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Guia de alimentação, produzido pelo WRI, sugere mudanças na alimentação e dietas sem carne

Entre os muitos desafios que a humanidade tem enfrentado e terá de enfrentar daqui até 2050, a relação entre a produção e consumo de alimentos e a crise climática é uma delas. A expectativa é que a população mundial atinja 10 bilhões de pessoas em 2050, e essa população precisará ter acesso a alimentos que não sejam produzidos e distribuídos de forma a aumentar as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Porém, a forma como produzimos, comercializamos e consumimos alimentos hoje faz com que o setor seja um dos maiores emissores de GEE. Essa é uma questão extremamente sensível na produção da proteína animal, especialmente da carne bovina. Um estudo da FAO, por exemplo, mostrou que a produção de carne bovina globalmente representa 41% das emissões de GEE do setor agrícola. Isso significa que a produção mundial de carne emite, sozinha, o equivalente à Índia, terceiro país que mais emite GEE no mundo.

A boa notícia é que há solução. Dentro de uma transição para uma economia de baixo carbono, com uma retomada econômica verde, é possível implementar medidas para atuar na redução de emissões por dois caminhos: tanto na oferta quanto na demanda de carne. Em relação à demanda, o “Manual de orientação para o setor de alimentos promover o consumo de refeições ricas em vegetais”, um guia do World Resources Institute (WRI) até então inédito em português e publicado pelo WRI Brasil, apresenta caminhos para reduzir as emissões de GEE do setor de alimentos a partir de uma perspectiva de ciência comportamental em relação à demanda da carne.

Entendendo a demanda da carne – e substitutos

A produção de carne bovina é muito intensa em recursos. Ela exige vastas áreas de terras, água, grãos para ração animal, e esse processo emite uma grande quantidade de gases de efeito estufa. Além disso, essa demanda tende a crescer. A previsão para o período entre 2010 e 2050 é de um aumento de 68% na demanda por alimentos de origem animal e de 88% na demanda por carne.

Essa tendência é ainda mais forte no Brasil. O país é caracterizado por um consumo exacerbado de carne bovina quando comparado a outros países. Isso gera implicações para uma série de agendas, como a da segurança alimentar, recursos hídricos e mudanças climáticas. O aumento do consumo de proteína vegetal pode ser um caminho para buscar equilíbrio.

Incentivar um número maior de pessoas a diminuir o consumo de carne e adotar uma dieta mais rica em vegetais pode ser crucial na redução do impacto ambiental dos alimentos. Com uma mudança comportamental nas dietas, reduzindo a demanda por proteína de animais ruminantes e aumentando o consumo de alimentos a base de vegetais, o setor de alimentos pode liderar a transição para uma economia de baixo carbono, contribuindo para reduzir emissões e para uma produção mais sustentável e saudável.

É importante destacar aqui que não se trata de defender uma dieta estritamente vegetariana, mas sim uma dieta mais rica em vegetais – ou seja, uma dieta na qual produtos à base de plantas constituem a maioria de todos os alimentos consumidos, mas que permite que pequenas quantidades de produtos de origem animal, incluindo carne de ruminante, sejam consumidos.

Um guia para mudanças de comportamento e dietas

Atualmente, 14% da população brasileira se declara adepta a uma alimentação sem consumo de carne animal, e o setor de produtos vegetarianos está em franco crescimento: pequenas empresas de produtos vegetarianos crescem 40% ao ano. Para que as dietas ricas em vegetais possam se tornar uma solução viável para a questão das emissões no setor, porém, é preciso expandir esse público.

É aí que entra o novo guia do WRI traduzido para o Brasil. O objetivo do manual é entender quais intervenções de mudanças de comportamento empresas do setor alimentício – especialmente fornecedores de alimentos e restaurantes – poderiam ser implementadas para tornar os alimentos a base de plantas mais atrativos para o consumidor, podendo ser escolhidos como substitutos ou para reduzir o consumo da carne.

