Levantamento na Mata Atlântica e no Cerrado mostra que o uso repetitivo de poucas espécies gera florestas ecologicamente empobrecidas. Alerta foi feito por pesquisador da UFSCar durante a FAPESP Week Países Baixos
Por Elton Alisson – Agência FAPESP | A restauração de florestas tropicais consolidou-se como uma das mais promissoras soluções baseadas na natureza para conter a crise climática. No entanto, limitar o objetivo das políticas e dos projetos de reflorestamento apenas ao armazenamento de carbono pode comprometer a conservação da biodiversidade e ter impactos na regulação hídrica e na polinização agrícola.
O alerta foi feito por Ricardo Augusto Gorne Viani, professor do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do Laboratório de Silvicultura e Pesquisas Florestais (Laspef), durante a FAPESP Week Países Baixos, evento realizado na semana passada na Universidade de Leiden.
Segundo o pesquisador, embora a restauração florestal tenha ganhado forte impulso, a prática não pode ser encarada como uma “solução mágica” nem substituir o corte rápido e drástico das emissões de gases de efeito estufa pela indústria e pelo setor de energia.
“Restaurar florestas é uma importante medida de mitigação porque as árvores removem dióxido de carbono da atmosfera à medida que crescem. No entanto, quando fazemos o plantio de árvores nativas para restauração, precisamos considerar o conjunto de benefícios esperados. Se priorizarmos unicamente o [armazenamento de] carbono, podemos criar conflitos diretos com a conservação da biodiversidade”, afirmou Viani.
O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 – uma extensão equivalente a três vezes a área total dos Países Baixos. Para o pesquisador, a magnitude dessa meta exige embasamento científico para evitar que os reflorestamentos resultem em florestas ecologicamente empobrecidas.
Risco da perda de diversidade
Um dos pontos centrais abordados por Viani diz respeito à seleção de espécies arbóreas nos projetos de restauração. Para ilustrar como a escolha da planta altera radicalmente o resultado de campo, o pesquisador apresentou dados visuais de espécies nativas plantadas no mesmo dia e sob as mesmas condições de solo: enquanto um espécime de cedro-rosa (Cedrela fissilis) apresentava porte reduzido após dois anos, uma muda de fumo-bravo (Solanum granulosoleprosum) já ultrapassava dois metros de altura, florescendo e frutificando no mesmo período.
“Há uma enorme variação no desempenho e na velocidade de crescimento entre as espécies nativas. Essa dinâmica afeta diretamente o custo da restauração, o tempo de sombreamento do solo e a capacidade de retenção de carbono”, explicou Viani.
Contudo, a busca por resultados rápidos e de baixo custo tem gerado uma distorção preocupante. O pesquisador apresentou os resultados de um amplo levantamento conduzido em seu laboratório na UFSCar, fruto do doutorado de Crislaine de Almeida, que analisou mais de mil plantios de restauração distribuídos pela Mata Atlântica a partir de registros da ONG SOS Mata Atlântica.
O estudo revelou que os projetos utilizam um conjunto extremamente reduzido da flora nativa. Das mais de 4 mil espécies de árvores existentes na Mata Atlântica, os reflorestamentos avaliados empregaram apenas 423 espécies – ou seja, menos de 8% da diversidade arbórea do bioma.
Mais do que o baixo número absoluto, a pesquisa identificou uma padronização geográfica: as espécies selecionadas para o plantio são praticamente as mesmas em toda a extensão do bioma, independentemente das particularidades regionais.
“Constatamos que os plantios de restauração na Mata Atlântica são muito mais semelhantes entre si, do ponto de vista da composição de espécies, do que em relação às florestas nativas remanescentes que estão ao seu redor. Isso promove um processo conhecido na ecologia como homogeneização biótica, em que a flora regional é padronizada pelo uso repetitivo de um pequeno grupo de plantas”, disse Viani à Agência FAPESP.
Essa seleção privilegia espécies de crescimento acelerado (pioneiras) e de sementes fáceis de coletar e produzir em viveiros. Embora estas sejam benéficas para fechar o dossel e combater gramíneas invasoras, essa abordagem sub-representa espécies de crescimento lento, plantas ameaçadas de extinção e árvores cujos frutos atraem a fauna dispersora de sementes, ponderou Viani.
A gravidade da homogeneização biótica depende da paisagem em que a área restaurada está inserida. Se houver fragmentos florestais nativos preservados na vizinhança, sementes trazidas pelo vento e pelos animais podem colonizar o sub-bosque do plantio, enriquecendo a floresta ao longo do tempo. No entanto, em paisagens agrícolas altamente degradadas e isoladas, as espécies não plantadas jamais conseguirão chegar espontaneamente.
Para conciliar viabilidade econômica e integridade ecológica, Viani defende que o planejamento da restauração adote um diagnóstico detalhado da paisagem.
“Não defendemos que seja necessário plantar centenas de espécies em absolutamente todos os locais. Em paisagens com boa cobertura de floresta nativa remanescente, plantar poucas espécies de crescimento rápido pode ser uma estratégia eficiente e barata, pois a natureza completará a diversidade. O problema ocorre quando essa lógica é estendida para paisagens fragmentadas. Nesses locais, é indispensável introduzir ativamente uma maior diversidade de espécies nativas, incluindo aquelas com baixo potencial de dispersão natural”, avaliou.
Exemplo do Cerrado
Esse descompasso entre o acúmulo de biomassa e o retorno da biodiversidade também foi documentado no Cerrado. Ao analisar 111 estudos sobre a restauração do bioma, o grupo da UFSCar identificou 39 trabalhos que comparavam áreas recuperadas com ecossistemas preservados. Os dados mostraram que, embora o carbono e a biomassa voltem a patamares muito próximos aos da vegetação original, a diversidade de plantas nativas continua significativamente inferior à encontrada nas áreas de referência.
A revisão também expôs um gargalo na produção científica: dos 111 estudos analisados no Cerrado, apenas 13 avaliaram simultaneamente parâmetros de biomassa e carbono e de diversidade vegetal.
“A ampla maioria dos trabalhos científicos mede ou o carbono ou a biodiversidade. Os dados comprovam que recuperar estoques de carbono no Cerrado não garante o retorno das espécies de plantas nativas, reforçando que os projetos precisam monitorar ambos os indicadores de forma integrada”, pontuou Viani.
Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.