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Por uma lente sensível — e baseada em evidência —, a entrevista com a médica Cláudia Esteves desmonta um dos mitos mais persistentes da nutrição contemporânea: a ideia de que dietas veganas seriam, por si, insuficientes

Quando a modelo Gisele Bündchen atribuiu o abandono do veganismo a um quadro de anemia e desconforto digestivo com feijão, reacendeu-se um debate antigo — e frequentemente mal compreendido — sobre a suficiência nutricional de dietas à base de plantas.

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A médica Cláudia Esteves, formada pela Universidade Federal de São Paulo e pós-graduanda em nutrologia, é categórica: os motivos apresentados não se sustentam do ponto de vista fisiológico.

Anemia não é sinônimo de falta de carne

“A anemia é um diagnóstico laboratorial, não uma causa em si”, explica a médica. Trata-se da redução da hemoglobina — proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue —, que pode decorrer de múltiplos fatores.

Embora a deficiência de ferro (anemia ferropriva) seja uma das causas possíveis, ela está longe de ser a única. Em mulheres em idade fértil, o principal fator é a perda sanguínea mensal pela menstruação. Gestação e parto também contribuem para o esgotamento das reservas de ferro.

Isso significa que abandonar o veganismonão resolve o problema e parte de uma premissa equivocada:
anemia não se trata com dieta, mas com suplementação adequada.

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A médica detalha: uma pessoa com anemia ferropriva pode necessitar de 30 a 60 mg de ferro por dia. Em comparação, 100 g de filé mignon oferecem cerca de 2,7 mg. Para atingir a dose terapêutica apenas com carne, seria necessário consumir mais de 2 kg diariamente — algo impraticável e fora de qualquer recomendação de saúde pública.

Ferro vegetal “funciona” — e pode ser suficiente

Outro ponto central da entrevista é a distinção entre ferro heme (de origem animal) e não-heme (de origem vegetal). Embora o ferro heme tenha maior taxa de absorção, isso não o torna superior em termos absolutos.

Na prática, alimentos vegetais frequentemente apresentam maior concentração de ferro por caloria. Um exemplo comparativo:

  • Feijão cozido (190 kcal): 4,2 mg de ferro → absorção final aproximada de 0,42 mg
  • Carne vermelha (190 kcal): 1,9 mg de ferro → absorção final de cerca de 0,34 mg

Ou seja, mesmo com menor biodisponibilidade, o ferro vegetal pode resultar em maior aporte líquido.

Além disso, estratégias simples potencializam a absorção:

  • Associação com vitamina C (como limão) pode aumentar a absorção em até quatro vezes
  • Demolho de leguminosas reduz o ácido fítico, melhorando a biodisponibilidade
  • Inclusão de folhas verde-escuras na dieta

Ainda assim, a médica reforça: essas medidas otimizam a dieta, mas não substituem suplementação em casos de deficiência instalada.

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Desconforto com feijão: adaptação, não contraindicação

O segundo ponto levantado por Gisele — gases e desconforto com feijão — também tem explicação fisiológica clara.

Leguminosas podem gerar maior produção de gases devido à fermentação de fibras no intestino. No entanto, isso está frequentemente relacionado:

“Quando há uma transição para uma dieta rica em fibras, ocorre uma reorganização da microbiota. Isso pode aumentar temporariamente a produção de gases”, explica.

A tendência, porém, é de melhora em poucos dias.

Há ainda alternativas dentro da própria alimentação vegetal:

  • Lentilha, geralmente mais bem tolerada
  • Derivados de soja, como tofu e tempeh
  • Técnicas como demolho com água morna e pré-cozimento

Ou seja, o desconforto não exige exclusão do grupo alimentar — mas ajuste.

Dieta vegana: falha estrutural ou falta de planejamento?

Segundo a médica, atribuir anemia ao veganismo é uma simplificação inadequada.

“Quando alguém se declara vegano, sabemos apenas o que essa pessoa não consome. Isso não diz nada sobre a qualidade ou variedade da dieta”, afirma.

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Dietas monótonas e pobres em nutrientes podem ocorrer tanto em padrões onívoros quanto veganos. E, do ponto de vista epidemiológico, a maioria das pessoas com anemia não é vegana — simplesmente porque a maioria da população consome produtos de origem animal.

O que deveria ter sido feito antes de abandonar a dieta

A conduta ideal, segundo a especialista, incluiria:

  • Investigação da causa da anemia (incluindo perdas sanguíneas)
  • Avaliação da ingestão de ferro e diversidade alimentar
  • Ajustes no preparo e escolha de leguminosas
  • Prescrição de suplementação adequada, se necessário

E, sobretudo, acompanhamento por profissional capacitado em nutrição vegetariana.

Conclusão

O caso expõe mais do que uma decisão individual: revela a persistência de conceitos ultrapassados na nutrição pública.

Não há evidência de que o veganismo, quando bem planejado, seja incapaz de atender às necessidades de ferro do organismo. Tampouco há base fisiológica para afirmar que carne “cura” anemia.

Entre mitos e evidências, a entrevista com Cláudia Esteves aponta para um consenso técnico:
não é a exclusão de alimentos que determina a saúde, mas a qualidade, o planejamento e — quando necessário — a intervenção clínica adequada.


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