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Um estudo realizado no sudeste da Amazônia ao longo de duas décadas constatou que, embora as florestas apresentem alta resiliência ecológica e nenhum sinal de savanização, a diversidade de espécies em algumas áreas foi reduzida pela metade

Por Suzana Camargo – Mongabay | Em 2024, a Amazônia brasileira enfrentou uma das piores temporadas de incêndios de sua história: as chamas atingiram 15,6 milhões de hectares, uma área maior que a do estado do Ceará — dos quais 43% eram vegetação florestal. Segundo dados da MapBiomas, a área destruída pelas chamas foi 117% maior do que a média histórica.

Recentemente, um grupo de pesquisadores revelou algo que, segundo eles, deu certo otimismo à ciência em meio a esses números: embora a perda de biodiversidade persista, a Amazônia demonstrou uma surpreendente capacidade de regeneração após os incêndios.

Os resultados foram apresentados em um estudo conduzido no sudeste da Amazônia ao longo de duas décadas. O trabalho buscou prever os riscos enfrentados pela floresta tropical à medida que o desmatamento, a queda nos níveis de precipitação e as secas prolongadas se tornam mais frequentes.

“Nosso estudo traz uma mensagem de esperança. Ele demonstra que uma floresta altamente degradada consegue se recuperar mesmo após muitos distúrbios”, disse o principal autor do artigo, Leandro Maracahipes, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

No entanto, Maracahipes explica que essa regeneração dá lugar a um novo tipo de floresta. “É um novo ecossistema. Embora consiga se recuperar, essa floresta é muito mais ‘pobre’, com maior quantidade de espécies generalistas, muito mais vulneráveis a novos distúrbios”, disse à Mongabay.

Imagem aérea de uma área de floresta amazônica. Foto: Leandro Maracahipes.

Impacto maior nas bordas da floresta

O experimento se iniciou em 2004, durante um pico de desmatamento na Amazônia, e seus resultados foram publicados em abril de 2026. O trabalho se concentrou em uma área no Mato Grosso onde modelos climáticos indicavam que a seca teria impactos mais intensos. A região abriga a Estação de Pesquisa Tanguro, um laboratório de campo a céu aberto utilizado por Maracahipes e por sua equipe. Fundada pelo Ipam, a estação está localizada perto de fazendas de gado.

Para realizar o estudo, os pesquisadores dividiram uma área florestal de 150 hectares em três partes iguais: um lote atingido anualmente por queimadas; outro, afetado pelo fogo a cada três anos; e o terceiro, uma área de controle onde não houve registros de incêndios.

Segundo Maracahipes, embora o experimento tenha demonstrado uma rápida recuperação ecológica, a análise também detectou uma mudança na diversidade de espécies que compõem essa “nova floresta”. Essa alteração foi mais significativa em áreas de borda, onde houve perda de 31,3% a 50,8 % na diversidade de plantas.

As imagens acima mostram a evolução da borda florestal ao longo de 22 anos: a primeira com a floresta ainda intacta, no ano inicial do experimento, a segunda após as queimadas e a terceira com sinais de regeneração vegetativa. Fotos: Leandro Maracahipes.

Nessas zonas limítrofes, árvores mais generalistas — de crescimento rápido e menos resistentes ao fogo — como o taquari (Mabea fistulifera) e o tachi-do-campo (Tachigali vulgaris) tornaram-se mais abundantes. Ao mesmo tempo, houve uma redução na vegetação especialista da floresta, incluindo o louro-prata (Ocotea guianensis), o louro-abacate (Ocotea matogrossensis) e a mangabinha (Micropholis egensis).

“As [árvores] especialistas de florestas geralmente são espécies de alta densidade de madeira, que resistem mais ao fogo e aos ventos fortes. E com vida longa: ou seja, estocam carbono por longos períodos”, disse Maracahipes, acrescentando que essas árvores também são fundamentais para a alimentação da fauna local.

Imagem aérea da copa de árvores amazônicas. Foto: Paulo Brando.

Sem evidências de savanização

Nas últimas décadas, muitos cientistas têm alertado sobre os riscos de “savanização” do bioma amazônico. Nesse processo, a paisagem típica e densa de floresta se transformaria em um ecossistema esparso, de vegetação baixa, adquirindo características semelhantes às do Cerrado. Entre os especialistas que defendem essa tese está o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) e copresidente do Painel Científico da Amazônia (SPA).

Nobre já comentou o assunto em entrevista à Mongabay.

