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Por Elizabeth A. F. S. Torres, professora da Faculdade de Saúde Pública, e outros autores*

Por Elizabeth A. F. S. Torres, Geni Sampaio, Leonardo Negrão, Cintia Pereira em Jornal da USP Segundo definição da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), saúde mental é um “estado de bem-estar em que o indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e é capaz de contribuir para sua comunidade”.

Os transtornos mentais são um problema de saúde pública que não deve ser negligenciado. O impacto econômico gerado por gastos em saúde mental destaca a depressão como um dos principais na saúde pública até 2030, pois compromete a saúde e a qualidade de vida do indivíduo, além do aumento da mortalidade. Foi estimado um gasto de US$ 2,5 trilhões no mundo em 2010, com previsão de aumentar para até US$ 6 trilhões em 2030 – desses gastos 10,3% são destinados a transtornos mentais, com a depressão sendo um dos principais.

Apesar dos avanços científicos, o tratamento convencional da depressão é eficaz apenas em um em cada três casos. Além disso, a condição é frequentemente recorrente, com recidiva aparente em 50% dos casos. Nesse contexto, identificar fatores de risco modificáveis ​​para orientar estratégias de intervenção tanto para prevenir quanto para diminuir sua gravidade parece ter seu valor. Dentre estes fatores de risco modificáveis destacamos a alimentação.

As propriedades dos alimentos podem ter efeitos no aumento e/ou redução dos sintomas depressivos, como, por exemplo, uma dieta com menor índice inflamatório (maior quantidade de alimentos anti-inflamatórios) pode estar associada à melhora dos sintomas depressivos. Os sintomas depressivos podem ser mais presentes e/ou agravados devido à deficiência de nutrientes como a cobalamina (vitamina B12), o ferro (comum em vegetarianos sem ajuste da dieta) e proteínas. Por outro lado, uma dieta rica em nutrientes, como os carotenoides, ou adequada em selênio pode melhorar os sintomas depressivos.

Os pesquisadores LaChance e Ramsey realizaram uma revisão sistemática para identificar na literatura quais alimentos e nutrientes desempenhavam papel na prevenção e promoção da recuperação de transtornos depressivos. Trinta e quatro nutrientes foram analisados segundo grau de evidência científica para serem qualificados como antidepressivos. Em seguida, foi atribuído um escore Antidepressive Food Score (AFS) para os alimentos do banco de dados do U.S. Department of Agriculture (USDA). Os resultados demonstraram que 12 nutrientes estão relacionados à prevenção e controle de transtornos depressivos: ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA), ferro, magnésio, potássio, selênio, zinco, vitaminas do complexo B, vitamina A e vitamina C. Entre os alimentos que apresentaram a pontuação mais alta destacam-se: as ostras e mexilhões, frutos do mar, carnes e alimentos de origem animal, alface, pimentão e vegetais crucíferos. Além disso, neste estudo os autores realizaram um escore das principais fontes alimentícias que desempenham um papel na prevenção e promoção da recuperação em transtornos depressivos. Nesse escore apresentado destacam-se os alimentos de origem vegetal representando 86% do total (hortaliças, frutas, legumes, grãos, nozes, castanhas e sementes), indicando que um padrão alimentar rico em vegetais pode promover a saúde mental.

A dieta MIND – Mediterranean-DASH Intervention for Neurodegenerative Delay surgiu do desenvolvimento de uma associação entre a dieta DASH e a dieta mediterrânea. A dieta orienta o consumo de pelo menos três porções de grãos integrais, uma salada e um outro vegetal diariamente – junto com um copo de vinho. Os lanches devem incluir frequentemente frutas oleaginosas, como nozes, castanhas e amêndoas; leguminosas diariamente ou a cada dois dias, aves e frutas vermelhas e arroxeadas pelo menos duas vezes por semana e peixe pelo menos uma vez por semana. Há limitação para o consumo de manteiga (menos de 1 colher de sopa por dia), queijo, frituras ou fast foods (menos do que uma porção por semana para qualquer um dos três), para redução dos efeitos da doença de Alzheimer.

Segundo uma análise investigativa de uma coorte realizada por Ujué Fresán e colaboradores com 15.980 participantes, publicada no European Journal of Nutrition, o aumento da adesão à dieta MIND reduziu o risco de depressão, mas não foi estatisticamente significativo, diferente da dieta do mediterrâneo (p<0,01). Por outro lado, os autores destacaram que o consumo moderado de castanhas na dieta MIND foi inversamente associado a incidência de depressão, e que o aumento da adesão tanto à dieta MIND quanto à do mediterrâneo de baixo para moderado pode reduzir o risco de depressão. Desse modo, acredita-se que os componentes da diet MIND (frutas, vegetais e oleaginosas/castanhas) apresentam potencial na redução de risco de depressão, visto que a relação inversa do consumo de alimentos vegetais e o risco de depressão já é conhecida.

Polifenóis são compostos bioativos sem função de nutriente, que têm sido investigados quanto ao seu papel na prevenção e controle dos transtornos mentais devido às suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Kelly Lin e outros pesquisadores realizaram revisão sistemática para investigar a eficácia da suplementação de polifenóis na melhora da depressão, ansiedade e qualidade de vida (QV). Foram incluídos 19 estudos com 1.523 participantes; 18 estudos (n = 1.523) foram incluídos na meta-análise de depressão, destes, 12 apresentaram melhorias na depressão e redução significativa da pontuação de depressão em comparação ao controle (MD: -2,280, IC 95%: -1,759, -0,133, I2 = 99,465) com o consumo de polifenóis.

Estes dados sugerem que esses compostos podem ser utilizados como adjuvantes na prevenção e controle da depressão. Nas análises de subgrupos, a isoflavona foi o polifenol mais eficiente. Além disso, doses menores que 300 mg, período de suplementação superior a três meses também apresentaram melhores resultados.

Embora o Brasil apresente uma ampla biodiversidade, o consumo de alimentos fontes de polifenóis ainda é baixo. E esse baixo consumo está relacionado com fatores socioeconômicos. Carnaúba et al. (2021) investigaram a relação entre o consumo de compostos bioativos de acordo com o nível de renda da população brasileira. Os dados foram obtidos da Pesquisa de Orçamentos Familiares Brasileiros. O café foi a principal fonte para a ingestão total de polifenóis e ácidos fenólicos, e o suco de laranja foi o principal fornecedor de flavonoides em indivíduos de todos os níveis de renda.

Portanto, foi demonstrado que há uma influência importante do nível de renda na qualidade da dieta em relação à ingestão de alimentos com compostos bioativos e indivíduos com menor renda podem experimentar dietas de qualidade inferior devido à menor disponibilidade de alimentos com compostos bioativos e consequentemente apresentam maior risco de transtornos mentais.

Ademais, a prevenção e/ou controle dos sintomas depressivos por meio da alimentação adequada proporcionaria a mitigação do ônus econômico e social associado à saúde mental, efetivamente refletindo na preservação do bem-estar e qualidade de vida da população. Por isso, é essencial identificar um padrão alimentar saudável, observando quais compostos bioativos, com ou sem função de nutrientes, presentes nos alimentos, podem exercer um papel protetor da saúde mental, a fim de reduzir a incidência desses transtornos na população.

* Cintia Pereira da Silva, doutora pela FSP/USP, Lara C. Natacci Cunha, pós-doutoranda na FSP/USP, Leonardo Negrão, doutorando na FSP/USP, e Geni R. Sampaio, doutora pela FSP/USP