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Um levantamento realizado pela USP indicou aumento nas internações por complicações cardíacas durante os jogos da seleção brasileira

Por Gabriel Albuquerque – Jornal da USP | Um levantamento realizado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em 2014,  indicou um aumento de até 16% nas internações por complicações cardíacas durante os jogos da Seleção Brasileira de Futebol, com a emoção provocada por uma Copa do Mundo podendo representar um risco real à saúde cardiovascular dos torcedores. O levantamento considerou os mundiais de 1998 a 2010. Somente no mês da competição, as internações de pacientes cardíacos crescem 9% nos hospitais do País. Janieire Nunes, professora do Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da USP, explica como o corpo humano reage a situações de grande tensão emocional, como uma disputa de pênaltis ou um gol nos minutos finais.

“A gente tem alguns sistemas reflexos que fazem com que tenhamos essa emoção, um desses sistemas é chamado de reflexo de luta e fuga, é a mesma sensação que a gente tem quando andamos na rua e somos surpreendidos com um assalto. A reação da gente pode ser lutar ou fugir, porque você tem uma descarga adrenérgica intensa e central, que faz com que você aumente rapidamente essa base de alimentação no músculo para que a gente dê uma ativação de mecanismos de contração muscular que sejam eficientes para você ter uma resposta muscular rápida de se defender ou de lutar. Nesse sentido, quando você está participando ou assistindo a uma partida de futebol, envolve uma expectativa de você estar lutando.”

“Essa descarga adrenérgica em quem tem, por exemplo, um substrato cardíaco já doente pode levar à arritmia cardíaca aguda, principalmente em idosos com fibrilação atrial, que é quando o coração bate descompassado com bastante força e uma frequência muito alta, que pode descompensar agudamente o coração, ou uma arritmia ventricular, que daí tem um componente muito mais grave, pode ter desmaio súbito, mal-estar súbito durante um processo de estresse agudo ou desencadeado, por exemplo, em uma partida de futebol.”

Sinais de alerta durante os jogos

Janieire fala sobre sinais de alerta a serem observados, os quais podem indicar uma complicação cardíaca durante os jogos. “O principal sinal de alerta é quando a pessoa está vivenciando um processo emocional muito grande durante uma partida de futebol e ela começa a ter palpitação no coração, ela sente que o coração está batendo mais forte do que habitualmente. Outro alerta é se ela começa a sentir uma pressão aumentada na cabeça, como uma dor na nuca, é um aumento da pressão arterial ocasionado pela descarga adrenérgica. É importante atentar também à dor e pressão no peito ou nas costas não habituais, sintomas gastrointestinais, mal-estar, náusea ou angústia durante o processo de euforia do futebol.”

A importância do futebol na sociedade

Flávio de Campos, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador científico do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), explica as razões para o futebol ocupar um lugar tão importante na sociedade. “Todas as formações sociais, desde a pré-história, elaboraram jogos, modalidades lúdicas e, a partir do século 19, você tem o aparecimento dos esportes. Se você observar, cada sociedade tem um esporte que, de certa maneira, se constitui como principal. Fazendo um contraponto ao Brasil, os Estados Unidos têm o basquete, o beisebol e o futebol americano como principais.”

“Essas modalidades têm significados que representam determinados aspectos da cultura de uma determinada formação social. O futebol é a modalidade esportiva mais importante do planeta, um elemento fundamental da cultura em vários países. No caso do Brasil, o futebol tem três aspectos de construção de identidade: o primeiro é a identidade masculina, o futebol se construiu no Brasil como um índice de masculinidade violenta e machista. O segundo índice de identidade é o clubista e a fidelidade a um determinado clube de futebol; mais acentuada entre meninos desde o nascimento, é prática recorrente de receber presentes do time, fazendo uma espécie de batismo futebolístico. Com as meninas também, em menor grau, devido à exclusão inicial por causa da identidade masculina. O terceiro elemento é o pertencimento à nação. As seleções nacionais são representações, elas não são símbolos nacionais, mas elas simbolizam a nação. Então o terceiro nível de representação de identidade passa por essa representação internacional”, explica Campos.

O professor argumenta que a construção da identidade nacional brasileira teve o futebol como um de seus pilares fundamentais. “Esses três níveis são importantes para a gente identificar a importância que o futebol vai ter em países como o Brasil, Argentina, Itália, França e outros. No caso do Brasil, o futebol surge como uma prática esportiva da elite no final do século 19 e início do século 20, mas ele é tomado pelos setores populares, de maneira que você tem, de fato, uma disputa do ponto de vista da prática esportiva e do tempo que tem passado desse futebol com o que acaba se constituindo numa somatória identitária. No começo do século 20, o Brasil tinha uma população de ex-escravizados e de imigrantes estrangeiros, uma população enorme de analfabetos e pelo menos metade da população de mulheres, toda essa população não tinha representação política e, portanto, a relação com o País era uma relação muito distante. Nessa época, ocorre uma coisa interessante. O Brasil venceu dois torneios importantes da época, que são os dois sul-americanos de 1919 e 1922. E, a partir disso, o futebol foi se constituindo como um certo elemento de unidade, de representação simbólica.”

As diferentes formas de torcer

Campos explica que o ato de torcer é diferente para cada pessoa, às vezes mais ou menos intenso. “O torcer não é único, mesmo o torcer por um clube é diferente. Mesmo dentro das torcidas organizadas, há vários tipos de torcidas organizadas que se diferenciam, há os torcedores não organizados, os de ocasião e outros. Há também uma diferenciação no torcer pela seleção de formas diversas. Desde aquele que acompanha as convocações e as discussões até aquela pessoa que gosta mesmo é da festa, de reunir pessoas etc. Nessas diversas formas de torcer, vemos alguns torcedores que têm uma vinculação muito maior com o seu clube e não com a seleção brasileira ou vice-versa.”

“No caso brasileiro, nestes últimos 20 anos, nós temos uma discussão política e ideológica em torno da representação simbólica, existe um sequestro da seleção brasileira por parte de grupos de extrema-direita. Isso é um processo iniciado em 2013, com as Jornadas de Junho, que se acentuou a cada eleição e culminou no impeachment da presidente Dilma e na eleição de Bolsonaro. A camiseta da seleção brasileira cria um ruído que ela não criava tempos atrás, há uma tensão. Olhar para as formas de torcer por isso, e olhar para as formas de torcer pela seleção, é olhar, sobretudo, para a diferenciação”, explica o professor.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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