O guia, inicialmente produzido em inglês e em caráter global, foi traduzido e discutido com vários atores-chave para trazer um olhar para a realidade do Brasil e entender quais são soluções mais adequadas a partir de comportamentos dos brasileiros e da realidade econômica e cultural do país. A abordagem parte da premissa de que o setor de alimentos tem um papel importante a desempenhar na transição para uma economia de baixa emissão de carbono a partir da mudança de comportamento dos consumidores, especialmente quando se alimentam fora de suas casas. Restaurantes, lojas e serviços de self-service podem ajudar a reduzir resistências e estimular maior aporte de dietas ricas em vegetais a partir de intervenções que são muitas vezes simples, de fácil implementação, e podem apresentar resultados importantes no perfil do consumo de carne bovina, como por exemplo:

  • Melhorar o sabor e a textura de pratos ricos em vegetais
  • Destacar pratos ricos em vegetais no corpo principal do cardápio, não em uma seção separada “vegetariana” ou “especial”
  • Aumentar a seção dedicada a alimentos de origem vegetal em um expositor de self-service

O guia analisa mais de 50 dessas intervenções, e elenca as que considera prioritárias e com maior chance de sucesso.

Aumentar o consumo de dietas ricas em vegetais pode ser uma estratégia eficiente para reduzir emissões de GEE. Mas sozinha, ela não conseguirá solucionar o problema. É preciso tornar a produção da carne mais eficiente e com menor degradação.

Olhando para a oferta da carne

Um dos principais problemas da pecuária no Brasil é a forma como ela se se relaciona com os ciclos de uso da terra e o desmatamento. Muitas das áreas de florestas naturais em biomas como a Amazônia são desmatadas para dar lugar a pasto. Esse desmatamento é um grande vetor de emissões de gases de efeito estufa.

Há alternativas para esse problema. Estudos realizados pelo professor Eduardo Assad, da Embrapa, por exemplo, mostram que não há a necessidade de expandir a área de pasto no Brasil. Pelo contrário, seria possível duplicar o número de cabeças de gado sem avançar em áreas de florestas. Para isso, é preciso intensificar a atividade pecuária, aumentando o número de cabeças de gado por hectare, e recuperar as pastagens já degradadas com sistemas produtivos que incluem árvores.

Esses modelos não só enfrentam a questão climática e ambiental, como também são uma grande oportunidade econômica. Estudo realizado pelo WRI Brasil e pela iniciativa New Cimate Economy (NCE) no ano passado identificou que a recuperação de áreas de pastagens degradadas resultaria em um retorno econômico de R$ 19 bilhões para o país por conta do aumento da produtividade agrícola.

Um menu de soluções

Para enfrentar a crise climática e alimentar a crescente população mundial ao mesmo tempo, uma única solução não será suficiente. É preciso um grande cardápio de medidas, políticas e intervenções que permitam reduzir emissões e fazer a transição para uma economia de baixo carbono, que gere emprego e renda de forma sustentável e a partir de alimentos saudáveis.

No caso do Brasil, em que o setor do uso da terra é fundamental, há pelo menos cinco oportunidades com grande potencial para atingir os objetivos do Acordo de Paris e enfrentar problemas como segurança alimentar:

  1. Eliminar o desmatamento e a degradação
  2. Restaurar terras agrícolas e florestais degradadas
  3. Incentivar uma pecuária mais intensiva e sustentável
  4. Mudança nas dietas para alimentos mais sustentáveis, saudáveis e nutritivos
  5. Reduzir a perda e o desperdício de alimentos

Encontrar formas mais eficientes de produzir e consumir alimentos é uma questão urgente para o Brasil sair do mapa da fome e para a recuperação econômica do país frente à grave crise socioeconômica e sanitária decorrente da pandemia da Covid-19. O incentivo à adoção de dietas mais baseadas em vegetais pode servir como uma estratégia complementar para suprir a demanda de alimentos de uma forma que promova o desenvolvimento socioeconômico e reduza impactos ambientais, inclusive as emissões de GEE. O futuro do sistema de alimentos pode ser inovador, justo, sustentável, e impulsionado por estratégias apoiadas pela ciência comportamental.