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Ao lidar com as mortes de parentes próximos por covid-19, povos indígenas de diferentes locais do Brasil precisam encarar as limitações da pandemia e se reinventar diante das restrições impostas pela doença.

  • Rituais tradicionais importantes para a experiência e a cosmogonia desses povos foram afetados, em especial os rituais funerários.
  • A imposição de protocolos, sem diálogo franco e aberto, fere a autonomia dos indígenas e a sua ancestralidade; o resultado do descaso do poder público é a proliferação de covid-19 e de mortes nas aldeias.
  • Nesta reportagem especial, ouvimos lideranças para saber como os indígenas Yawalapiti, do Xingu; os Xavante, do Mato Grosso; os Yanomami, de Roraima; os Tupinambá, da Bahia; os Guarani Mbya, de São Paulo; e os Tukano, do Amazonas, estão lidando com essa nova realidade.

“O corpo chegou. Nós vamos morrer!”. Isso foi o que Watatakalu Yawalapiti ouviu dos seus parentes por telefone após a morte de um tio por covid-19, em junho de 2020. Foi um dos primeiros casos fatais no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, uma das mais icônicas terras indígenas brasileiras.

Watatakalu Yawalapiti, 40 anos, é uma das lideranças do seu povo. Nascida e criada no Xingu, fala cinco línguas indígenas diferentes. É sobrinha do Cacique Aritana, histórica liderança dos indígenas, que faleceu em agosto de 2020 por covid.

Aritana, referência para os 16 povos diferentes que habitam o Xingu, faz parte de uma geração de líderes que foram duramente afetados pela covid. Bibliotecas ambulantes, detentores de um conhecimento ancestral e único que viveram e sobreviveram a inúmeras epidemias, invasões e ameaças em suas décadas de construção da luta indígena. Watatakalu ainda não fala o nome do tio cacique em respeito, por estar vivenciando o luto.

Mas conta orgulhosa sobre a sua linhagem. Hoje, o Xingu é uma ilha de preservação da floresta cercada por desmatamento por todos os lados. Artesã, Watatakalu Yawalapiti é coordenadora do Departamento de Mulheres da Associação TI do Xingu (Atix). Filha mais velha da sua família, ela me conta como os xinguanos precisaram encarar a morte e penaram para se adequar a uma nova realidade que chegou sem pedir licença.

“A pandemia mostrou para a gente que cuidar das mulheres é cuidar dos maridos, filhos, irmãos, avôs, pais dessas mulheres. Não tem como separar, são as mulheres que administram as nossas aldeias”, ressalta Watatakalu.

Não foi sem discordâncias que a covid atingiu a aldeia de 300 pessoas no Alto Xingu em que Watatakalu vive. Tentando se fechar, a exemplo do que fizeram outros povos indígenas, os Yawalapiti conseguiram evitar a propagação da covid até junho de 2020.

Tudo mudou quando um outro tio adoeceu em uma cidade próxima, Canarana, e faleceu. Tradicionalmente, o enterro é feito na própria aldeia. As restrições da pandemia, porém, recomendam o isolamento total, o não contato com o corpo da pessoa morta e um enterro à distância.

A tradição indígena se chocou com a má gestão brasileira da pior pandemia em cem anos. Em todo o Brasil, são mais de 55 mil casos de covid-19 confirmados entre os povos indígenas, com 1.121 mortos – incluindo importantes lideranças – e 163 povos afetados (dados de 22 de junho).

Enquanto a família discutia o que fazer, se o enterro seria feito na cidade ou na aldeia, dois irmãos mais novos resolveram que o corpo seria levado para a aldeia e contaram com o apoio de um avião da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), ligada ao Ministério da Saúde.

“Eu liguei para as minhas primas e elas me disseram: já foi, já está voando. Eu pensei: como assim? Houve um desespero muito grande. Ele foi enterrado na aldeia. A partir do momento em que chegou o avião, contaminou o polo e a aldeia inteira”, relata. Para Watatakalu, isso foi “uma irresponsabilidade muito grande por parte da Sesai”.

Procurada para comentar o episódio e a assistência dada aos indígenas, a Sesai negou o ocorrido. De acordo com o Ministério da Saúde, “não procede a informação de que a covid-19 tenha entrado no território do Alto Xingu por meio do traslado de corpo de indígena falecido”.  Para a Sesai, “todos os funerais realizados respeitaram os protocolos de manejo de corpos previstos pela pasta”.

