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O biolubrificante pode solucionar um dos principais gargalos da área de combustíveis e lubrificantes minerais, que é o processo de oxidação de seus produtos

Por Sérgio de Sousa em Agência UFC– No Cariri, ele faz grande sucesso na mesa ‒ e, na região central do País, o êxito não é diferente. Agora, além de especiaria da gastronomia brasileira, o popular pequi está sendo transformado, por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, em lubrificante para a indústria. Manifestando diversas vantagens em relação aos similares de origem mineral, como seu caráter renovável e a baixa toxicidade, o produto mostra-se promissor também por apresentar maior vida útil. O pedido de patente do invento já começou a ser escrito.

O fruto do pequizeiro é uma fonte oleaginosa muito explorada na área de alimentos e também na cosmetologia, porém não é usado como fonte de matéria-prima para a produção de lubrificantes de base biológica (biolubrificantes) e biocombustíveis. A utilização pioneira do pequi para este fim pode solucionar um dos principais gargalos da área de combustíveis e lubrificantes minerais, que é o processo de oxidação de seus produtos, o qual faz com que eles percam parte de sua eficiência.

“Naturalmente, o óleo de pequi, extraído principalmente da polpa do fruto, possui substâncias antioxidantes, as quais podem atuar na redução do fenômeno de oxidação e, dessa maneira, aumentar a vida útil enquanto lubrificante”, explica a Profª Nágila Ricardo, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica. “O óleo de pequi por si só pode superar esse entrave”, considera.

Foto de pesquisador segurando o óleo e o lubrificante de pequi
O biolubrificante está sendo desenvolvido como projeto de doutorado de Elano Nery Ferreira, sob orientação da Profa. Nágila Ricardo (Foto: Divulgação)

Com isso, além de se apresentar como uma alternativa ambientalmente correta em relação aos lubrificantes minerais, o biolubrificante de pequi ainda se posiciona em situação de vantagem se comparado a similares de origem vegetal, como os feitos a partir de soja e mamona, por conta de sua riqueza em substâncias antioxidantes.

A Profª Nágila vem coordenando a pesquisa, iniciada ainda entre 2013 e 2014. Os estudos são desenvolvidos no Laboratório de Polímeros e Inovação de Materiais (LabPIM/UFC) e contam com parcerias dos departamentos de Engenharia de Alimentos e de Engenharia de Transportes e de professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No início, a investigação tinha por objetivo produzir biodiesel do pequi, conforme projeto desenvolvido pela então mestranda Tathilene Bezerra Mota Gomes Arruda, hoje doutora, sob a orientação da Profª Nágila Ricardo. Após essa experiência, a linha de pesquisa na síntese de biolubrificantes foi ganhando mais espaço.

COMO O LUBRIFICANTE É FEITO

Atualmente, o desenvolvimento do biolubrificante de pequi é o foco da pesquisa de doutorado de Elano Nery Ferreira, pelo Programa de Pós-graduação em Química, também sob orientação da Profª Nágila Ricardo. Segundo ele, o biolubrificante vem sendo elaborado a partir da esterificação – que é o processo de produção de ésteres – dos ácidos graxos livres do óleo do pequi. Os ácidos graxos são substâncias comuns a todos os óleos e gorduras, sejam eles de natureza vegetal ou animal, na forma de triglicerídeos. Os triglicerídeos, portanto, são separados (ou, como chamam, são hidrolisados) para então ocorrer a extração dos ácidos graxos livres.

Foto de equipamento de laboratório para produção do biolubrificante
Equipamentos de laboratório: estudos são desenvolvidos no Laboratório de Polímeros e Inovação de Materiais – LabPIM/UFC (Foto: Divulgação)

“Em seguida, estes ácidos graxos extraídos são submetidos à esterificação, que é uma reação orgânica muito trivial, para a obtenção do biolubrificante do óleo de pequi”, explica Elano Ferreira. O processo está descrito no artigo “Pequi Oil Esters as an Alternative to Environmentally Friendly Lubricant for Industrial Purposes” (“Ésteres de óleo de pequi como alternativa de lubrificantes ecologicamente corretos para fins industriais”, em tradução livre), publicado em janeiro deste ano no periódico internacional ACS Sustainable Chemistry & Engineering.

