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Levantamento internacional identifica centenas de interações amistosas entre macacos, grandes primatas e outras espécies, ampliando o entendimento sobre a evolução da empatia, do cuidado e da sociabilidade entre animais

A capacidade de estabelecer vínculos afetivos com outras espécies pode ter surgido muito antes da domesticação dos animais pelos seres humanos. Um amplo estudo internacional reuniu centenas de registros de interações amistosas entre primatas e diferentes espécies, indicando que comportamentos como brincar, cuidar, carregar e até adotar indivíduos de outros grupos animais fazem parte da história evolutiva desses mamíferos. As descobertas também oferecem subsídios para aprimorar estratégias de conservação da fauna e manejo em zoológicos e santuários.

A pesquisa, publicada na revista científica Primates, compilou 427 episódios envolvendo 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras. Entre elas, 55 pertencem a grupos que não são primatas. O levantamento reuniu informações provenientes de artigos científicos, relatos da mídia e questionários respondidos por especialistas em primatologia, formando a revisão mais abrangente já realizada sobre relações sociais interespecíficas nesse grupo de animais.

Os resultados mostram que as interações mais frequentes foram brincadeiras, registradas em 139 ocasiões, seguidas por comportamentos de limpeza corporal, conhecidos como grooming, observados em 136 casos. Os pesquisadores também identificaram episódios de afago, transporte, acolhimento e adoção de animais pertencentes a outras espécies.

A tendência variou conforme idade e sexo dos primatas. Indivíduos jovens demonstraram maior propensão às brincadeiras, enquanto fêmeas adultas apareceram com mais frequência realizando cuidados corporais em animais de outras espécies. Machos adultos participaram dessas interações com intensidade significativamente menor.

Embora a maior parte das relações tenha ocorrido entre espécies evolutivamente próximas, o estudo documentou aproximações com uma ampla diversidade de animais, incluindo cães, porcos, aves, esquilos, répteis e cervos. Em grande parte dos registros, a iniciativa para estabelecer contato partiu dos próprios primatas.

Os pesquisadores destacaram diversos episódios considerados incomuns. Na Tailândia, macacos-de-cauda-de-toco foram observados limpando cães domésticos. No Sri Lanka, langures-cinzentos acariciaram delicadamente esquilos-gigantes. Na China, jovens macacos-nariz-arrebitado brincaram com porcos domésticos. Em Madagascar, lêmures-de-cauda-anelada realizaram grooming (limpeza social, como tirar piolhos) em lêmures-do-bambu.

Um dos casos mais marcantes ocorreu no Brasil, onde macacos-prego selvagens acolheram um filhote de sagui e cuidaram dele durante vários meses. O episódio, registrado originalmente em 2006, integra agora a revisão internacional e reforça a capacidade desses animais de desenvolver vínculos duradouros além dos limites da própria espécie.

Segundo os autores, essas relações diferem das associações normalmente observadas entre espécies, que costumam ocorrer por vantagens imediatas, como proteção contra predadores ou facilitação da busca por alimento. Nos casos analisados, muitos comportamentos ocorreram sem uma recompensa aparente, sugerindo elevados níveis de curiosidade social, tolerância e disposição para o contato.

Os cientistas ressaltam, entretanto, que essas aproximações apresentam desfechos variados. Em 13 registros, o animal envolvido morreu em consequência da interação. Entre os exemplos está um babuíno macho, na Arábia Saudita, que carregou um filhote de cachorro por longos períodos após retirá-lo de seu grupo, comportamento interpretado como um possível sequestro. Os pesquisadores observam que demonstrações de cuidado e curiosidade podem evoluir para manipulação excessiva, causando danos ao outro animal.

Além de ampliar o conhecimento sobre as origens evolutivas da convivência entre humanos e animais, os resultados oferecem aplicações práticas para o bem-estar animal. A compreensão dos fatores que favorecem relações harmoniosas entre espécies pode contribuir para o manejo de grupos mistos em zoológicos e centros de conservação, reduzindo conflitos e promovendo ambientes mais compatíveis com o comportamento natural dos animais.

A equipe responsável pelo estudo também defende que primatólogos passem a registrar essas interações de forma mais sistemática durante pesquisas de longo prazo. O acúmulo de novas observações poderá aprofundar o entendimento sobre a evolução da empatia, da flexibilidade social e das capacidades cognitivas que aproximam diferentes espécies ao longo da história evolutiva.


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