A Sesai afirma que “atua em permanente contato” com os Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi), que também participaram da elaboração dos Planos Distritais de Contigência para Infecção Humana pelo Novo Coronavírus.

Segundo o Ministério da Saúde, o “sepultamento e traslado de corpos passam por todos os procedimentos legais”, para atender ao protocolo adotado em casos confirmados ou suspeitos de covid -19”, prevista por uma portaria de março de 2020 do Conselho Nacional de Justiça.

Não é o que o relato de Watatakalu revela.

Conta a liderança indígena que, a partir do contato com o corpo, 290 pessoas de uma aldeia onde vivem 300 indígenas se contaminaram com a covid ao longo do tempo. Quase todo mundo. Dezenas de pessoas morreram no Xingu.

Watatakalu perdeu esse tio, irmão mais novo de Aritana. Perdeu o tio cacique Aritana. Perdeu uma prima. Perdeu uma tia-avó. E perdeu recentemente a mãe, a pajé Yamoni Mehinaku.

A sua aldeia, lembra, vive em círculo. O que acontece com um costuma afetar a todos. A irmã de Watatakalu ficou internada dois meses com covid e quase morreu. “Acho que a sua irmã vai morrer hoje. Essa é a mensagem que eu recebia dos meus parentes. Porque a minha irmã ficou com mais de 75% do pulmão comprometido. Era muito desesperador”.

Envoltos em uma espiral de medo, os indígenas do Alto Xingu enterraram todos os mortos na própria aldeia. No início, evitaram os preparativos tradicionais, que incluem a manipulação do corpo e a pintura corporal. No fim, com todos contaminados, acabaram prestando as homenagens devidas de acordo com a tradição.

Desrespeito às tradições

Outro agravante é a ausência do poder público e a dificuldade em definir protocolos aceitáveis que respeitem as tradições indígenas. Faltou diálogo, analisa o antropólogo Antonio Guerreiro, que trabalha com os indígenas há anos no Xingu.

O Ministério da Saúde simplesmente impôs que mortos pela covid-19 fossem enterrados com caixão lacrado ou cremados, sem velório demorado ou aglomeração, para evitar a disseminação. Uma regra geral que não respeita as particularidades indígenas.

“Houve muita dificuldade em pactuar procedimentos sanitários adequados que levassem em consideração a necessidade dos indígenas em poder cuidar desses corpos com a dignidade que eles merecem”, diz Guerreiro.

Para o MPF, o protocolo do Ministério da Saúde “não tratou das especificidades dos povos tradicionais e deixou de trazer previsões aptas a garantir que o enterro de seus membros seja realizado com base em seus costumes e tradições”. Impedir que os indígenas exerçam esse direito “é uma maneira de violentá-los e de privá-los de sua forma de se despedir de seus entes queridos, o que é vedado pela Constituição da República e pelas normas internacionais de Direitos Humanos”.

Ainda assim, tratar os seus mortos segundo usos e costumes tradicionais continua a ser fonte de debates, divisões e conflitos. “No fim, cada povo do Xingu decidiu seu próprio protocolo. Alguns não conseguiram definir nenhum método. Então decidiram fazer como acharam melhor dentro do que consideraram possível”, afirma o antropólogo Antonio Guerreiro.

Ritual do Kuarup teve de ser suspenso

O Kuarup talvez seja o ritual indígena mais famoso no Brasil. Celebrado em homenagem aos mortos ilustres celebrados pelos povos do Xingu, o ritual acabou sendo suspenso pela maioria dos povos do Xingu em 2020, em função da pandemia. Alguns, como os Kalapalo, insistiram em fazê-lo, mas acabaram com uma versão reduzida dessa grande festa que leva meses de preparação e reúne representantes de todas as aldeias do Xingu.

O rito envolve a figura de Mawutzinin, o demiurgo e primeiro homem do mundo na mitologia xinguana. Troncos de madeira representam cada homenageado. Em torno deles, a família faz uma homenagem aos mortos, passando a noite acordados, chorando e rezando pelos que se foram.

Todo corpo é limpo, preparado e pintado com motivos tradicionais. Cada pessoa é enterrada em um ponto específico da aldeia de acordo com a sua idade e importância social. Os chefes são enterrados no centro da aldeia. Tudo é normalmente realizado por parentes.

