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Pesquisadores do INPA e Unicamp receberão R$ 18 milhões do governo britânico para o projeto AmazonFACE

Por Luiz Sugimoto em Jornal da Unicamp AmazonFACE, projeto internacional que envolve pesquisadores brasileiros, será apresentado nesta segunda-feira (8/11) na COP26 (Conferência da ONU para Mudanças do Clima). Ele contará com 2,5 milhões de libras (cerca de R$ 18 milhões), viabilizados a partir de um acordo entre governo britânico, INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e Unicamp, com possibilidade de novos reembolsos anuais. “O foco central do programa é um experimento de alcance sem precedentes, que vai expor uma área de floresta amazônica madura a uma concentração de CO₂ (dióxido de carbono) prevista para o futuro”, explica David Montenegro Lapola, do Cepagri-Unicamp (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura).

Professor David Lapola, do Cepagri da Unicamp: "Essa visão retrógrada sobre meio ambiente está com os dias contados
Professor David Lapola, do Cepagri da Unicamp: “Essa visão retrógrada sobre meio ambiente está com os dias contados

Segundo Lapola, presente no evento em Glasgow (Escócia) juntamente com seu colega do INPA Carlos Alberto Quesada, o AmazonFACE aborda uma questão global: como as mudanças climáticas afetarão a floresta amazônica, a biodiversidade que ela abriga e os serviços ecossistêmicos que fornece à humanidade. “Uma das principais incertezas é sobre como a Amazônia irá reagir às rápidas mudanças no planeta causadas pela queima de combustível fóssil e pelo desmatamento. Estamos olhando muito o desmatamento, enquanto as florestas estão sendo silenciosamente corroídas pelas mudanças climáticas – e sabemos muito pouco sobre esse processo”.

Como observa o professor da Unicamp, o CO₂ é o principal gás do efeito estufa e, quanto maior sua concentração, maior o calor; mas ele também tem um efeito direto sobre as plantas, enquanto insumo básico da fotossíntese. “A questão é: o que acontece quando se aumenta esse CO₂? Não sabemos. Temos experimentos semelhantes nos Estados Unidos e Europa, mas lidando com ecossistemas temperados, completamente diferentes do nosso. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] aponta, de maneira consensual, que, teoricamente, a Amazônia tende a secar, com redução de chuvas e o óbvio aquecimento. Mas quando se fornece mais CO₂ às plantas, elas aumentam de biomassa, ficando mais ativas. Também teoricamente, isso contrabalançaria o efeito negativo do aumento de temperatura e da redução de chuva.”

Ilustração da estação de pesquisa AmazonFACE, com os círculos demarcados na floresta e 16 torres de 35 metros de altura, ultrapassando a copa das árvores
Ilustração da estação de pesquisa AmazonFACE, com os círculos demarcados na floresta e 16 torres de 35 metros de altura, ultrapassando a copa das árvores

Tecnologia FACE

Na COP26, os pesquisadores assinaram um convênio para iniciar a construção, perto de Manaus, de uma estação de pesquisa usando a tecnologia Free-Air CO₂ Enrichment (FACE). Lapola explica o processo com uma ilustração onde estão representados círculos demarcados na floresta e 16 torres de 35 metros de altura, ultrapassando a copa das árvores. “Teremos tubos verticais com furos do lado de dentro do círculo, ligados a um tanque de CO₂ puro, que é liberado pelo sistema computacional. Esse pedaço de floresta vai ficar exposto, durante um longo tempo, a uma concentração atmosférica de gás carbônico 50% maior que no ambiente.”

O pesquisador do Cepagri recorda que a primeira reunião sobre o AmazonFACE ocorreu em 2011, mas que o projeto começou de fato em 2015. Em sua fase 1, delimitaram-se as parcelas de pesquisa na floresta e começou a ser medido tudo que estava previsto no experimento em si. “Como o recurso que esperávamos em 2017 não veio, decidimos fazer um experimento menor, com câmeras a três metros de altura no sub-bosque da floresta, focando árvores juvenis de dois, três metros. O projeto não esteve parado, continuamos buscando recursos com afinco para a fase 2, o que é resultado de uma equipe coesa, persistente e paciente.”

O INPA está sediando o experimento, que já conta com cerca de 40 pesquisadores. Agora será formado um novo consórcio, que incluirá a comunidade britânica de forma mais incisiva. “Temos pesquisadores na floresta desde 2015, coordenados pelo professor Beto Quesada e outros. O que está em jogo no AmazonFACE é descobrir se o aumento de gás de carbono na atmosfera, que vem ocorrendo nas últimas décadas, leva a floresta a estocar mais CO₂. Temos ainda a questão da água, pois boa parte da chuva é reciclada na floresta e, em certos eventos meteorológicos, chega ao Sudeste, por exemplo. O experimento vai mostrar se haverá alteração nesses fluxos de água e no balanço hídrico regional.”

O projeto mantém pelo menos 40 pesquisadores na floresta desde 2015, coordenados pelo professor Beto Quesada e outros, do INPA
O projeto mantém pelo menos 40 pesquisadores na floresta desde 2015, coordenados pelo professor Beto Quesada e outros, do INPA

Biodiversidade

David Lapola ressalta ainda o fator biodiversidade, por se tratar do primeiro experimento do tipo realizado em ecossistema tropical, enquanto os outros se deram em florestas temperadas com uma ou duas espécies. “O anel do AmazonFACE tem 30 metros de diâmetro, cabendo ali em torno de 50 árvores adultas, de 49 espécies diferentes. Algumas espécies darão respostas diferentes ao aumento de CO₂, o que nos leva à hipótese de que, com as mudanças climáticas, essa floresta não será mais como a conhecemos. Por outro lado, estamos repensando a organização do projeto, já que temos também um problema socioeconômico, com 30 milhões de pessoas na região, interagindo direta ou indiretamente com a floresta, e os chamados serviços ecossistêmicos, como provisão de água e extrativismo.”

ecossistema mais complexo do planeta, o que levou à criação, pouco antes da pandemia, de um Painel Científico para a Amazônia, nos moldes do IPCC
Ecossistema mais complexo do planeta, o que levou à criação, pouco antes da pandemia, de um Painel Científico para a Amazônia, nos moldes do IPCC

Contrapondo-se ao negacionismo corrente no Brasil, Lapola afirma que se trata do ecossistema mais complexo do planeta, o que levou à criação, pouco antes da pandemia, de um Painel Científico para a Amazônia, nos moldes do IPCC. “Quase 200 cientistas produziram um relatório muito completo, abordando desde a formação geológica, passando pela questão histórica e propondo soluções para a região. O relatório, também apresentado na COP26, tem centenas de páginas, mas algumas lacunas, aspectos sobre a Amazônia que ainda ignoramos. Estamos destruindo o que nem conhecemos ainda, tantas promessas que poderiam nos ajudar a ter uma vida melhor. Mas acho que essa visão retrógrada sobre meio ambiente está com os dias contados.”

Saiba mais sobre o AmazonFACE.