“É preciso ser antirracista”: luta como princípio e prática

eCycle

Ser antirracista exige estabelecer o combate ao racismo como princípio ético e prática diária; saiba como apoiar a luta

antirracista
Imagem editada e redimensionada de Alma Preta/Brasil de Fato, disponível no Flickr e licenciada sob CC-BY 2.0

Antirracista é o indivíduo que se insere, deliberadamente, em um processo de ação e oposição ativa ao racismo. O objetivo do antirracismo é desafiar a ordem vigente, que normatiza e perpetua práticas racistas dentro de uma sociedade estruturalmente desigual, para exigir, de maneira ativa, a transformação de políticas, comportamentos e crenças que fortalecem a discriminação. A professora e filósofa Angela Davis, reconhecida no mundo todo por integrar o movimento Panteras Negras durante a década de 1970, nos Estados Unidos, é certeira ao pontuar que "numa sociedade racista, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista".

O antirracismo está enraizado na ação. Como aliado da luta, o antirracista toma para si a responsabilidade pela erradicação de preconceitos respaldados pelo sistema hierárquico que segmenta nossa sociedade em camadas – que podem ser mais ou menos favorecidas, de acordo com fatores como cor e etnia. É dever do antirracista, portanto, cobrar medidas para eliminar o racismo nos níveis individual, institucional e estrutural.

A luta antirracista não é nova, mas tem ganhado força com movimentos de direitos humanos e resistência negra, como o Black Lives Matter, nos Estados Unidos, que se destacou internacionalmente com a organização de protestos que visam combater a violência policial contra a população negra norte-americana e exigir respeito, do ponto de vista social, pelas pessoas negras. Aqui no Brasil, o movimento foi batizado de Vidas Negras Importam e também coordenou manifestações em espaços públicos.

Ao fundar a primeira sociedade abolicionista da América, em 1775, Anthony Benezet possivelmente inaugurou o movimento antirracista nos Estados Unidos. O antirracismo tem suas bases na abolição e na luta pós-libertação por uma mudança estrutural, bem como nos movimentos pelos direitos civis do século 20.

Historicamente, o Brasil tem lançado mão de dispositivos legais que contribuem para a manutenção do racismo na sociedade. Neusa Santos, psicanalista e autora do livro Tornar-se negro (1983), diz que “a sociedade escravista, ao transformar o africano em escravo, definiu o negro como raça, demarcou o seu lugar, a maneira de tratar e ser tratado, os padrões de interação com o branco e instituiu o paralelismo entre cor negra e posição social inferior”.

Por que ser antirracista

O problema do racismo estrutural é que ele nos rodeia a todo o tempo, desde sempre. Nascemos e crescemos em uma sociedade fundada sobre o racismo, construída pela exploração sistêmica de negros e indígenas, e somos condicionados por ela a reproduzir e manter o racismo como base de sustentação da máquina social.

O racismo está profundamente enraizado em nossa cultura e nossas comunidades: nas escolas, na Justiça, nas universidades, no governo, nas ruas. É tão difundido que, muitas vezes, nem nos damos conta de como as políticas e instituições favorecem desproporcionalmente alguns em prejuízo de outros.

Por isso, “não ser racista” não é o suficiente para eliminar a discriminação racial. Essa perspectiva desconsidera que pessoas brancas frequentemente não percebem os próprios preconceitos inconscientes e não entendem as questões institucionais e estruturais que sustentam a supremacia branca e contribuem para comportamentos, atitudes e políticas racistas.

A justificativa "mas eu não sou racista!" também permite que as pessoas evitem participar da luta antirracista. É uma maneira de dizer "isso não é problema meu", ao mesmo tempo que se isenta de reconhecer as vantagens colhidas de um sistema nocivo a outras pessoas. Além disso, uma pesquisa de 2019 conclui que pessoas que não se consideram racistas costumam ser muito mais preconceituosas do que imaginam e tendem a manter preconceitos implícitos significativos contra negros, indígenas e outras etnias.

No livro How to Be an Antiracist, Ibram X. Kendi, importante estudioso de raça e discriminação racial, examina muitas das atitudes individuais mantidas por brancos e não brancos que desempenham um papel na sustentação do racismo. É impossível, Kendi observa, ser “não racista” se você tiver atitudes negativas sobre grupos inteiros de pessoas com base em sua raça, etnia ou herança cultural. E acrescenta: “A única maneira de acabar com o racismo é identificá-lo e descrevê-lo de forma consistente para, então, desmantelá-lo”.