A duração do luto também varia. É um processo complexo que pode durar um longo ciclo que começa com a morte e termina no Kuarup. A separação da alma do corpo leva tempo. A ligação de saudade entre a pessoa que se vai e as que ficam precisa ser desfeita para que cada um siga o seu destino. O Kuarup celebra esse ciclo. A passagem final.

No passado, o Kuarup era feito de acordo com a necessidade. Hoje, ocorre anualmente ou até em mais de uma edição por ano. Nos anos 90, por exemplo, não era assim, relata Watatakalu. “Desde que eu nasci até os meus 10 anos, só vi um Kuarup acontecer na minha aldeia. Hoje em dia são vários por ano. Eu nunca vi tantos Kuarups.”

Embora respeite as diferenças, Watatakalu diz que prefere manter as tradições. “Essas coisas têm mudado, foge das nossas regras. A cultura sempre está mudando, mas eu sou do tipo que quer manter o original”, diz.

No caso da aldeia em que ela vive, o Kuarup da sua avó previsto para 2020 foi adiado para este ano para não ter aglomeração. Outros mantiveram o rito.

“Para mim, não era momento de festa. Para a família não é festa. Não era o momento de celebração, renovação, não era. Era de recolhimento, proteção. Quem fez, não fez um Kuarup normal. É preciso ter todas as etnias reunidas. Não dá para fazer apenas entre as pessoas da sua aldeia”, relata Watatakalu.

Ao mesmo tempo, o Kuarup vem também sofrendo influência do turismo feito pelos brancos, que chegam a comprar “pacotes” de visitação. Mesmo com a pandemia no Brasil ainda longe do fim, já há pacotes turísticos sendo vendidos para Kuarups no Xingu em julho. Viver o luto, uma particularidade de cada um, acaba não sendo respeitado.

“Kuarup é trabalho. É muito caro. O anfitrião arca com tudo, com o transporte dos convidados, a alimentação, é uma dedicação de 6 meses, muito cansativo”, conta Watatakalu. “Antigamente era de dois em dois anos ou até mais. Hoje em dia acontece sempre. É influência da cultura de fora, o turismo é muito forte. Meu pai dizia: o papel dos brancos é muito poderoso, o dinheiro é um veneno que vai contaminar nosso povo um dia. E você vai ver aquilo que não é normal acontecer. Realmente, tudo isso está acontecendo.”

O antropólogo Antonio Guerreiro concorda que, de fato, a temporalidade mudou. “Houve um processo de intensificação de festas por influência externa. Hoje há muito interesse político, midiático, de personalidades”, afirma, mas que ao mesmo tempo ter que cancelar o Kuarup em 2020 não foi um processo “tranquilo” para os indígenas.

“O grande problema, falando do ponto de vista das pessoas com quem eu conversei, é manter as pessoas em luto. Enquanto você não faz o ritual, a família permanece enlutada”, relata.

Em 2021, os indígenas estão divididos em relação ao Kuarup. Enquanto alguns povos do Xingu tentam se programar para realizar o Kuarup, outros mantém o ritual suspenso.

Indígenas “urbanos” ainda não foram vacinados 

A maioria dos indígenas do Xingu já foi vacinada: 84% da população com mais de 18 anos já recebeu as duas doses. Mas quem fica entre a aldeia e a cidade ainda não foi vacinado, outra briga recorrente com a Sesai, que excluiu da vacinação os indígenas considerados “urbanos”.

Esta divisão entre “urbanos” e “aldeados” resultou em altíssima subnotificação de casos e mortes – cerca de 50% abaixo da realidade – e, claro, menos vacinas. A disputa foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil exigindo que o plano do governo federal mude.

Além da negligência da Sesai, que, segundo Watatakalu, prestou apoio somente de profissionais de saúde regulares, o grande apoio mesmo veio de parceiros como ONGs e entidades indígenas. A Funai se limitou a distribuir cestas básicas. “A Funai é a mais ausente nas nossas vidas”, critica.

Procurada, a Funai se eximiu de qualquer articulação com a Sesai em relação aos atendimentos de saúde e o suporte oferecido ou não. Sobre a atuação durante a pandemia, de acordo com a Fundação Nacional do Índio, a instituição distribuiu quase 650 mil cestas básicas entregues a mais de 200 mil famílias indígenas em todo o país.

