Desequilíbrio energético atinge nível recorde na série histórica, com concentração de gases de efeito estufa em alta
Por Priscila Pacheco – Observatório do Clima | Em 2025, o desequilíbrio energético da Terra atingiu o maior nível desde o início dos registros, em 1960. Na prática, isso significa que o planeta não apenas continua acumulando calor — esse processo também está acelerando. As informações fazem parte do relatório “Estado do Clima Global 2025”, divulgado nesta segunda-feira (23) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas.
Um estudo publicado em 6 de março por cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, já havia apontado, com alto grau de precisão estatística, que o aquecimento global ficou mais rápido na última década.
O desequilíbrio energético mede a velocidade com que o calor retido pelas emissões humanas de gases de efeito estufa se acumula no sistema climático. Esse excesso de energia aquece oceanos, continentes e a atmosfera, além de acelerar o derretimento de gelo.
O relatório repete que a crise climática exige ações urgentes e ambiciosas e alerta que parte dos impactos já é irreversível por séculos ou milênios.
“O estado do clima global é de emergência. O planeta está sendo levado além de seus limites. Todos os principais indicadores estão em alerta máximo”, afirma António Guterres, secretário-geral da ONU.
Confira abaixo os principais destaques do relatório:
Concentração de gases de efeito estufa bate recorde
Em 2024, último ano com dados consolidados, a concentração de CO₂ teve o maior crescimento anual desde o início das medições modernas, em 1957. “Esse aumento foi impulsionado pelas contínuas emissões de CO₂ fóssil, pelos incêndios e pela redução da eficácia dos sumidouros terrestres e oceânicos”, explica o relatório.
O uso de combustíveis fósseis — petróleo, carvão e gás — é o principal impulsionador global das mudanças climáticas. O desmatamento piora o problema.
As concentrações de metano e óxido nitroso, outros importantes gases de efeito estufa, também atingiram níveis recordes em 2024. Dados preliminares indicam que os níveis desses três gases continuaram a aumentar em 2025.
O aumento da temperatura em 2025 foi o maior sem a influência do El Niño
O ano passado foi o segundo ou o terceiro mais quente em 176 anos de observações, dependendo da base de dados analisada. O fato de 2025 ter ficado atrás de 2024 — o ano mais quente já registrado, com 1,55 °C acima da média pré-industrial (1850–1900) — não contradiz a intensificação e a aceleração do aquecimento global.
Fenômenos climáticos naturais também influenciam a temperatura, como El Niño e La Niña. O primeiro tende a elevar temporariamente a temperatura média global e esteve ativo em 2024; o segundo provoca um resfriamento temporário.
A OMM explica que as temperaturas globais em 2025 foram, em geral, mais baixas do que as do final de 2023 e de 2024, refletindo a transição de um forte El Niño para condições neutras ou fracas de La Niña. Ainda assim, foram mais altas do que as de qualquer ano anterior a 2023. “Assim, 2025 tornou-se o ano mais quente já registrado sem a presença do El Niño”, afirma o relatório.
Oceano profundo também esquentou
Em 2025, o conteúdo de calor oceânico (CCO), medida da energia térmica que considera o aquecimento das camadas mais profundas do oceano, atingiu o nível mais alto em 66 anos de registros, superando o recorde de 2024.
Nos últimos nove anos, cada ano estabeleceu um novo recorde para o CCO. A taxa de aquecimento nas últimas duas décadas (2005–2025) é mais que o dobro da observada entre 1960 e 2005.
Cerca de 91% do calor absorvido pelo planeta aquece o oceano — 5% aquece a superfície terrestre, 3% aquece e derrete gelo e neve e 1% aquece a atmosfera. “A taxa de aquecimento oceânico revela a rapidez com que o sistema terrestre está retendo o excesso de energia na forma de calor proveniente das mudanças climáticas. As alterações no CCO são, portanto, um indicador fundamental dessas mudanças”, diz o relatório.
O aquecimento oceânico tem consequências de grande alcance e duradouras, como a degradação dos ecossistemas marinhos, a perda de biodiversidade e a redução da capacidade de absorção de carbono pelos oceanos. Intensifica tempestades tropicais e subtropicais, acelera a perda de gelo marinho e contribui para a elevação do nível do mar.
Oito dos dez piores degelos desde 1950 ocorreram a partir de 2016
No ano hidrológico de setembro de 2024 a agosto de 2025, a perda de massa em um conjunto de geleiras de referência ficou entre os cinco piores resultados já registrados. Oito dos dez balanços de massa mais negativos desde 1950 ocorreram a partir de 2016.
O balanço de massa glacial corresponde à diferença entre o ganho e a perda de massa das geleiras. A perda de gelo contribuiu com cerca de 21% da elevação total do nível do mar entre 1993 e 2018 — enquanto o aquecimento oceânico respondeu por 42% e o derretimento das calotas polares da Groenlândia e da Antártida por 15% e 8%, respectivamente.
Gelo marinho está abaixo da média do período 1991-2020
Em 2025, a extensão média anual do gelo marinho no Ártico foi a menor ou a segunda menor já registrada, enquanto a da Antártida foi a terceira menor, atrás de 2023 e 2024. Ainda assim, ao longo de todo o ano, a extensão do gelo nas duas regiões permaneceu abaixo das médias registradas entre 1991 e 2020.
Metade dos humanos correm risco de dengue
Neste ano, a OMM incluiu no relatório um estudo de caso sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde humana. Um dos destaques é a dengue, cujos casos notificados atingiram os níveis mais altos já registrados.
Cerca de metade da população mundial está em risco de infecção. Estima-se que ocorram entre 100 e 400 milhões de casos por ano. Segundo o relatório, a transmissão da doença está se expandindo para novas regiões e se prolongando em áreas onde já era endêmica.
Embora a transmissão seja influenciada por fatores sociais, ambientais e pelo sistema de saúde, o aumento das temperaturas e as mudanças nos padrões de chuva ampliam a eficiência do vetor. Isso acelera o desenvolvimento do mosquito Aedes aegypti, aumenta a frequência de picadas e encurta o período de incubação do vírus.
No Brasil, por exemplo, a aptidão climática para a transmissão da dengue pelo Aedes aegypti aumentou 108% entre 1951–1960 e 2020–2024. O R₀ (número básico de reprodução, que indica quantas pessoas, em média, podem ser infectadas por um indivíduo) passou de 1,4 para 2,9.
Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.