Por Lucas Berti – Mongabay | Cartões-postais do Brasil, as multicoloridas aves da fauna brasileira enfrentam uma porção de desafios para sobreviver em seus habitats (isso quando ainda estão neles).
No caso dos psitacídeos — termo que engloba papagaios e araras — o encalço do fogo, do tráfico de animais e da perda florestal torna urgente a implementação de projetos de proteção a diferentes espécies ameaçadas e seus territórios.
E esses projetos existem: do Nordeste ao Sudeste, seja em parques nacionais ou mesmo em áreas privadas convertidas em reservas, iniciativas têm se dedicado a reintroduzir espécies na natureza. As soluções variam — e vão de ninhos artificiais a aulas de voo livre para pássaros que precisam ‘reaprender’ a rasgar os céus.
A Mongabay reuniu cinco histórias que mostram como a união entre ciência, conservação e trabalho duro já ajuda a recolorir paisagens Brasil afora.
De volta aos céus: o improvável retorno de um dos mais raros papagaios do Brasil

Espécie endêmica do litoral do Paraná e de São Paulo, o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) enfrentava um problema grave: diante do tráfico ilegal de fauna e da escassez de árvores para nidificação, a ave corria o risco de ser riscada do mapa.
Diante disso, um projeto se propôs a reverter a situação crítica do animal. Com o apoio de pesquisadores — e, aos poucos, com a colaboração da comunidade local —, ninhos artificiais foram instalados nas árvores da Mata Atlântica para garantir a conservação da espécie.
Ainda que os problemas não tenham desaparecido por completo, alguns números dão esperança: em 20 anos, a população do papagaio saltou de 5 mil para 9 mil indivíduos, permitindo que a ave saísse do status de “ameaçada” para “quase ameaçada” — algo extremamente raro no Brasil. Conheça essa história.
Em SP, araras recebem aulas de voo livre para aprender a sobreviver na natureza

“É como se você criasse um adolescente a vida inteira dentro de um quarto fechado e, de repente, soltasse ele em um shopping center lotado.” A metáfora é de Chris Biro, um treinador de voo livre para aves de estimação. Mas não diz respeito a esse trabalho específico: ela foi dita, na verdade, para explicar a dificuldade enfrentada por araras-canindé criadas em cativeiro.
Uma vez soltos na natureza, esses animais encaram uma série de desafios: eles sofrem para enfrentar predadores e encontrar comida — e, em muitos casos, não sobrevivem. É aí que Biro entra em cena: sob o olhar atento de pesquisadores, o profissional dá aulas de voo livre às araras, em busca de treiná-las para o retorno digno a uma vida natural.
O projeto inédito em São Simão (SP) foi tema de uma reportagem — e você pode conferir os detalhes aqui.
Papagaios raros voltam a fragmento de Mata Atlântica no NE após décadas de silêncio

Em Alagoas, assim como em outros estados do Nordeste, sobrou pouco da Mata Atlântica — um dos biomas brasileiros que mais diminui de tamanho. Mas é ali, nos fragmentos da floresta tropical, que o papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha) luta para sobreviver.
Ele já não está só: por anos sem ser avistada, a ave voltou a desfilar sua plumagem graças a iniciativas que a reintroduzem em seu habitat. O reencontro dos chauá com a antiga casa é fundamental, já que a espécie, endêmica da Mata Atlântica, cumpre um importante papel ecológico como dispersora de sementes.
A história de regresso do papagaio se ampara em projetos que unem esforços entre cientistas e proprietários de terras privadas, resultando na criação de reservas particulares. Saiba mais detalhes.
Refúgio em SP recria a Caatinga para devolver a arara-azul-de-lear ao sertão

Não é nada fácil remover as marcas do trauma causado pela caça ilegal e pelo tráfico de fauna, crimes que tanto acometem espécies no Brasil. É o caso da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), uma ave bonita — mas frágil — que há algumas décadas passou muito perto da extinção definitiva, diante da supressão do seu habitat.
Hoje, ainda que muitos desafios persistam, a situação da ave é um pouco diferente: estima-se que já existam mais de 2.700 indivíduos na natureza, superando os números baixíssimos registrados no final do século passado.
Esse aumento populacional não veio de graça: foi alcançado a partir de iniciativas de conservação, como uma que recriou, no interior de São Paulo, as condições ambientais da Caatinga baiana, região da qual a ave é endêmica. Acompanhe a saga das araras.
Entre avanços e desafios, Floresta da Tijuca tenta reconstruir sua fauna

Bosques densos, verdejantes e povoados de plantas — mas sem animais. Isso existe e leva o nome de “síndrome da floresta vazia”. Para combater esse problema, um dos caminhos é a reintrodução da fauna, cuja presença e interação com as plantas são essenciais para a dispersão de sementes e para a regeneração de espécies vegetais.
Essa estratégia faz parte da história do Parque Nacional da Tijuca (RJ), onde profissionais têm trabalhado duro para devolver diferentes animais a essa unidade de conservação da Mata Atlântica. Entre os bichos reconduzidos à mata estão importantes aves dispersoras, como a arara-canindé (Ara ararauna).
Tudo é parte de um longo processo, que começou nos anos 1970 com a reintrodução de outra ave com importante papel ambiental: o tucano-de-bico-preto (Ramphastos vitellinus), capaz de quebrar sementes duras com seus bicos poderosos. Saiba mais sobre os pássaros.
Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.