Importantes refúgios de vida no deserto africano estão sendo extintos de forma acelerada devido a múltiplos fatores
Por Andrey Furmankiewicz – Jornal da USP | Os oásis no Saara são refúgios de vida no deserto, formados em locais com acesso à água subterrânea, como no Chade, Marrocos, Egito e Tunísia. Eles variam em tamanho, desde grandes áreas com plantações de tamareiras, como o Oásis de Tafilete, até lagos cercados por rochas, como a Guelta d’Archei, e serviram como pontos de parada para rotas de caravanas por milênios. Contudo, essas ilhas de biodiversidade que abrigam a presença humana há séculos estão desaparecendo em ritmo acelerado – segundo dados do Ministério da Agricultura do Marrocos e relatórios compilados pela Greenpeace (relatório Hacking the Climate), o Marrocos perdeu dois terços (66%) de suas palmeiras no último século, por exemplo.
Outra informação importante que confirma esse fenômeno são os relatórios do Observatório do Saara e do Sahel (OSS), que tratam do esgotamento do sistema aquífero do Saara Setentrional. Este está sendo bombeado a uma taxa três vezes maior do que a sua recarga natural (que é quase nula, pois é água fóssil). Em regiões da Argélia e Tunísia, o nível da água subterrânea caiu de 20 metros a 60 metros nas últimas décadas. Isso significa que as raízes das palmeiras não alcançam mais a água naturalmente e as fontes superficiais (nascentes) secaram.
A professora Nádia Gilma Beserra de Lima, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, afirma a importância dos oásis para a presença humana da região. “Os serviços ecossistêmicos nos oásis acabam sendo essenciais. para a manutenção da vida naquela região. E esses serviços explicam, em grande parte, por que esses ambientes foram historicamente indispensáveis para a ocupação humana e a manutenção da vida no Saara.”
“Como exemplo, existem os serviços de provisão, fornecendo água, alimento e suporte para o desenvolvimento de uma pecuária, os de regulação, como uma moderação dos aspectos microclimáticos, estabilização de solo e redução de erosão. Além disso, culturais, como manutenção de técnicas agrícolas tradicionais, identidade comunitária e valor paisagístico dessas regiões. E, por último, os serviços de suporte, refúgios de biodiversidade e manutenção de processos ecológicos, viabilizando assentamentos permanentes, agricultura irrigada, rotas de circulação de pessoas e mercadorias.” Assim, explica a professora, os oásis atuam como núcleos de habitabilidade e resiliência socioeconômica em um ambiente extremo.
O desaparecimento dos paraísos
O aumento das temperaturas na região, entre 0,27°C a 0,6°C por década, contribui para o aumento das taxas de evaporação das águas, que são essenciais para a sobrevivência desses ecossistemas. Porém, o efeito mais crítico da crise climática no desaparecimento desses locais aparece na dinâmica das águas subterrâneas. “Os aquíferos são a base de existência dos oásis, seu declínio, portanto, representa a maior ameaça à sobrevivência desses ambientes. Existem estudos que demonstram que vários oásis já apresentam queda expressiva no armazenamento de água subterrânea, medido por indicadores. Dessa forma, essa combinação de temperaturas mais altas, pouca chuva e maior evaporação também reduz a capacidade de recarga natural dos aquíferos.”
Nádia, entretanto, ressalta que o desaparecimento desses ambientes não é apenas resultado do clima. “É importante mencionar que isso é um resultado da interação entre mudança climática e pressão antrópica. Atividades como o bombeamento de águas subterrâneas destinadas à agricultura aceleram o esgotamento dos aquíferos. Além disso, o processo de salinização dessas águas e a intensificação do uso do solo nessas regiões também comprometem a sua qualidade e a disponibilidade para esses ecossistemas.”
Consequências da devastação e como mitigá-las
A degradação dos oásis gera diversas consequências para as populações locais e as nações que os abrigam. “Além de comprometer o abastecimento da água e a segurança hídrica, reduz a produção agrícola e a renda local, amplia as desigualdades e incentiva a migração, fragiliza economias regionais e o turismo, dificulta um planejamento hídrico e enfraquece a capacidade dos países de conter a desertificação também.”
“A crise climática continuará elevando as temperaturas e a evaporação. Isso exige respostas rápidas, integradas e contínuas. Não se trata de salvar os oásis, como era muito dito no passado, mas de garantir condições para que continuem sustentando populações humanas em um cenário de mudanças climáticas que é cada vez mais intenso. A conservação desses oásis é um desafio complexo, mas possível, desde que conduzido com um planejamento ambiental, climático, com uma gestão hídrica rigorosa e um compromisso, principalmente político, de longo prazo”, finaliza a professora.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.