“O risco de savanização é a interação sinérgica do desmatamento e do aquecimento global, especialmente o grande aumento da frequência de secas severas. Antes, observávamos uma seca severa a cada duas décadas. Agora, tivemos quatro secas muito fortes em duas décadas: 2005, 2010, 2015-16 e 2023-24”, disse o pesquisador.

Nobre aponta que o clima amazônico poderia se tornar característico de uma “savana tropical”, na qual a estação seca dura seis meses. “Em todo o sul da Amazônia a [duração da] estação seca já aumentou de 4 a 5 semanas em 45 anos.”

Galhos e folhas em chamas em uma área de mata na Amazônia. Foto: Paulo Brando.

Por meio do estudo conduzido por Maracahipes, que não contou com a participação de Nobre, os autores buscaram identificar se a vegetação estava em processo de savanização. Mas, de acordo com Maracahipes, não foram encontradas evidências nesse sentido. O pesquisador explicou que não havia maior presença de gramíneas, uma característica típica desse processo.

“A partir de 2019 e 2020, percebemos um aumento da cobertura arbórea e uma alta competição com as gramíneas. Elas começaram a ser eliminadas. As gramíneas não suportam a copa fechada. Quando o dossel da floresta fecha, elas são excluídas desse sistema”, disse.

Segundo o artigo, “foram encontradas poucas evidências de que florestas degradadas pelo fogo se transformem em savanas persistentes, embora incêndios recorrentes ou mudanças climáticas futuras possam impulsionar a degradação de longa duração ou o surgimento de savanas derivadas da atividade humana”.

Uma área de vegetação densa na Amazônia. Foto: Leandro Maracahipes.

Riscos futuros

Paulo Brando, engenheiro florestal e professor na Universidade de Yale, pesquisa os impactos das secas e da fragmentação florestal na Amazônia há mais de 20 anos. Coautor do estudo, ele acredita que os resultados do experimento revelam um “copo meio cheio”.

“Conseguimos mostrar que a resiliência ecológica é altíssima nestes sistemas, se dermos uma chance à floresta. Mesmo nessa área degradada, mesmo nesse sistema que queimou, sob o efeito das mudanças climáticas e exposto a áreas agrícolas, nós temos uma versão de floresta que ainda volta. Muito aquém de uma floresta primária, mas temos”, disse à Mongabay.

Autores da pesquisa e integrantes do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) durante o trabalho de campo. Foto: Rafael Oliveira.

Outro estudo publicado em 2026 também apontou o rápido reaparecimento e a regeneração de florestas de terras baixas no Equador, além de mostrar que a recuperação ecológica integral — que inclui o retorno da composição original de espécies — poderia levar mais tempo.

Nesse caso específico, a análise considerou a diversidade não apenas de espécies vegetais, mas também de animais e microrganismos.

Segundo Brando, o caminho para restaurar áreas degradadas da Amazônia é protegê-las da pressão que sofrem. “Se criarmos uma estratégia de prevenção e manejo do fogo e de conscientização, mesmo áreas degradadas podem voltar a ser a ‘nova versão’ da floresta. É muito importante que a gente entenda a resiliência da floresta para criar políticas públicas.”

Imagem aérea mostra o limite entre a floresta densa e uma área desmatada para uso agrícola. Foto: Paulo Brando.

Brando acredita que recuperar uma floresta degradada tem um efeito muito mais rápido do que iniciar um projeto de restauração do zero. “Se os elementos certos estiverem lá — como a presença de animais ou a dispersão de sementes, por exemplo —, ela vai ser mais resiliente do que uma floresta plantada. Atualmente, vemos todo um incentivo justamente para o plantio de florestas, em vez de criar uma política mais abrangente que permita o retorno das florestas degradadas”, disse.

No início de maio de 2026, um estudo mostrou que entre 17% e 18% do território da Amazônia já foi desmatado. Os autores desta investigação alertam, assim como Nobre, que o aquecimento global e as mudanças na forma do uso da terra estão levando o bioma rumo a um ponto de “não retorno”, que pode ser atingido já em 2040 — ou seja, muito antes do que previa a ciência.

Este ano, os alertas ganharam mais urgência diante das previsões de efeitos severos do fenômeno climático El Niño, o que aumentaria a probabilidade de secas mais longas e extremas. Isso, por sua vez, poderia piorar as condições de incêndios na Amazônia.

“Assim como o governo brasileiro instituiu uma política de ‘desmatamento zero’ na Amazônia, também precisamos de uma política de ‘incêndio zero’”, disse Maracahipes.

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Este texto foi originalmente publicado pela Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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