Triagem neonatal permite identificar doenças silenciosas nos primeiros dias de vida e iniciar o tratamento antes do surgimento de complicações
Por Simone Lemos – Jornal da USP | O Teste do Pezinho completou 50 anos como uma das principais estratégias de prevenção em saúde infantil. Desde sua criação, milhares de crianças tiveram doenças diagnosticadas precocemente e puderam receber tratamento antes do aparecimento de sequelas graves.
Tânia Bachega, professora associada da disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), destaca que o exame está entre os mais importantes realizados nos primeiros dias de vida do bebê. Segundo a especialista, o teste permite identificar doenças graves que não apresentam sinais visíveis ao nascimento, possibilitando diagnóstico e tratamento precoces.
Da implantação em São Paulo ao programa nacional
De acordo com a endocrinologista, o Teste do Pezinho foi introduzido no Brasil na década de 1970, em São Paulo, pelo médico Benjamin Schmidt, e rapidamente se expandiu para outras regiões do País. Esse processo culminou, em 2001, com a criação do Programa Nacional de Triagem Neonatal, responsável por ampliar e tornar mais equitativo o acesso ao exame em todo o território nacional.
A especialista ressalta que a cobertura do teste deve ser a mais ampla possível, idealmente próxima de 100%, para garantir que todos os recém-nascidos sejam avaliados. Ela lembra que as primeiras doenças incluídas no programa foram a fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito.
O momento certo para a coleta
A professora enfatiza que a coleta deve ser realizada preferencialmente entre o terceiro e o quinto dia de vida do bebê. Em municípios onde a alta hospitalar ocorre precocemente, muitas vezes cerca de 24 horas após o parto, os responsáveis devem procurar uma Unidade Básica de Saúde para realizar o exame dentro do prazo recomendado.
Segundo Tânia Bachega, a coleta muito precoce pode comprometer o diagnóstico de algumas doenças, especialmente da fenilcetonúria, gerando resultados falsamente negativos. Embora o exame possa ser realizado posteriormente, o atraso reduz o tempo disponível para iniciar o tratamento nos casos em que a doença é confirmada.
A endocrinologista destaca ainda que algumas situações exigem cuidados específicos. Bebês prematuros podem precisar repetir o exame devido à imaturidade de determinados sistemas do organismo. Já recém-nascidos submetidos à transfusão sanguínea devem seguir protocolos próprios de coleta para garantir a confiabilidade dos resultados.
Outro ponto importante é o fornecimento correto dos dados de contato pelos responsáveis ao deixarem a maternidade. Caso haja suspeita de alguma doença, a equipe de saúde precisa localizar rapidamente a família para confirmar o diagnóstico e iniciar o acompanhamento necessário.
Doenças que podem ser detectadas
Entre as condições identificadas pelo Teste do Pezinho está o hipotireoidismo congênito, doença que impede a produção adequada dos hormônios da tireoide, fundamentais para o desenvolvimento cerebral. Segundo a especialista, a condição afeta aproximadamente um a cada 2.500 a 3.500 recém-nascidos e pode causar deficiência intelectual grave quando não tratada precocemente.
No entanto, quando o diagnóstico é confirmado e o tratamento é iniciado antes dos 30 dias de vida, as consequências da doença podem ser totalmente evitadas.
Outra condição detectada pelo exame é a hiperplasia adrenal congênita, caracterizada pela produção insuficiente de cortisol pelas glândulas adrenais. Sem tratamento, a doença pode provocar desidratação grave e até levar à morte.
Avanço para a saúde infantil
A professora ressalta que os bebês com resultados alterados são encaminhados para confirmação diagnóstica, tratamento e acompanhamento por equipes multidisciplinares especializadas. Para ela, a ampliação do Teste do Pezinho pelo Sistema Único de Saúde (SUS) representa um importante avanço na prevenção de doenças e na promoção da saúde infantil no Brasil.
Tânia Bachega também destaca o lançamento do guia Teste do Pezinho: um gol de calcanhar, produzido pelo Centro Integrado de Doenças Genéticas e Raras da Faculdade de Medicina da USP (Cigen-FMUSP), com informações destinadas a pais, responsáveis e profissionais de saúde.
Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.