A Funai também alega ter investido cerca de R$ 17,2 milhões em ações de fiscalização em Terras Indígenas de todo o Brasil. Desde janeiro de 2020, a Fundação apoiou cerca de 1.200 ações de proteção territorial em 351 TIs. Mais de 500 ações foram voltadas ao enfrentamento da pandemia, diz a Funai.

Além disso, a Funai apoiou a instalação de mais de 300 barreiras sanitárias e postos de controle de acesso em todo o território nacional e suspendeu, ainda em março de 2020, as autorizações para ingresso em TIs, com exceção dos serviços essenciais. Por fim, a Funai alega ter desembolsado cerca de R$ 30 milhões em ações que “visam a autossuficiência das comunidades”, como a aquisição de materiais de pesca, sementes, mudas, insumos, ferramentas e maquinários agrícolas.

No Mato Grosso, Xavantes enfrentam covid e agronegócio

Essa política de “etnodesenvolvimento” da Funai, que inclui o apoio financeiro, logístico e institucional para indígenas que querem se aliar ao agronegócio, enfrenta resistência da maioria dos líderes e tem ligação direta com a pandemia, as mortes causadas e o embate de culturas tradicionais que se veem ameaçadas com essas ações.

É o caso do Mato Grosso, estado que é o maior produtor de soja do Brasil. Na TI Sangradouro, que vive realidade diferente da do Xingu, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, ao lado de deputados ruralistas que tem atuado para o desmonte ambiental no Brasil e grandes produtores de soja, se reuniu com lideranças indígenas no meio da pandemia e celebrou o cultivo de soja dentro de área indígena, o que atualmente é proibido.

Hiparidi Xavante, liderança que mora na TI Sangradouro, reserva que fica às margens da BR-070 e próxima a Primavera do Leste, um dos municípios campões em produção de soja, relata que a desorientação durante a pandemia foi total e isso contribuiu diretamente para a morte de muitos anciãos.

“Desde o início da pandemia o governo não se preocupou mesmo sabendo que a doença estava chegando. Não tivemos qualquer orientação. Perdemos muitos velhos, muitas mulheres ficaram sem maridos, muita gente ficou sem pai e isso afeta a transmissão de conhecimento para as novas gerações. No meu entender, essa política foi proposital”, diz Hiparidi, acusando o governo federal de genocídio deliberado.

Marcelo Xavier, ao lado de Jair Bostonaro, tem se dedicado pessoalmente a influenciar indígenas a adotar a mineração e o agronegócio em suas terras.

O contexto da pandemia não alterou em nada o fluxo de pessoas entrando e saindo da TI Sangradouro, especialmente pela proximidade da rodovia, incluindo invasão de terras. A liderança Xavante questiona duramente as alegadas “parcerias” de sojeiros com indígenas a favor do agronegócio e a participação do presidente da Funai e de políticos dentro do território. Segundo Hiparidi, nunca houve consulta prévia, violando os direitos indígenas.

“A minha aldeia e outras aldeias nunca foram consultadas. Durante a pandemia, mesmo com a Funai alegando que fez barreiras, na prática entrou muita gente. Isso contribuiu bastante para contaminar nosso povo, morreu mais gente. Teve políticos fazendo campanha. E o pior de tudo é o arrendamento de terra dentro dos nossos territórios, mesmo na pandemia, com gente morrendo”, cobra Hiparidi.

Segundo ele, esses eventos, como “inauguração de colheitas”, serviram para intimidar os indígenas. Quem é contra o agronegócio fica acuado. Para Hiparidi, a plantação de soja dentro de terras indígenas viola os direitos conquistados na Constituição de 1988 e serve de alerta para os indígenas que não estão se dando conta dos riscos que isso representa.

“Isso é uma ilusão que foi implantada pelos ruralistas. Caímos nessa estratégia desde a invasão do Brasil. Poucas pessoas enriquecem com isso. Na pandemia, nenhum protocolo foi respeitado. Os ruralistas estão jogando agrotóxico nos nossos rios, envenenando nossas crianças e nossa comida. É um genocídio”.

Mais de 70 indígenas Xavante morreram com a covid-19. Os números reais, contudo, são maiores, diz Hiparidi. As lideranças orientaram os indígenas a não realizar os rituais funerários tradicionais para evitar aglomeração. Mas muitos têm resistido. Boa parte acabou fazendo e outra não, conta Hiparidi.

