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A nuvem de gafanhotos é um fenômeno que pode estar relacionado às mudanças climáticas

Imagem de Andres Siimon em Unsplash

A nuvem de gafanhotos é uma das pragas agrícolas mais conhecidas e recorrentes em toda a história da humanidade. Ela consiste no agrupamento excessivo da forma adulta de gafanhotos, e se forma quando uma quantidade anormal desses indivíduos se movem juntos. Essas nuvens podem chegar a conter centenas de milhões de gafanhotos, o que ameaça consideravelmente plantações agrícolas e pastagens.

Os fatores que levam a formação da nuvem de gafanhotos ainda não são claros, sendo objeto de estudo de muitos biólogos e entomologistas. Porém, existem indícios de que esse fenômeno pode estar relacionado às mudanças climáticas e à prática de monoculturas.

Eventos históricos de nuvens de gafanhotos

Citadas até mesmo no segundo livro da Bíblia como uma das pragas que assolou o Egito, as nuvens de gafanhotos são um evento extremamente marcante. Nessa narrativa, tais pragas foram enviadas pelo Deus de Israel para convencer o faraó do Egito, Ramessés II, a libertar o povo hebreu que sofria com a escravidão. Dez foram as pragas que assolaram o povo egípcio, sendo a oitava uma nuvem de gafanhotos. Tal nuvem foi tão grande que os gafanhotos “cobriram a face de toda a terra, de modo que a terra se escureceu; e comeram toda a erva da terra, e todo o fruto das árvores, […]; e não ficou verde algum nas árvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito” (Êxodo 10:15).

Outro exemplo seria uma das maiores nuvens de gafanhotos já documentada que ocorreu no Kansas em 1874, afetando dezenas de estados nos Estados Unidos. A nuvem de insetos chegou a cobrir uma área de mais de 5 milhões de km2, o que equivale à área dos seis maiores estados brasileiros combinada (Amazonas, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso do Sul). Os efeitos econômicos e sociais desse evento foram devastadores, fazendo o ano de 1874 ser lembrado como “O Ano do Gafanhoto”. Desde 1950, países do norte e leste da África e do Oriente Médio sofrem com nuvens de gafanhotos eventualmente, ameaçando a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Onde ocorre a nuvem de gafanhotos

Embora seja rara em alguns locais do planeta, as nuvens de gafanhoto ocorrem em todos os continentes. As mais graves foram registradas na África, México e Israel. Contudo, América do Sul, Austrália, Ásia e Europa também sofrem com a ocorrência deste evento em menor escala. Cada nuvem é formada por diferentes espécies de gafanhotos que vivem em vários habitats.

Um exemplo é o gafanhoto da espécie Schistocerca cancellata, que formou em 2020 uma nuvem com quase 100 milhões de indivíduos no Paraguai, causando prejuízos em diversos países vizinhos. A última nuvem de gafanhotos que afetou a Somália, Etiópia e Quênia entre 2019 e 2020 pertencia a espécie Schistocerca gregaria, conhecida como gafanhoto do deserto.

Formação e efeitos da nuvem de gafanhotos

A nuvem de gafanhotos costuma ocorrer em locais com clima quente e úmido e que possuem campos de monoculturas. A reprodução desse inseto parece ser estimulada por maiores temperaturas, o que se torna especialmente preocupante diante do cenário de agravamento do aquecimento global. Além disso, grandes plantações de milho e outros vegetais de interesse humano formam campos abertos sem barreiras físicas, como árvores.

Esses cultivos recebem uma grande carga de agrotóxicos, o que afasta ou elimina possíveis competidores ou predadores naturais dos gafanhotos. Em casos muito graves, as nuvens de gafanhotos podem consumir mais de 130 mil toneladas de biomassa por dia, trazendo um enorme impacto econômico e agravando situações de fome e pobreza local.

Combate e prevenção da nuvem de gafanhotos

As autoridades costumam combater as nuvens de gafanhotos com a dispersão de inseticidas químicos, iniciativa que pode ser falha e causar diversos danos ambientais. Um modo de combate alternativo que tem apresentado certa efetividade tem sido monitorar o deslocamento da nuvem e utilizar inseticidas químicos, como esporos de fungo, que afetem de maneira mais específica os gafanhotos.

De acordo com especialistas, a melhor prevenção para evitar a formação de nuvens de gafanhotos é o contínuo monitoramento e controle das populações desses insetos. Com ações rápidas, coordenadas e pontuais, aparentemente é possível evitar a formação das superpopulações que se tornam tão problemáticas. Além disso, melhores práticas agrícolas, como a agroecologia, podem ter potencial de reduzir esse problema, já que aumentam a biodiversidade e, consequentemente, as barreiras físicas e os competidores e predadores naturais dos gafanhotos.



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