Por Marcos Buckeridge, coordenador do Grupo de Estudos de Geopolítica no Instituto de Estudos Avançados da USP
Por Marcos Buckeridge – Jornal da USP | No início do século 20, a percepção de que os EUA se tornariam uma potência já era evidente. Essa percepção é refletida numa frase frequentemente atribuída a Jean-Jules Jusserand, embaixador da França naquele país, entre 1902 e 1924, que teria sintetizado a situação geoestratégica privilegiada dos Estados Unidos: “Ao Norte, um vizinho fraco; ao Sul, outro vizinho fraco; no Leste, peixe; e no Oeste, peixe”.
Seja a frase de Jusserand ou não, a ascendência dos EUA no mundo acabou se concretizando. Veio a primeira e, depois, a Segunda Guerra, e os EUA saíram vitoriosos. Por não terem tido que lutar batalhas em seu próprio território, à exceção do episódio de Pearl Harbor, saíram praticamente ilesos, com uma indústria forte e prontos para liderar o planeta. Do outro lado, a União Soviética encontrou-se numa posição semelhante, de modo que, entre 1950 e 1989, a Guerra Fria foi o pano de fundo de um mundo bipolar.
Os EUA dominaram o planeta com o apoio da Europa, enquanto um processo multipolar começava a se consolidar. A Organização das Nações Unidas (ONU) se fortaleceu, ainda que sob forte influência americana, em um mundo com cerca de 200 países.
Tudo caminhou em “velocidade de cruzeiro” até que, em 2008, uma crise financeira se abateu sobre os EUA e a Europa. Foi nesse momento que uma ideia de 2001, de Jim O’Neill, do Goldman Sachs, de chamar de Bric os emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, ganhou força. O Bric ganhou um S com a entrada da África do Sul, em 2011, formando o Brics, agrupamento que posteriormente incorporaria novos membros.
Por trás desses eventos, aparentemente relacionados à crise econômica de 2008, o Brics passou a crescer, mas a China se destacou ao dobrar seu Produto Interno Bruto (PIB) entre 2007 e 2012.
Nada disso é simples. Os movimentos geopolíticos resultam de inúmeros fatores que interagem entre si, e a ascensão chinesa não pode ser atribuída a uma única causa. Neste artigo, porém, os mecanismos importam menos do que o resultado. A China ascendeu a uma posição que a coloca hoje como rival, ou potencial rival, dos EUA. Há previsões de modelagem que a colocam, de fato, como um segundo polo de poder mundial até por volta de 2050.
Se tudo continuar caminhando como até agora, podemos considerar que estamos a caminho de um mundo bipolar. A movimentação geopolítica americana no segundo mandato de Donald Trump tem incluído o afastamento de algumas instituições e mecanismos multilaterais, num cenário de competição crescente entre os Estados Unidos e a China.
Em seu livro Geopolítica Global, Braz Baracuhy dedica um capítulo em que os EUA e a China são apresentados como polos de poder, tendo a Índia, ainda bem distante, como possível terceira potência. O problema, como aponta Baracuhy, é que o sistema tripolar não é estável. Para ele, a bipolaridade ou a multipolaridade seria um sistema mais estável. Isto porque, quando três grandes centros de poder passam a ter forças comparáveis, qualquer aproximação entre dois deles altera a posição relativa do terceiro. É justamente aí que a Índia começa a tornar o cenário interessante.
Se continuar crescendo nas próximas décadas, poderá aproximar-se dos dois grandes polos atuais, mas o fará em condições geográficas muito diferentes daquelas que historicamente favoreceram os Estados Unidos. A Índia convive com a China e o Paquistão, com disputas territoriais, armas nucleares na vizinhança e uma competição crescente pelo controle do Oceano Índico. Sua geografia lhe confere importância estratégica, mas também lhe impõe custos e riscos.
É nesse ponto que vale fazer uma pergunta que, à primeira vista, pode parecer estranha: e o Brasil? Para começar a respondê-la, um caminho é retomar a frase atribuída a Jusserand. Parte da vantagem extraordinária dos Estados Unidos residia em sua geografia. Enquanto as potências europeias passaram séculos convivendo com invasões e guerras em suas próprias fronteiras, os americanos puderam crescer protegidos por dois oceanos e, ao norte e ao sul, por países que não constituíam ameaças equivalentes às encontradas na Europa ou na Ásia. A geografia é fundamental, mas não explica, por si só, a transformação dos Estados Unidos em potência. Eles mesmos criaram as condições para que seus recursos econômicos, demográficos, tecnológicos e políticos fossem acumulados e convertidos em poder.
Se olharmos o mapa do Brasil sob a mesma perspectiva, algumas semelhanças chamam a atenção. Ao Norte, temos uma floresta de dimensões continentais; a Oeste, países que não representam uma ameaça estratégica comparável; mais adiante, a barreira dos Andes; a Leste, o Atlântico; e, ao Sul, nenhuma grande potência hostil. A comparação termina aí, pois as condições geográficas não determinam destinos nacionais. Entretanto, elas constituem aquilo que Baracuhy trata como condições iniciais, e é justamente isso que torna interessante pensar sobre o lugar que o Brasil poderia ocupar numa reorganização do poder mundial.
