Pesquisa da universidade de nova inglaterra mostra que o químico persistente se acumula em colônias, reduz o peso das jovens abelhas e ameaça a polinização de culturas essenciais para a alimentação humana
Uma análise publicada no periódico Environmental Science & Technology acende um alerta sobre o impacto de um “químico eterno” em um dos insetos mais importantes para a agricultura. Cientistas da Universidade de Nova Inglaterra (UNE), na Austrália, monitoraram colônias de abelhas-europeias expostas ao PFOS e descobriram que a substância não só se acumula nos tecidos dos insetos como também contamina o mel por elas produzido.
O composto, integrante da família dos PFAS, foi desenvolvido na década de 1930 e integrou a fórmula de espumas de combate a incêndios, produtos industriais e de consumo até o início dos anos 2000. Embora seu uso esteja descontinuado na Austrália, a contaminação persiste no solo e na água por décadas, caracterizando um legado duradouro. As abelhas podem entrar em contato com o PFOS por meio de poeira, água, tintas usadas em colmeias e pólen de plantas cultivadas em áreas contaminadas.
No experimento, a exposição crônica a níveis ambientais da substância alterou a expressão de proteínas essenciais para o funcionamento celular dos insetos. A nova geração de abelhas apresentou o químico acumulado nos tecidos corporais e pesava menos do que aquelas nunca expostas ao contaminante. Esse peso reduzido indica glândulas menores, especialmente a hipofaríngea, responsável por produzir a geleia real que alimenta as larvas. Com a qualidade do alimento comprometida, o desenvolvimento das crias é afetado, colocando em risco a saúde e a longevidade de toda a colônia.
A perda de polinizadores representa um perigo direto para a diversidade e a qualidade da dieta humana. A produção de frutas vermelhas, a maioria das frutas e hortaliças depende desses insetos, e um declínio populacional levaria a uma oferta de alimentos mais restrita e menos nutritiva.
A pesquisa em ambiente controlado confirmou a transferência do PFOS para o mel, mas os próximos passos envolvem entender como a contaminação ocorre em campo. Os cientistas pretendem investigar se as plantas absorvem o químico do solo e o translocam para o néctar das flores. Se isso acontecer, as implicações se estendem a todos os polinidores e também aos consumidores de mel.
A descoberta serve de base para futuras diretrizes de proteção ambiental voltadas especificamente às abelhas, um grupo ainda pouco estudado diante da ameaça dos contaminantes. A recomendação para quem mantém colmeias em casa é evitar o uso de defensivos agrícolas que contenham PFAS na composição, já que muitos produtos para jardim ainda carregam esses compostos.