Dessalinização da água: do mar ao copo

eCycle

Entenda como é feita a dessalinização, tecnologia que transforma água do mar em água potável e garante o abastecimento de milhões de pessoas no mundo

Copo d'água

A dessalinização é um processo físico-químico de tratamento de água que retira o excesso de sais mineirais, micro-organismos e outras partículas sólidas presentes na água salgada e na água salobra, com a finalidade de obter água potável para consumo.

A dessalinização da água pode ser realizada por meio de dois métodos convencionais: a destilação térmica ou a osmose reversa. A destilação térmica procura imitar o ciclo natural da chuva. Através de energia fóssil ou solar, a água em estado líquido é aquecida - o processo de evaporação transforma a água de estado líquido para gasoso e as partículas sólidas ficam retidas, enquanto o vapor d'água é captado pelo sistema de resfriamento. Ao ser submetido a temperaturas mais baixas, o vapor d'água se condensa, retornando ao estado líquido.

Já a osmose reversa procura fazer o processo contrário ao fenômeno natural da osmose. Na natureza, a osmose é o deslocamento de um fluído através de uma membrana semipermeável, no sentido do meio menos concentrado para o mais concentrado, buscando o equilíbrio entre os dois fluidos. A osmose reversa exige um sistema de bombeamento capaz de exercer pressão superior à encontrada na natureza, para vencer o sentido natural do fluxo. Dessa forma, a água salgada ou salobra, que é o meio mais concentrado, se desloca no sentido do menos concentrado. A membrana semipermeável permite somente a passagem de líquidos, retendo partículas sólidas, possibilitando a dessalinização da água do mar.

Aplicabilidade

A Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) publicou, em seu relatório sobre dessalinização e energias renováveis (Water Desalination Using Renewable Energy), que a dessalinização é a maior fonte de água para saciar a sede humana e irrigação no Oriente Médio, Norte da África e em algumas ilhas do Caribe. Segundo informação disponível no site da International Desalination Assossiation (IDA), mais de 300 milhões de pessoas são abastecidas diariamente por meio da dessalinização no mundo.

Existem pelo menos 150 países que usam o método de dessalinização para seu abastecimento regular, em especial os de regiões desérticas ou com dificuldades de abastecimento, como os do Oriente Médio e do norte da África. Um dos líderes nessa tecnologia é Israel, onde cerca de 80% da água potável consumida pela população é proveniente do mar.

A ONU levanta em seu relatório sobre água e energia que a dessalinização e o bombeamento da água dessalinizada traz melhorias para determinadas regiões, mas aponta a inviabilidade dessa tecnologia em áreas mais pobres, principalmente para o uso hídrico em larga escala, como na agricultura e em casos onde o local está muito distante da unidade de dessalinização. O principal empecilho é que tanto o processo dessalinização da água quanto o bombeamento para uma região muito distante requerem muita energia para operar, tornando o método não indicado para estas situações.

A Irena aponta que, além do alto custo energético do processo, a dessalinização da água geralmente utiliza energia fóssil como fonte, que não é sustentável, apresenta frequentes alterações de preço e é difícil de ser transportada. A organização também defende que a medida em que fontes de energia renovável forem se tornando mais baratas, estas devam ser aplicadas. A utilização da energia solar e a recuperação da energia a partir das águas residuais são alternativas indicadas tanto pela ONU quanto pela Irena para diminuir os custos da dessalinização. Outras fontes de energia apropriadas seriam a eólica e a geotérmica.

Outra questão associada às águas residuais da dessalinização é o fato de que elas podem impactar negativamente os ecossistemas marinhos ao serem despejadas diretamente no oceano. O Pacific Institute, um instituto independente de pesquisa da Califórnia, nos Estados Unidos, estudou os impactos causados pela dessalinização de água nas baías de São Francisco e de Monterey, ambas na Califórina.

Segundo o relatório Key Issues in Seawater Desalination in California: Marine Impacts, a água residual tem a concentração de sais muito superior à concentração natural encontrada na água do mar, e apresenta resíduos que são tóxicos para alguns seres marinhos, como aditivos químicos que são incorporados ao tratamento da água e metais pesados que são liberados de processos corrosivos que ocorrem dentro das tubulações. No caso das unidades que usam destilação térmica, ainda existe o problema adicional da água descartada estar em uma temperatura muito superior à da água do mar.

Através do desenvolvimento de novas tecnologias que reduzam o consumo de energia e minimizem impactos ambientais, a dessalinização poderia se tornar uma alternativa para questões relacionadas à escassez de água em todo o mundo, contribuindo para a melhoria na qualidade de vida de milhões de pessoas.


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