No ritual tradicional Xavante, a família se reúne dentro de casa e convida famílias amigas para um choro coletivo que vela o morto. Depois de 15 dias a família se reúne novamente para um novo choro coletivo. Pessoas em posição de liderança no estrato social Xavante recebem uma espécie de cruz, que é colocada sobre o local do enterro, um tipo de cemitério indígena.

Todos participam pintados com motivos tradicionais e muitos atualmente dedicam também mercadorias à pessoa morta. “É uma tradição milenar nossa. Os Xavante precisam se despedir adequadamente dos espíritos que se foram”, diz Hiparidi.

Diante do cenário, a vacinação anda a passos lentos. E os indígenas têm se organizado tanto para tentar manter seus rituais como para apurar denúncias de possíveis desvios de vacinas, o que prejudica ainda mais quem já foi duramente afetado pela pandemia.

Em Roraima, Yanomami lutam na justiça pelo direito de velar seus mortos

Atacados sistematicamente pelos mais de 20 mil garimpeiros que ocupam ilegalmente o seu território, a maior TI do Brasil, os Yanomami tiveram que lidar ainda cedo com as consequências da pandemia.

morte de 3 bebês por coronavírus em junho de 2020 e o enterro em um cemitério comum de Boa Vista revoltou os indígenas. Na tradição Yanomami, isso é inadmissível, explica Dario Kopenawa, um dos principais líderes do seu povo.

“Quando crianças morrem, não enterramos no chão porque é falta de respeito. Nossa cultura é muito diferente do que é a cultura do branco. Isso machucou bastante o povo Yanomami”, afirma Dario Kopenawa.

Normalmente, a família se despede do parente morto com seus rituais tradicionais – um choro coletivo na aldeia e o corpo cremado. Obrigados a respeitar o protocolo da sociedade não-indígena, os Yanomami lutam até hoje na justiça pelo direito de se despedir dignamente dos seus mortos como a tradição pede.

“Isso foi muito chocante para a gente. Não se despedir, não fazer o funeral. Isso é totalmente fora da nossa realidade. A pandemia apagou isso”, lamenta Dario.

De acordo com a visão Yanomami, o Criador não permite que as pessoas sejam enterradas, é preciso cremar. “Isso não pode acontecer, é uma falta de respeito enorme. Somos povos diferentes, temos uma cultura diferente, tradicional, e nossos direitos precisam ser respeitados. Independente do tempo que levar vamos resgatar os corpos e levar para a aldeia”, diz Dario Kopenawa.

A pandemia levou a vida de dezenas de Yanomami e os casos de covid-19 superam 1.300.

O antropólogo Bruce Albert, que trabalha há anos com os Yanomami, ressalta. “Dispor de um defunto sem rituais funerários tradicionais constitui, para os Yanomami, como para qualquer outro povo, um ato inumano e, portanto, infame.”

Baseados nas pesquisas históricas de Albert e nas consequências da pandemia entre os Yanomami, os antropólogos Carlos Estellita-Lins e Marcelo Moura Silva produziram o primeiro artigo sobre essa delicada questão. Nele explicam, em resumo, como é o ritual funerário Yanomami.

Entre os Yanomami, os procedimentos para lidar com o corpo morto consistem em embrulhar o cadáver em palhas e içá-lo em uma estrutura posta alta nas árvores da floresta. Permanecerá em processo de putrefação, que objetiva separar a carne dos ossos. Os ossos, então, serão calcinados numa pira funerária junto aos pertences do morto, pulverizados e transformados em cinzas que serão condicionadas em cabaças.

Estas, então, são seladas e só voltarão a ser abertas no momento de fazer “desaparecer as cinzas” (poraximu). É o momento da realização do ritual propriamente dito, o reahu, em que se chora o morto junto aos corresidentes e visitantes. As cinzas serão, então, enterradas ou diluídas em mingau de banana para serem consumidas no ritual.

“O reahu é algo de importância vital para os vivos”, afirmam os pesquisadores, já que são os vivos que “administram as fronteiras e as dinâmicas de distanciamento e aproximação entre vivos e mortos, parentes e afins, aliados e inimigos ao trabalharem o luto chorando, coletivamente, as relações do morto em vida.”

Mas, como relatam o antropólogos, o reahu é, também, “fundamental para os mortos que podem, enfim, percorrer a trilha final para a vida póstuma. Os Yanomami contam que, na morte, os componentes imateriais da pessoa se desprendem do corpo para se transformarem nos pore, almas-fantasmas dos mortos cujo destino, após a vida, é uma aldeia na floresta acima das costas do céu.”

