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Estudo projeta mudança no cardápio dos mares polares até 2100, com queda de proteínas e aumento de carboidratos

A base da cadeia alimentar marinha está prestes a ter sua receita nutricional reescrita pela crise climática. De acordo com uma pesquisa liderada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e publicada na revista Nature Climate Change, o aumento da temperatura da superfície dos oceanos até o fim do século deve transformar a composição bioquímica do fitoplâncton, especialmente nas regiões polares. O novo cardápio oceânico, mais pobre em proteínas e rico em carboidratos e lipídios, representa uma guinada na qualidade nutricional do principal alimento de espécies que vão do krill aos grandes predadores — incluindo o ser humano.

No oceano, a maioria das formas de vida obtém seu alimento do fitoplâncton. Essas algas microscópicas, semelhantes a plantas, são a principal fonte de alimento para o krill, os caracóis marinhos, alguns peixes pequenos e as águas-vivas, que, por sua vez, servem de alimento para animais marinhos maiores, que são presas dos principais predadores do oceano, incluindo os seres humanos.

O problema é que essas algas parecem já não ter a mesma qualidade nutricional de antes. A conclusão é fruto de um modelo inédito que combina dados de laboratório com simulações de circulação oceânica e mudanças no gelo marinho. Em um cenário de emissões contínuas de gases de efeito estufa até 2100, os cientistas projetam que o equilíbrio entre proteínas, carboidratos e lipídios no fitoplâncton polar pode sofrer uma alteração de cerca de 20%. O fenômeno, no entanto, não é apenas uma previsão futurística: análises de amostras coletadas nas últimas décadas no Ártico e na Antártica já indicam que essa transição está em curso, com a diminuição das proteínas acompanhando o recuo acelerado do gelo marinho.

O mecanismo por trás dessa remodelagem bioquímica está diretamente ligado às condições de luz. Nas regiões polares, o fitoplâncton tradicionalmente produz mais proteínas captadoras de luz para compensar a escassez de luminosidade sob o gelo. Com o derretimento da cobertura de gelo, a maior disponibilidade de sol reduz a necessidade dessas proteínas, enquanto o aumento da temperatura e a desaceleração da circulação oceânica limitam a oferta de nutrientes que vêm das profundezas. O resultado, segundo os pesquisadores, é uma população maior de fitoplâncton, porém com qualidade nutricional inferior.

O impacto dessa mudança sobre a teia alimentar ainda é uma incógnita que preocupa os oceanógrafos. Enquanto organismos que dependem de dietas ricas em proteínas podem enfrentar estresse metabólico, outros que armazenam lipídios para períodos de escassez talvez encontrem vantagens. Enquanto isso, em regiões subtropicais e de latitudes mais altas, o modelo aponta um cenário diferente: a população de fitoplâncton deve encolher em até 50%, com as espécies remanescentes migrando para águas mais profundas em busca de nutrientes, o que pode torná-las ligeiramente mais proteicas.

A pesquisa, que contou com a colaboração de instituições como a Universidade de Rhode Island e a Universidade da Califórnia em Davis, representa um avanço ao focar não apenas na quantidade, mas na composição molecular do fitoplâncton — aspecto até então pouco explorado nos estudos sobre mudanças climáticas. Os modelos utilizados integram experimentos laboratoriais que mostraram como variações de temperatura, luz e nutrientes alteram a proporção entre proteínas, carboidratos e lipídios nas células desses microrganismos.

Para os autores, a mensagem que emerge dos dados é direta: o conteúdo calórico e nutricional na base do oceano já está se transformando, e a velocidade desse processo acelera em regiões como o Ártico. A principal incógnita agora é como essa reconfiguração do cardápio marinho será transmitida ao longo da cadeia alimentar, afetando desde a sobrevivência de pequenos crustáceos até a pesca que abastece populações humanas. O que se anuncia, nas palavras dos cientistas, é um oceano polar rumo a uma dieta de “fast-food” — mais abundante, mas com menos nutrientes essenciais.


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