Esse processo de síntese de lubrificante é considerado simples e convencional, por utilizar condições reacionais comuns, sem a aplicação de reações orgânicas adicionais para a melhoria do produto. Tal fator, explicam os pesquisadores, gera uma economia de reagentes químicos em sua produção. “A meta é chegar em um lubrificante de base biológica com parâmetros de qualidade que se equiparem aos óleos básicos minerais, sem, no entanto, utilizar quaisquer aditivos”, destaca a Profª Nágila Ricardo.

O produto em desenvolvimento no LabPIM/UFC também traz outra característica importante, que é o fato de, assim como outros biolubrificantes, possuir elevados índices de viscosidade. Isto é, o lubrificante não sofre perda de desempenho com a variação de temperatura e pode ser utilizado em ambientes de clima frio, dado que ainda está funcionando como agente de lubrificação apesar de baixas temperaturas. “Eles também possuem melhor ação na redução do atrito e maior estabilidade ao cisalhamento, ou seja, não sofrem deformação com facilidade apesar das forças e/ou tensão mecânica aplicadas”, acrescenta a orientadora da pesquisa.

COMERCIALIZAÇÃO E PATENTEAMENTO

O biolubrificante de pequi está sendo desenvolvido para que possa ser utilizado nos já conhecidos mercados de lubrificantes, como em motores marítimos e automotivos, fluidos de corte e fluidos hidráulicos, entre outros. Além disso, destacam os pesquisadores, o produto também poderá ser usado em aplicações mais finas, como na biomedicina, cosmetologia e indústria de alimentos.

A oferta renovável do produto retirado do pequi é uma das condições que garantem viabilidade econômica do biolubrificante, conforme defende Tathilene Arruda, que iniciou as pesquisas no laboratório com o biodiesel de pequi. “A viabilidade da produção dos biolubrificantes pode ser comparada à do biodiesel, uma vez que ambos são materiais com características químicas e sínteses muito similares”, destaca.

Foto de pesquisadores em laboratório
Equipe de pesquisadores: os estudos com óleo de pequi iniciaram ainda entre 2013 e 2014 (Foto: Divulgação)

No Brasil, contudo, a produção e a utilização dos biolubrificantes ainda não ocorrem de modo tão extensivo quanto em mercados como o europeu. Além disso, destaca a Profª. Nágila Ricardo, o País ainda não possui legislação específica para este tipo de produto, como acontece em outras nações.

“Contudo, nossa pesquisa espera fornecer as soluções de mercado em termos de síntese para este tipo de produto, adiantando-nos aos possíveis entraves que possam ocorrer em sua produção”, analisa a professora. Ela antecipa que um pedido de patente para o biolubrificante de pequi está em processo de escrita. “E, futuramente, quando o pedido de patente for depositado, podemos pensar em um licenciamento como propriedade intelectual desenvolvida no LabPIM”, visualiza.

O biolubrificante de pequi ainda está sendo investigado em novos aspectos, passando por diversos testes de eficácia. “O intuito é que, ao final do doutorado, possamos ter um portfólio de lubrificantes que fortifiquem o biolubrificante de pequi como uma alternativa segura, limpa e biodegradável e com características similares ou até mesmo superiores aos lubrificantes de base mineral”, projeta Elano Ferreira.

Fontes: Profª Nágila Ricardo, orientadora da pesquisa ‒ e-mail: naricard@ufc.br / Elano Ferreira, pesquisador ‒ e-mail elano.nery@hotmail.com / Tathilene Arruda, pesquisadora ‒ e-mail: tathilene@gmail.com