No contexto brasileiro, Djamila Ribeiro, autora do livro Pequeno manual antirracista (2019), sintetiza com precisão: “É preciso identificar os mitos que fundam as peculiaridades do sistema de opressão operado aqui, e certamente o da democracia racial é o mais conhecido e nocivo deles. (...) Essa visão paralisa a prática antirracista, pois romantiza as violências sofridas pela população negra ao escamotear a hierarquia racial com uma falsa ideia de harmonia”.

O que preciso fazer para apoiar a luta antirracista?

O antirracismo requer reflexão e ação. Ser antirracista é a escolha consciente de tomar um lado, defender uma posição e se envolver em ações que apoiem ​​a igualdade. Ficar em cima do muro não é, definitivamente, uma alternativa válida quando se pretende combater o racismo.

O primeiro passo é reconhecer que a questão racial se cruza com muitos outros aspectos da identidade de uma pessoa, incluindo orientação sexual, identidade de gênero, nacionalidade e deficiência. Nem todas as pessoas são afetadas pela cor ou etnia da mesma maneira. Mulheres negras, por exemplo, são atingidas tanto pela discriminação racial quanto pelo sexismo. Indígenas e negros costumam ser discriminados de maneiras diferentes de outras pessoas não brancas – e aqui entra também a questão do colorismo: quanto mais retinta é a pessoa negra, mais discriminação ela tende a sofrer.

Ouvir essas experiências e pensar sobre como as políticas afetam as pessoas de diversas formas são ferramentas que encorajam as pessoas a adotar uma postura antirracista. Participe de eventos que visam combater o racismo na sociedade brasileira, conheça os movimentos negros da sua região, reflita sobre a verdadeira razão do Dia da Consciência Negra no país (que, não, não deveria ser “Dia da Consciência Humana”). O racismo no Brasil pode e deve ser deixado para trás, como uma nódoa vergonhosa da nossa história. No entanto, transformações profundas dependem de esforços conjuntos no combate à discriminação racial. Confira cinco sugestões de atitudes antirracistas para adotar no seu dia a dia.

1. Leia autores negros

O primeiro passo para ser antirracista é entender o racismo – e ninguém melhor para falar do assunto do que autores que o vivenciam no cotidiano. Abdias do Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Audre Lorde, Angela Davis, bell hooks, Chimamanda Adichie, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro e Silvio de Almeida são nomes excelentes para começar.

É importante ressaltar que as mulheres aqui citadas abordam a questão racial em interseção com a condição de ser-mulher na sociedade; por isso, constituem leitura obrigatória para feministas.

2. Discuta o racismo

Converse com amigos e familiares sobre os efeitos do racismo. Identifique e acuse o racismo quando o vir. Postar seu apoio nas redes sociais pode ser útil, mas conversas reais com as pessoas em sua vida podem ser mais influentes e eficazes.

3. Fale com as crianças

Educação racial começa em casa. Puxe conversas sobre racismo com as crianças de seu convívio, educando-os para o respeito e a igualdade racial.

4. Cerque-se de pessoas não brancas

Ler livros e buscar informações é ótimo, mas procure incluir pessoas negras, indígenas e de outras etnias no seu círculo de amizades. Elas certamente têm muito a ensinar sobre a vida, perspectivas e formas de ver o mundo que, talvez, você ainda não conheça.

5. Reconheça privilégios

Se você é uma pessoa não racializada, o simples fato de sair na rua sem se preocupar em sofrer agressão policial já é um privilégio. Acesso a boas escolas? Privilégio. Pôde estudar exclusivamente na infância, sem ter de contribuir no sustento de casa? Privilégio. Infelizmente, direitos básicos em sociedades desiguais devem ser reconhecidos como vantagens sociais, para que possamos identificar os pontos de destaque no combate a injustiças. No Brasil, 56% das pessoas se autodeclaram negras; o que, então, explicaria a ausência dessas pessoas em espaços de poder? Reconhecer-se privilegiado é, também, um meio de tornar-se antirracista.



Veja também:

 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Saiba onde descartar seus resíduos

Encontre postos de reciclagem e doação mais próximos de você

Localização Minha localização
Não sabe seu CEP?

Newsletter

Receba nosso conteúdo em seu e-mail

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar pelo site você concorda com o uso dos mesmos. Saiba mais ×