem um programa de restauração que prioriza as espécies promissoras.

Para conversar com o termo hotspot, que define áreas muito ameaçadas e de grande biodiversidade, Eisenlohr fala em “hopespot”: “Temos usado o conceito ‘hopespot’ para definir áreas que podem ser um ponto de esperança frente às mudanças climáticas e temos trabalhado com esse conceito na transição Cerrado-Amazônia”, conclui.