Além dessa situação geográfica relativamente protegida, o Brasil possui território continental, uma população numerosa, enorme disponibilidade de água doce, grande capacidade agrícola, recursos minerais, biodiversidade, fontes de energia diversificadas e uma extensa costa voltada para o Atlântico Sul. Há ainda uma característica que provavelmente se tornará cada vez mais importante neste século: a capacidade de produzir grandes quantidades de alimentos. Estamos tão acostumados a pensar no Brasil como potência agrícola que, às vezes, isso parece apenas uma característica intrínseca de nossa economia. Entretanto, num planeta que caminha para uma população próxima de dez bilhões de pessoas e que, simultaneamente, enfrentará mudanças climáticas, alterações nos regimes de chuva, ondas de calor e perturbações nas cadeias internacionais de produção e comércio, produzir alimentos, dispor de água e ter capacidade energética também são atributos geopolíticos.
Nada disso significa que o Brasil seja, ou inevitavelmente venha a ser, uma grande potência. A disponibilidade desses recursos não constitui, por si só, poder. Eles precisam ser articulados por instituições, tecnologia, infraestrutura, diplomacia e, principalmente, por uma estratégia capaz de estabelecer objetivos que ultrapassem os ciclos políticos de curto prazo. Esse está entre os pontos mais interessantes da análise de Baracuhy: condições geográficas, econômicas, tecnológicas e diplomáticas estabelecem possibilidades, mas não determinam resultados.
É aqui que a geopolítica começa a encontrar o tema que dá título a este ensaio. Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” a partir da derrota brasileira para o Uruguai na Copa de 1950. A expressão sobreviveu ao futebol porque parece capturar algo recorrente em nossa maneira de olhar o País: a tendência de nos percebermos menores do que somos, sobretudo quando nos comparamos com os países que elegemos como referência.
O problema passa, então, a ser construir uma estratégia de longo prazo. Educação, ciência, tecnologia, agricultura, energia, infraestrutura, defesa e diplomacia são frequentemente discutidas como políticas relativamente independentes e sujeitas às oscilações dos ciclos políticos. Uma estratégia nacional exigiria enxergá-las como componentes de um mesmo sistema e, sobretudo, pensar em décadas, algo que a China fez de maneira bastante explícita, que os Estados Unidos fizeram em diferentes momentos de sua história e que a Índia procura fazer agora. Não precisamos copiar nenhum desses modelos, pois as condições brasileiras são diferentes; precisamos reconhecer nossos próprios recursos e decidir o que queremos fazer com eles. Isso nos leva a perguntar se estamos realmente pensando como nação ou se permanecemos tão absorvidos por nossas questões internas que deixamos de acompanhar os movimentos de longo prazo do mundo.
Às vésperas de uma eleição nacional, essa pergunta talvez seja especialmente pertinente. As eleições inevitavelmente organizam o debate em torno dos problemas mais imediatos do País e das escolhas para o próximo mandato. Mas algumas das decisões que determinarão a posição do Brasil no mundo terão consequências muito além dos próximos quatro anos.
Nesse sentido, a posição internacional brasileira apresenta uma ambiguidade que pode se revelar uma vantagem. O País participa do Brics, mantém relações econômicas profundas com a China e, ao mesmo tempo, relações históricas, culturais e científicas igualmente profundas com o mundo ocidental. Soma-se a isso uma tradição diplomática que permite ao Brasil dialogar com atores que nem sempre dialogam facilmente entre si. Num mundo que volta a se organizar em torno da competição entre os Estados Unidos e a China, essa posição poderá ser desconfortável se formos pressionados a escolher entre os dois polos, mas valiosa se tivermos clareza sobre nossos próprios interesses. Talvez a questão não seja escolher um lado, mas adquirir capacidade suficiente para escolher por nós mesmos.
Isso não significa imaginar o Brasil como uma quarta potência prestes a juntar-se aos Estados Unidos, à China e à Índia. Nada na situação atual permite tal afirmação, e o próprio quadro apresentado por Baracuhy coloca o Brasil em um patamar diferente. Mas se o sistema internacional está novamente em transformação e muitos dos recursos de que o País dispõe tendem a ganhar maior importância nas próximas décadas, talvez exista um espaço estratégico que ainda não aprendemos a enxergar.
É por isso que vale a pena retornar à imagem com a qual começamos. Se alguém observasse o mapa brasileiro com o mesmo distanciamento com que Jusserand teria observado o mapa dos Estados Unidos no início do século 20, encontraria, ao Norte, uma imensa floresta; a Oeste, vizinhos sem capacidade de ameaçar nossa integridade territorial e, mais adiante, uma cordilheira; a Leste, o Atlântico; e, ao Sul, nenhuma grande potência hostil. Encontraria também um País continental, produtor de alimentos e de energia, e sem inimigos estratégicos imediatos. Talvez isso seja suficiente para inverter a pergunta que normalmente fazemos. Em vez de perguntar se o Brasil possui condições para, algum dia, tornar-se uma potência, talvez devêssemos perguntar por que um País que dispõe dessas condições encontra tanta dificuldade em transformá-las em um projeto de futuro.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.