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Pesquisa britânica revela baixa percepção sobre a contaminação dos mares por filtros ultravioleta e aponta falhas na comunicação ao consumidor

O protetor solar é um aliado indispensável nos períodos de calor intenso, mas seus resíduos podem representar uma ameaça aos ecossistemas marinhos. Uma pesquisa realizada no Reino Unido mostra que 55% dos participantes jamais haviam considerado que o produto aplicado sobre a pele pudesse causar danos ao ambiente marinho, enquanto 81% desconheciam a expressão “reef-safe”, utilizada pelo mercado para identificar produtos supostamente menos prejudiciais aos recifes.

O levantamento, publicado na revista científica Marine Policy, foi conduzido por pesquisadores da University of Plymouth e do Plymouth Marine Laboratory. O estudo é apontado como o primeiro no Reino Unido a investigar diretamente a percepção da população sobre a poluição provocada por protetores solares.

Os resultados expõem uma distância significativa entre o conhecimento científico acumulado sobre os efeitos dos filtros ultravioleta e a informação disponível para os consumidores. Para os pesquisadores, o cenário reforça a necessidade de melhorar a rotulagem, ampliar a orientação pública e estabelecer critérios mais rigorosos para alegações ambientais feitas pelas empresas.

A preocupação ganha dimensão diante do volume global de produtos utilizados. Estimativas citadas no estudo indicam que o mercado mundial de protetores solares deve movimentar US$ 13,6 bilhões em 2026. Cerca de 10 milhões de toneladas de filtros ultravioleta são produzidas anualmente para abastecer o mercado global, e entre 6 mil e 14 mil toneladas podem chegar a áreas de recifes de coral.

Da pele para o mar

A contaminação pode ocorrer de diversas maneiras. Pessoas que entram no mar ou em outros ambientes aquáticos após aplicar o produto liberam diretamente parte dos compostos presentes na formulação. Há ainda caminhos indiretos: resíduos podem ser removidos durante o banho, permanecer em toalhas e roupas e alcançar sistemas de esgoto durante a lavagem.

Outro fator de preocupação é a capacidade limitada dos sistemas convencionais de tratamento de água e esgoto para retirar grande parte dos filtros ultravioleta. Compostos orgânicos desse tipo já foram identificados em 95% dos efluentes de águas residuais e em 86% das águas superficiais analisadas em estudos realizados globalmente.

A presença dessas substâncias também já foi registrada em ambientes marinhos de diferentes regiões do planeta. A contaminação aparece em áreas turísticas com grande circulação de pessoas e também em locais remotos, incluindo regiões do Ártico e da Antártida. A distribuição geográfica indica que o problema ultrapassa os pontos onde o uso de protetor solar é mais intenso.

A agricultura também pode contribuir para esse ciclo. Águas residuais reutilizadas e biossólidos empregados como fertilizantes podem transportar filtros ultravioleta para os cultivos. Posteriormente, o escoamento superficial pode levar esses compostos para rios e áreas costeiras.

O que a ciência já sabe

Os filtros ultravioleta são empregados nos protetores solares para absorver ou bloquear parte da radiação responsável por danos à pele. Quando chegam aos ecossistemas aquáticos, porém, determinados compostos podem interagir com organismos marinhos e afetar peixes, algas e corais.

Pesquisas anteriores conduzidas por instituições britânicas já haviam investigado os efeitos dessas substâncias sobre organismos marinhos. A literatura científica reúne evidências sobre diferentes formas de impacto, o que torna a falta de conhecimento público identificada pelo novo levantamento especialmente relevante para políticas ambientais e estratégias de consumo.

A pesquisa atual começou com uma revisão sistemática da literatura internacional. Os autores encontraram apenas nove estudos científicos revisados por pares que haviam investigado a percepção da população sobre a poluição causada por protetores solares. Apesar da quantidade limitada de trabalhos, os resultados apontaram uma tendência: o conhecimento dos consumidores sobre os possíveis efeitos ambientais costuma ser baixo, embora exista disposição para escolher alternativas consideradas mais sustentáveis.

O consumidor diante de rótulos pouco claros

O termo “reef-safe” é um exemplo das dificuldades enfrentadas pelo consumidor. A expressão é utilizada comercialmente para transmitir a ideia de menor risco aos recifes, mas não possui uma regulamentação uniforme que determine quais ingredientes ou critérios permitem sua utilização.

Essa lacuna pode transformar uma informação aparentemente ambiental em uma ferramenta de marketing difícil de avaliar. Sem parâmetros claros, o consumidor pode interpretar uma alegação ecológica como garantia de segurança para os ecossistemas, mesmo quando a evidência científica disponível não sustenta necessariamente essa conclusão.

O estudo defende, por isso, informações mais transparentes nos rótulos e uma comunicação pública baseada em evidências. A regulamentação das alegações ambientais também aparece como uma frente importante para reduzir a confusão e permitir escolhas mais informadas.

Pesquisa mede hábitos de consumidores

Para compreender melhor o comportamento do público britânico, os pesquisadores realizaram atividades de engajamento em Plymouth entre agosto e outubro de 2024. Ao todo, 281 pessoas responderam voluntariamente a cinco perguntas sobre o uso de protetor solar, percepção ambiental e conhecimento sobre os produtos.

A maioria tinha contato com o produto ao longo do ano: 89% afirmaram utilizar protetor solar em algum momento. Apesar disso, 55% nunca haviam pensado na possibilidade de o produto prejudicar o ambiente marinho, e 81% desconheciam o termo “reef-safe”.

Os pesquisadores avaliam que essas respostas ajudam a identificar um ponto estratégico para futuras políticas ambientais: entender como fatores como preço, fator de proteção solar, resistência à água, preocupações com alergias, ingredientes e mensagens ambientais influenciam a decisão de compra.

Esse tipo de informação pode orientar mudanças na formulação dos produtos e na regulamentação. Também pode ajudar a avaliar até que ponto os consumidores estariam dispostos a trocar um protetor solar convencional por uma alternativa cujo perfil ambiental tenha sido comprovado por pesquisas.

Entre proteção da pele e conservação dos oceanos

A pesquisa coloca em evidência um dilema que tende a ganhar espaço com o aumento das temperaturas e da exposição da população à radiação solar. A proteção contra os raios ultravioleta continua sendo uma medida importante para a saúde humana, enquanto a crescente presença de filtros solares nos ambientes aquáticos exige respostas capazes de reduzir seus impactos ecológicos.

O desafio está em conciliar essas duas necessidades com informação confiável, inovação tecnológica e regras mais claras. Para isso, fabricantes, órgãos reguladores, pesquisadores e consumidores precisam contar com dados que permitam avaliar os produtos além de promessas genéricas de sustentabilidade.

O estudo também mostra que informar o público pode ser uma medida ambiental relevante. Conhecer como os resíduos chegam ao mar e quais características dos produtos podem influenciar esse processo cria condições para decisões de consumo mais conscientes e para políticas públicas voltadas à redução da contaminação.

A pesquisa de Anneliese A. Hodge e colaboradores, publicada em Marine Policy em 2026, aponta justamente essa lacuna entre o conhecimento científico e a percepção social. Preencher esse espaço será essencial para que a proteção contra o sol caminhe de forma mais equilibrada com a conservação dos ambientes marinhos.


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