Para Estellita-Lins e Silva, “é preciso, urgentemente, reconhecer a particularidade das experiências indígenas” no contexto da pandemia. “Pois há um abismo insuportável entre a imposição de adaptações biosseguras e a violência de impedir totalmente o cuidado apropriado para com os mortos e o trabalho de luto para os vivos”, concluem.

Enquanto isso, apesar das reuniões com o governo federal ao longo de 2020, da campanha internacional feita, das denúncias registradas para a Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, o garimpo continua a levar a covid para dentro das aldeias e ameaçar a vida indígena, diz Dario Kopenawa.

“O governo federal não tem resposta para a gente. A situação está piorando. Não mudou nada. Estamos na luta para expulsar os garimpeiros que estão destruindo a mãe terra”, relata o líder indígena.

Na Bahia e em São Paulo: experiências distintas e semelhantes

No litoral do Brasil, dois povos que vivem às margens do Oceano Atlântico, em duas áreas que foram uma das primeiras a ser ocupadas pelos colonizadores, na Bahia e em São Paulo, vivem experiências distintas em relação a pandemia.

Rosilene Tupinambá é liderança indígena e conselheira de saúde que vive em Ilhéus (BA), na TI Tupinambá de Olivença. Os primeiros casos de covid surgiram dentro da TI após um indígena ficar internado em um hospital.

A partir daí a covid-19 se alastrou e causou mortes, conta Rosilene. Sem contar com o apoio efetivo do governo federal, os Tupinambá se organizaram por conta própria tanto para criar barreiras sanitárias quanto para garantir a autossuficiência alimentar. Problemas crônicos, como o saneamento básico e o abastecimento de água, que é atribuição da Sesai, se tornaram ainda mais críticos em um contexto de pandemia.

“A nossa preocupação maior era porque as lideranças corriam risco e as infecções dentro das aldeias aumentaram muito. Então precisamos nos organizar por conta própria, com parceiros locais, para tentar conter o vírus”, relata Rosilene Tupinambá.

Por se tratar de área turística, com rodovias e fluxo intenso de pessoas, o controle foi prejudicado, afirma. “Mas os nossos anciões nos ajudaram muito, especialmente com o conhecimento de manipulação das plantas”, conta.

No fim, a experiência dos Tupinambá em recorrer às ervas medicinais e o conhecimento ancestral indígena para combater e prevenir a covid coincide com o que foi feito pelos Guarani Mbya em São Paulo.

Cristine Takuá é uma liderança Guarani Mbya que vive na Terra Indígena Ribeirão Silveira, entre as cidades de Bertioga e São Sebastião, em São Paulo. Cristine conta que o principal método de enfrentamento que os Guarani Mbya adotaram na sua região foi o fortalecimento da medicina tradicional.

As orientações vieram em forma de sonho para o seu marido, Carlos Papa, um líder espiritual da comunidade. “Logo no início da pandemia ele sonhou com um ancião que já faleceu há muito tempo. E esse ancião falava para ele qual planta ele deveria usar caso um mal muito grande se aproximasse da comunidade”, relata.

Indo até a floresta pesquisar essas plantas, o remédio começou a ser feito e foi usado de forma preventiva.  “Todas as pessoas que tiveram os primeiros casos foram tratadas com essas plantas que ele sonhou. E ninguém teve o agravamento da doença. Todos ficaram aqui na aldeia, cumprindo isolamento, tomando os chás de forma preventiva”, diz Cristine.

Além disso, os Mbya articularam diversas conversas com agentes de saúde, professores e figuras importantes na comunidade para articular a entrada e saída de pessoas, restringindo ao máximo a circulação.

“Nós colocamos esse conhecimento ancestral, tão primoroso e valioso, na prática. E estamos construindo no dia a dia as nossas estratégias de sobrevivência”, conta Cristine Takuá.

Nenhum caso grave foi registrado na comunidade. E os Guarani Mbya conseguiram vencer a covid-19.

No Amazonas, jovens do povo Tukano buscam resgatar a tradição

Terra Indígena Alto Rio Negro está encravada no noroeste do Amazonas, entre a fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, pelo formato no mapa.

