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Nos bastidores da indústria, as semelhanças com o cigarro são explícitas

Entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 2000, as maiores fabricantes de cigarros dos Estados Unidos aplicaram ao mundo da comida as mesmas táticas de vendas que consagraram o tabaco. Ultraprocessados hiperpalatáveis invadiram prateleiras de dezenas de países, impulsionados por manobras de marketing, distribuição e manipulação de produtos herdadas da indústria do fumo. A conclusão é de um estudo publicado no American Journal of Public Health, que acende o alerta para os impactos sanitários dessa herança.

A pesquisa, liderada por Tera Fazzino, da Universidade do Kansas, revela que gigantes estadunidenses não se limitaram a comprar marcas de alimentos. Elas reorganizaram o setor por dentro. Enquanto a primeira chegou a ter metade do seu faturamento vindo de biscoitos, refrigerantes e afins – com forte atuação no Canadá, Europa e partes da Ásia –, a segunda manteve cerca de 30% do portfólio em comida, concentrando esforços na América Central, na América do Sul, no México e também em mercados europeus e asiáticos.

Nos bastidores da indústria, as semelhanças com o cigarro são explícitas. No desenvolvimento de produtos, as empresas repetiram velhos truques: tamanhos gigantes, antes usados para aumentar o consumo de cigarros, apareceram em versões king size de bebidas açucaradas e bolachas. Além disso, lançaram versões leves ou light – com baixo teor de gordura, por exemplo – mantendo o sabor intenso, assim como fizeram com os cigarros com baixo teor de nicotina ou alcatrão.

A escala da operação foi impressionante. As subsidiárias alimentícias das indústrias de tabaco tornaram-se algumas das maiores fornecedoras das regiões onde atuavam. Elas montaram sistemas integrados de distribuição, unindo logística de cigarro e comida, e adquiriram empresas locais para acelerar a expansão. O resultado, segundo os pesquisadores, foi uma cobertura global maciça entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 2000.

As consequências para a saúde pública são graves. Há evidência sólida de que os ultraprocessados hiperpalatáveis carregam riscos comparáveis aos do tabagismo, contribuindo para a epidemia de obesidade e doenças metabólicas e cardiometabólicas em várias partes do mundo. O estudo observa que o aumento dessas enfermidades acompanhou a disseminação desses alimentos, viabilizada pelas estratégias afiadas das antigas donas do fumo.

Embora as gigantes do tabaco tenham se desfeito dos negócios de comida no início dos anos 2000, o legado permanece. As empresas compradas mantiveram os modelos de maximização de lucro, e outras fabricantes de alimentos copiaram as táticas. Atualmente, estima-se que pelo menos 70% da oferta de comida nos Estados Unidos seja composta por itens hiperpalatáveis – e a participação global também é elevada.

Para a pesquisadora, lições vêm da regulação do tabaco: rótulos de advertência, restrições à propaganda e ações judiciais. Mas há um desafio: ninguém pode deixar de comer. Por isso, em países com oferta já saturada, como os EUA, seria preciso regular a própria composição dos alimentos que viciam. Já nações sul-americanas, que ainda não atingiram esse nível de saturação, conseguiram benefícios reais com selos de advertência na frente das embalagens.


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