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Promover a diversidade é um dos desafios do nosso tempo, mas é preciso transferi-la do discurso para a prática

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Diversidade, segundo o Greater Good Science Center, centro de estudos em psicologia, sociologia e neurociência da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, é um termo que se refere tanto a um fato óbvio da vida humana – ou seja, de que existem muitos tipos diferentes de pessoas –, como à ideia de que essa diversidade impulsiona a vitalidade e inovação cultural, econômica e social. De acordo com o dicionário Houaiss, é um substantivo feminino que se caracteriza como a “qualidade daquilo que é diverso, diferente, variado; conjunto variado; multiplicidade; desacordo, contradição, oposição”.

Tantas definições, contudo, ainda não são capazes de dar conta da abrangência do conceito, sobretudo num país de dimensões continentais como o Brasil, reconhecido mundialmente pela diversidade cultural, religiosa e étnica que abriga. Isso sem falar na diversidade ecossistêmica: nosso país é um dos mais ricos do mundo em biodiversidade, abrangendo uma variedade impressionante em termos de fauna, flora e biomas.

Na maior parte dos países ocidentais, incluindo o Brasil, a palavra “diversidade” está fortemente associada à diversidade racial. No entanto, essa é apenas uma dimensão da realidade humana, uma vez que as pessoas também diferem em gênero, idiomas, hábitos e cultura, papéis sociais, orientação sexual, educação, habilidades, renda e muitos outros fatores. Há ainda uma luta subjacente pelo reconhecimento social da “neurodiversidade”, que se refere à gama de diferenças nas funções cerebrais, como mostra um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva.

O processo de globalização e o fomento às discussões sobre representatividade e inclusão no século 21, bastante alavancado pelo surgimento de novos e diversos grupos ativistas, têm se refletido em questões práticas do dia a dia e em números que traduzem um esforço de empresas, universidades, governos e sociedade para incluir nos espaços todos os tipos de pessoas. Mas nem tudo são flores.

Algumas pesquisas mostram que diferenças podem tornar conexões genuínas entre as pessoas mais difíceis de serem estabelecidas. A empatia pela diversidade é uma habilidade social, que deve ser desenvolvida com intencionalidade, conhecimento e prática. Quando essa empatia não é incentivada, uma sociedade está sujeita a ser cenário de preconceito, intolerância e, em última instância, crimes de ódio. No entanto, ações eficazes envolvem muito mais do que boas intenções e alguma representatividade: elas exigem mudanças profundas nas estruturas sociais e de poder.

O que há de errado com a diversidade?

Sarah Mayorga, professora de Sociologia da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, estuda há duas décadas o que os norte-americanos, e mais especificamente os brancos, querem dizer com o termo “diversidade”. Para escrever o livro Behind the White Picket Fence: Power and Privilege in a Multiethnic Neighborhood (algo como “Por trás da cerca branca: poder e privilégio em um bairro multiétnico”), de 2014, ela passou um ano e meio entrevistando moradores de um bairro supostamente inclusivo em Durham, na Carolina do Norte. A conclusão foi que, da maneira como é encarada hoje no país, a diversidade é uma ideologia que permite que homens brancos se comprometam apenas superficialmente com a conquista da justiça social e, consequentemente, mantenham suas posições de poder diante de grupos marginalizados, sem a necessidade de uma reflexão ativa sobre o problema.

Segundo a pesquisadora, a ideologia da diversidade determina que as intenções, e não os resultados das políticas em prol da diversidade, são o que realmente importam. Para ela, tal ideologia não exige que indivíduos e instituições realizem ações específicas para promover a inclusão ou a equidade – e, desse modo, é ineficaz para romper as estruturas sociais vigentes que permitem manter pessoas à margem. Em 2017 e 2019, Mayorga publicou ainda mais dois estudos sobre o assunto: The New Principle-policy Gap: How Diversity Ideology Subverts Diversity Initiatives e The White-Centering Logic of Diversity Ideology, em que analisa como os quatro princípios da ideologia da diversidade (aceitação, mercadoria, intenção e responsabilidade) podem atrapalhar o reconhecimento da desigualdade estrutural, sem contribuir para transformações sistêmicas reais na hierarquia social.

Para Mayorga, as políticas de diversidade em voga não chegam à raiz do problema e mantêm uma lacuna sobre as razões pelas quais um grupo de pessoas, historicamente, foi acumulando benefícios e privilégios em detrimento de outros. De acordo com a pesquisadora, além das boas intenções, é preciso haver estudos sérios e propostas de ações de fato eficazes para promover a diversidade de baixo para cima.

Uma sugestão, segundo Mayorga, é se concentrar no antirracismo. Para ela, o antirracismo é um conceito útil, na medida em que identifica o racismo estrutural e quais medidas ativas devem ser tomadas contra ele. Além disso, a pesquisadora aponta a importância de pensarmos, individual e coletivamente, de que maneira estamos envolvidos na replicação de sistemas que excluem alguns e privilegiam outros. Para isso, serão necessárias definições mais precisas do termo e o envolvimento real de pessoas com vivências e pontos de vista diversos na formulação de políticas públicas para a diversidade, a fim de colocá-la, de fato, em prática.



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