É uma das mais populosas terras indígenas do país, com mais de 26 mil pessoas de 23 etnias diferentes. É lá que nasceu Francisco Sarmento Tukano, que deixou sua região para estudar e hoje, após se tornar mestre, está finalizando o seu doutorado em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB).

A pandemia atravessou a tese de Francisco, que passou um ano em sua terra natal, mas foi impedido de conversar com os anciãos e anciãs, fundamentais para a sua pesquisa. “Muitos, inclusive, acabaram morrendo. São saberes que se perdem para sempre. Este tempo está muito difícil para nós”, relata Francisco Tukano.

Já enfrentando duramente as questões climáticas, seu povo, assim como outros da região, está espalhado por diversas aldeias, rios e comunidades. “E a pandemia veio de todos os lugares. Da capital, Manaus. De invasores. Mesmo se retirando para locais mais afastados dentro do mato, não foi possível evitar. A covid-19 abateu não só o povo Tukano como vários outros”, conta.

Em uma região em que a maioria da população é indígena, cerca de 90% dos habitantes, também não houve registros detalhados sobre quais etnias foram afetadas, de quais aldeias. Um levantamento negligenciado pelo poder público que ficou a cargo de organizações indígenas como a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e a Apib.

Francisco explica que o seu povo é mais um que sofreu a influência de missões salesianas católicas no passado e hoje de igrejas evangélicas. Ainda assim, a busca por preservar as tradições permanece.

Os rituais envolvem a preparação do corpo, que é mantido dentro de uma canoa. Nela, são colocados pertences pessoais e objetos como flechas e plumagens. Depois a pessoa é enterrada dentro de casa. Um xamã comanda a cerimônia, que envolve o uso de fumo. O objetivo é que o morto se despeça adequadamente deste mundo e retorne para o local de onde veio, dentro da cosmogonia Tukano.

Hoje, no entanto, é comum que a pessoa não seja enterrada nesse caixão-canoa e dentro de casa, mas em um cemitério padrão, por influência dos religiosos cristãos. Com a covid, além das pressões externas, a doença em si ameaça o cotidiano indígena, que é de compartilhar a comida, os utensílios e os momentos em geral.

Da vida em comunidade até o enterro, a covid muda tudo. “Para nós é muito difícil essa questão. Tentamos manter um distanciamento mínimo e realizar os nossos rituais com o máximo de segurança. Mas a realidade é bem complicada”, relata Francisco Tukano.

No caso dos Tukano, segundo ele, o mais duro é a despedida. A mulher não poder abraçar o marido, o filho não pode chorar a perda do pai. Os rituais tradicionais, explica, podem até serem feitos depois do enterro, sem a presença do corpo. O que não pode é que o ritual deixe de acontecer.

Os Tukano também apostaram no conhecimento tradicional das ervas medicinais para se proteger da covid. “Sem essa proteção e sem os rituais que fizemos, sem dúvida a situação seria pior”, acredita Francisco.

Durante décadas os missionários forçaram o povo Tukano a abandonar as suas práticas tradicionais, relata, de acordo com o que os seus pais e avós lhe contaram. Dos chás e rituais até o enterro, o cristianismo influenciou tudo. “Esse foi um período muito triste e duro para nós. Muitos anciãos nossos morreram entristecidos com isso”, diz.

Hoje, porém, os jovens estão resgatando as tradições, valorizando a história e buscando aprender com o passado para evitar os mesmos erros e fortalecer os conhecimentos ancestrais do povo Tukano.

“Nós estamos procurando saber como era. Entendemos que aquilo não era ruim, era bonito, era nosso. Se ficamos órfãos de tradição é porque deixamos acontecer. E hoje nós queremos praticar e viver de novo as nossas raízes”, diz Francisco, de 33 anos, que acredita que a tradição e o orgulho indígena, resgatado pelas novas gerações, está vencendo a morte e as proibições cristãs.

Entre o genocídio, a ignorância, a violência, o descaso do poder público e as ameaças registradas, as experiências indígenas mostram que a auto-organização dos povos e a ancestralidade foram o caminho encontrado para sobreviver à pandemia.

Uma realidade mesmo antes da covid-19 aparecer e que guia as práticas históricas dos povos diante da experiência em enfrentar o mal, invisível ou não. E que, segundo as fontes entrevistas, continuarão a guiar o seu exercício diário de celebração da vida.

Esta reportagem foi financiada pelo COVID-19 Emergency Fund for Journalists, da National Geographic Society.