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Estudo com os filhos de pessoas expostas à radiação originada da explosão nuclear na usina ucraniana, em 1986, mostra que eles não desenvolveram mutações genéticas além do esperado

Estudo internacional que analisou o material genético de aproximadamente 100 famílias ucranianas constatou que os filhos nascidos entre 1987 e 2002 de pessoas expostas à radiação do acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, não desenvolveram as chamadas mutações germinativas de novo acima do esperado. 

Essas mutações aparecem pela primeira vez nos filhos devido a alterações nos gametas de, pelo menos, um dos pais, e são modificações genéticas normais da evolução humana. O intuito dos cientistas era descobrir se essas mutações apareceriam em um número excessivamente elevado nesses indivíduos por causa da radiação a que os pais foram expostos. A pesquisa mostrou que isso não aconteceu.

O trabalho contou com a participação de 38 pesquisadores de várias universidades nacionais e internacionais, entre eles, o professor Leandro Machado Colli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital das Clínicas da FMRP,  e que fez parte da equipe que analisou os dados genômicos.

Um artigo descrevendo o estudo foi publicado em 14 de maio na revista Science. A pesquisa foi coordenada pelo National Cancer Institute, agência de estudos sobre câncer financiada pelo governo federal dos Estados Unidos.  

O acidente de Chernobyl ocorreu em abril de 1986, no reator número 4 da usina nuclear homônima, próxima à cidade de Pripyat, na atual Ucrânia. Ele foi gerado por uma combinação de falhas no projeto da instalação e erros humanos. O número de mortos e feridos ainda é incerto. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), duas pessoas morreram com a explosão e outras 28 morreram nas semanas seguintes, devido à exposição à radiação.

De acordo com um relatório do Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica publicado em 2008, o grande impacto de saúde pública proveniente dessa exposição radioativa nas duas décadas seguintes foram cerca de 6.000 casos de câncer de tireoide em crianças e adolescentes da região.

Os pesquisadores desse novo estudo sequenciaram o genoma de 105 famílias compostas por, pelo menos, um indivíduo que teve algum tipo de exposição à radiação ionizante proveniente do desastre. Entre eles, estavam pais e mães que sofreram diferentes graus de exposição (um grupo que foi exposto diretamente, um que não trabalhava na usina mas morava na região e outro de funcionários de limpeza que não estavam na usina no momento do acidente mas que foram ao local trabalhar depois).

Os autores ressaltam no artigo que não foi possível avaliar os casos dos filhos de pessoas que sofreram as maiores exposições e morreram pouco tempo depois do acidente em decorrência disso, justamente porque o material genético deles não estava disponível para análise.

Análises genéticas

Por meio da comparação entre o material genético de ambos os pais e os filhos (concebidos e nascidos após o acidente) os cientistas buscaram averiguar se esses descendentes nasceram com um número acima do normal das chamadas mutações germinativas de novo.

“Nós sempre encontramos essas alterações, isso faz parte da evolução da espécie. O que fizemos foi estimar quantas mutações desse tipo acontecem normalmente na evolução humana e comparar com o observado nos trios [pai, mãe e filho]”, explica ao Jornal da USP o professor Leandro Machado Colli.

Após a análise do material, os pesquisadores concluíram que a taxa nesses casos foi a esperada, indicando que a radiação não teve um efeito geral nas mutações dos descendentes. Esse mesmo resultado normal foi encontrado em todos os grupos avaliados.

Segundo o professor Colli, do ponto de vista da saúde pública, a importância desses resultados é mostrar que, provavelmente, a radiação deve ter um efeito limitado na prole de pessoas expostas a acidentes radioativos.

Estudos futuros

Colli adianta que o próximo passo é realizar a mesma análise em outros casos de acidentes radioativos, com níveis e tipos de radiação diferentes, para descobrir se neles também não houve impactos genéticos nos filhos das vítimas sobreviventes concebidas e nascidas após esses acidentes.

Os pesquisadores querem fazer análise similar em Fukushima, no Japão, onde, em março de 2011, um terremoto de magnitude 9.0 seguido de um tsunami danificaram a Central Nuclear de Fukushima I, provocando liberação de material radioativo e evacuação de dezenas de milhares de pessoas.

Também pretendem estudar o caso ocorrido no Brasil, em Goiânia (Goiás), em 1987, quando o descarte inadequado de uma máquina de radioterapia expôs direta e indiretamente muitas pessoas ao isótopo radiotivo césio-137, o que levou a, pelo menos, 1.400 contaminações e 66 mortes, segundo levantamentos de sindicatos, associações e do Ministério Público de Goiás.

Mais informações: e-mail leandroc@fmrp.usp.br, com Leandro M. Colli