Pesquisa indica que cultivos perenes, como eucalipto, podem abrigar mais espécies de roedores do que plantios de ciclo curto, como a soja. Autores argumentam que o trabalho pode orientar estratégias de manejo para conservação da fauna mesmo em áreas rurais
Por Marcos do Amaral Jorge – Jornal da Unesp | Um estudo realizado por pesquisadores da Unesp em parceria com colegas da Espanha e do Reino Unido mostrou que algumas paisagens agrícolas na Mata Atlântica podem abrigar uma maior diversidade de pequenos mamíferos quando sofrem menos modificações ao longo do tempo. Segundo o trabalho, plantios perenes, como a silvicultura do eucalipto, oferecem melhores condições a pequenos animais que culturas de ciclo curto, como a soja ou o milho. Para os autores do trabalho, os resultados podem orientar estratégias de manejo e conservação de espécies no contexto das áreas agrícolas, especialmente em um cenário de fragmentação do bioma e aumento do uso da terra por lavouras no estado de São Paulo.
O estudo, publicado na Agriculture, Ecosystems & Environment, foi realizado em uma região de Mata Atlântica localizada no nordeste do estado de São Paulo e ao sul de Minas Gerais. Conhecido como Corredor Cantareira-Mantiqueira, a área é considerada de grande importância ecológica porque conecta remanescentes do bioma por meio de um percurso marcado por diversos fragmentos da floresta. Nessa região, os pesquisadores selecionaram 63 locais, sendo 35 em áreas florestais, 16 em pastagens, 6 em áreas agrícolas e 6 em plantações de eucaliptos. Cada local de amostragem recebeu 50 armadilhas, que foram dispostas tanto no solo quanto a poucos metros de altura, de forma a capturar tanto indivíduos de hábito terrestre quanto arborícolas, que costumam viver e se deslocar pelos galhos e troncos entre o solo e o dossel das árvores.
O esforço dos pesquisadores resultou na captura de 21 espécies de marsupiais e roedores não voadores de pequeno porte, como cuíca, rato-do-mato e gambá-de-orelha-preta. Os dados da localização da captura dos mamíferos em áreas agrícolas e florestais foi combinada com mapas do uso e da cobertura do solo da região e com índices de vegetação obtidos a partir de imagens de satélite.

Metodologia revelou a dinâmica dos cultivos agrícolas
Segundo os autores, a combinação desses dois recursos trouxe complementariedade ao estudo: enquanto os mapas do uso da terra mostraram a variedade das paisagens agrícolas na região, os índices de vegetação permitiram maior detalhamento e a análise temporal das culturas, algo ainda pouco comum em trabalhos que estudam a distribuição da fauna nas paisagens do bioma. Índices de vegetação são cálculos matemáticos que, a partir de imagens de satélites ou drones, transformam a luz absorvida ou refletida pelas lavouras em dados que fornecem informações sobre, por exemplo, a saúde ou o grau de desenvolvimento das plantas que estão sendo cultivadas.
Pesquisadora principal do artigo, a bióloga Viviane Brito Dias explica que os mapas de uso e ocupação do solo são importantes, mas não fornecem algumas informações sobre as paisagens agrícolas que têm impacto direto na biodiversidade, como a frequência com que essas áreas são alteradas ou a qualidade desses cultivos. Além da questão temporal, que envolve períodos mais curtos entre uma colheita e outra e, portanto, alteram drasticamente a paisagem, a pesquisadora cita, por exemplo, a diferença na estrutura e nos recursos disponíveis em um pasto bem cuidado e em uma pastagem degradada. “Os índices de vegetação conseguem mostrar, por exemplo, o quão produtiva está uma vegetação, se elas são formadas por espécies parecidas ou diferentes ou como esses espaços variaram ao longo do ano”, explica a doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, no câmpus de São José do Rio Preto.
Os pesquisadores observaram que a característica das lavouras e a dinâmica dos ciclos das culturas pode influenciar diretamente na atração desses perfil de mamíferos. “Os resultados obtidos a partir de dados do vigor da vegetação ao longo do período de um ano mostrou que áreas de mosaico, marcadas pela mudança do uso do solo, influenciou de forma negativa, reduzindo a presença de pequenas espécies”, explica a pesquisadora. Por outro lado, em áreas em que houve poucas mudanças ao longo do tempo, em particular em cultivos de eucalipto, cujo ciclo pode variar entre seis e nove anos, foi observada uma relação positiva na presença dos roedores e pequenos mamíferos em geral.
“Nas áreas de eucalipto encontramos inclusive espécies endêmicas da Mata Atlântica, com poucos registros na literatura. Cuícas de solo terrestre, vulneráveis, que nós esperamos encontrar apenas em áreas florestais. Isso nos surpreendeu”, destaca Dias. “Nós não sabemos o que vai acontecer depois de nove anos, quando o eucalipto for colhido, mas os resultados do trabalho mostram que é possível encontrar formas de manejar as paisagens agrícolas para tentar manter usos que podem ser compartilhados com um maior número de espécies, intercalando culturas que sejam mais estáveis com outras perenes, por exemplo”, afirma.

Pequenos jardineiros da Mata Atlântica
As espécies observadas no estudo têm, em média, 100 gramas, e as maiores não ultrapassam os dois quilos. Isso é, são animais extremamente dependentes dos recursos que estão no seu entorno, uma vez que eles não têm a capacidade de uma ave de voar para outras áreas ou se deslocar longas distâncias como mamíferos de grande porte. “Esses roedores que nós capturamos são na sua maioria terrestres ou escansoriais, vivem entre o solo e os dossel de árvores. Eles dependem da estrutura de uma camada intermediária, da serrapilheira, onde comem insetos e se camuflam para proteção. Se a paisagem muda muito, isso afeta imediatamente essas espécies”, explica.
Além de serem indicadores da qualidade dos habitats e da integridade das paisagens ecológicas, os pequenos roedores desempenham uma função importante na cadeia trófica ao servirem de alimento para diferentes espécies de carnívoros e, ao mesmo tempo, possuírem frutos e sementes entre os principais elementos da sua dieta. Segundo a pesquisadora, essa atividade de predação das sementes é essencial para o recrutamento de algumas plantas, mantendo o equilíbrio da floresta ao impedir o domínio de certas espécies.
Viviane destaca a relevância desses pequenos mamíferos no contexto específico da Mata Atlântica, um bioma extremamente devastado historicamente e cujo cenário atualmente é de intensa fragmentação das áreas florestais. No estado de São Paulo, particularmente, nota-se uma dinâmica de conversão das pastagens degradadas em áreas agrícolas, o que reforça a importância de se compreender como essas mudanças nas paisagens afetam as espécies locais.
O artigo liderado pela pesquisadora integra um projeto de pesquisa amplo e de longa duração financiado pela Fapesp intitulado Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira Mantiqueira, que tem entre os seus objetivos entender como a estrutura espaço-temporal das paisagens florestais, agrícolas e urbanas podem influenciar na distribuição de espécies de fauna e flora, nos processos ecológicos ou nas funções ecossistêmicas, tomando a região do Corredor Cantareira Mantiqueira como área de pesquisa.
“É claro que o ideal é que as espécies tivessem à disposição toda a área que eles necessitam para sobreviver, mas não podemos ser ingênuos. O ser humano também precisa produzir alimentos e vai usar essas áreas”, argumenta Dias. “Esse trabalho busca colaborar para que a gente consiga encontrar formas de equilibrar a necessidade de produção humana com a persistência das espécies, que também nos prestam serviços ecossistêmicos”, diz.

Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.