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Milhares de anfíbios morrem nas Américas em decorrência de um fungo letal, Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), que causa uma doença chamada quitridiomicose

  • Algumas das espécies mais afetadas são as do gênero Atelopus, conhecidas como sapos-arlequim; por suas cores vivas, são chamados de “joias da região neotropical”.
  • Na ativa desde 2019, a Iniciativa de Sobrevivência Atelopus (ASI) reúne cientistas de 15 países no esforço de evitar o desaparecimento dos sapos-arlequim — das 99 espécies conhecidas, metade já está possivelmente extinta.
  • Quem também perde é a saúde humana: na América Central, a extinção de anfÍbios fez aumentar os casos de malária em até 90%; um dos papéis importantes desses animais é o controle de outras populações, entre elas a de mosquitos.

Por Suzana Camargo em Mongabay | No final da década de 1980, num congresso internacional de herpetologia — ramo da ciência que estuda répteis e anfíbios —, pesquisadores de diversos países começaram a relatar o desaparecimento e a queda nas populações de sapos e rãs. Descobriu-se que não era um fato isolado: estava acontecendo em muitas florestas e montanhas das Américas Central e do Sul.

Após diversas análises, os cientistas constataram que milhares de anfíbios estavam sendo vítimas de um fungo letal, originário da Ásia, o Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), que causa uma doença chamada quitridiomicose. No continente de origem, os animais são resistentes a ele, mas não nas Américas.

E dentre as muitas espécies de anfíbios que foram dizimadas nas últimas décadas pelo Bd estão as do gênero Atelopus, conhecidos popularmente como sapos-arlequim.

O sapo-arlequim da espécie Atelopus spumarius vive na Floresta Amazônica, com populações no Brasil, no Peru, no Equador, na Colômbia e nas Guianas. Foto: Jaime Culebras/ASI

Encontrados da Costa Rica até a Bolívia, e do Equador até a Guiana Francesa, incluindo a Amazônia brasileira, eles medem somente entre 2 e 3 centímetros. Mas suas cores saltam aos olhos. Afinal, poucas criaturas na natureza apresentam tonalidades tão vibrantes: rosa-choque, laranja, amarelo-neon, roxo. Por esta razão, são conhecidos como “joias da região neotropical”.

“Para os Atelopus, o fungo foi terrível, devastador. Das 99 espécies que conhecemos, 4 estão extintas na natureza e 40 são tidas como possivelmente extintas — a maior parte delas devido à quitridiomicose associada à destruição do habitat”, diz o biólogo Luis Fernando Marin da Fonte, especialista em anfíbios.

O pesquisador brasileiro é o coordenador da Iniciativa de Sobrevivência Atelopus (ASI), criada em 2019 para tentar salvar da extinção os sapos-arlequim. O esforço inédito reúne mais de 57 organizações, de 15 países, entre eles o Brasil. Os cientistas perceberam que, em vez de trabalharem isolados, juntos seriam muito mais bem-sucedidos n objetivo comum.

“Como um grupo incrivelmente diversificado de anfíbios que enfrentam uma série de ameaças, os sapos-arlequim precisam de soluções inovadoras propostas por um grupo de indivíduos e organizações com diferentes conhecimentos e capacidades”, afirma Lina Valencia, fundadora da ASI, co-presidenta da Força-Tarefa Atelopus do Grupo de Especialistas em Anfíbios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e coordenadora de países andinos da ONG norte-americana Re:wild.

Espécies de sapos-arlequim existentes nas Américas Central e do Sul. Imagem: ASI

Populações microendêmicas são as mais vulneráveis

Não bastasse a alta letalidade do fungo Bd, por suas características físicas, os anfíbios também são mais suscetíveis às mudanças climáticas. Marin da Fonte explica que eles respiram através da pele e, como não têm capacidade de regular a temperatura do corpo, dependem da temperatura ambiental para isso. “No caso dos mamíferos, se está quente demais, eles começam a suar e a reduzir o metabolismo para compensar a energia perdida. Os anfíbios não possuem essa capacidade. Então, se lá fora está muito quente, eles provavelmente acabarão morrendo.”

Por essa razão, eles vivem em lugares úmidos e fogem da exposição ao calor extremo. Sua pele, permeável, também é mais sensível à poluição ou à presença de agrotóxicos ou outros contaminantes na água de rios e riachos.

Já quando há desmatamento ou destruição de seus habitats, alguns mamíferos e aves podem conseguir fugir para outras áreas, o que não ocorre com sapos, rãs e pererecas, que acabam padecendo.

Sapos da espécie Atelopus spumarius fotografados no Equador, país com o segundo maior número de espécies de sapos-arlequim. Foto: Jaime Culebras/ASI

No caso dos sapos-arlequins, o que torna essas ameaças todas ainda mais graves é que muitas de suas espécies são microendêmicas, ou seja, algumas populações são muito pequenas e encontradas somente numa área. Quando elas são atingidas seja pela quitridiomicose, pela destruição dessss habitats ou pelo aumento abrupto da temperatura, há um risco muito maior de extinção.

Colômbia, Equador e Peru concentram o maior número de espécies de sapos-arlequim descritas até hoje – 41, 24 e 19, respectivamente. Mais de 75% delas vivem em ecossistemas de alta altitude, incluindo picos nevados a 4.500 metros de altura.

Existem suspeitas de que em ambientes mais frios o fungo é mais violento do que naqueles mais úmidos e quentes, como na Amazônia, onde o Bd não é um problema tão grande como na região dos Andes.

O sapo-dourado-do-panamá (Atelopus zeteki) é endêmico do vale panamenho de Antón e símbolo nacional do Panamá. Está possivelmente extinto na natureza. Foto: Jaime Culebras/ASI

Menos sapos, mais malária

Os anfíbios são os animais vertebrados mais ameaçados do planeta. Todavia, não são eles que recebem os maiores investimentos para conservação e nem os que aparecem nas grandes campanhas das principais organizações de proteção ambiental do mundo. Afinal, pouca gente acha um sapo “lindo” ou “fofo”.

“Quem ganha a atenção são sempre os mamíferos ou as aves. Eles são mais carismáticos”, reconhece Marin da Fonte. “E ninguém precisa tentar convencer as pessoas porque é importante proteger um panda, um leão ou uma girafa.”

É por isso que, além de pesquisas de campo e planejamento de estratégias de preservação, um dos braços da ASI está ligado à educação ambiental. Faz-se necessário mudar a maneira como a sociedade enxerga esses bichos.

Atelopus arsyecue, espécie endêmica da Serra Nevada de Santa Marta, na Colômbia. Foto: Jaime Culebras/ASI

Um dos primeiros passos para alcançar essa meta foi dado durante um encontro realizado no ano passado na Colômbia, que contou com a participação de vários pesquisadores latino-americanos. O lugar foi escolhido a dedo: a Serra Nevada de Santa Marta, na Colômbia, onde por alguma razão, ainda obscura, os sapos-arlequim parecem ser mais resistentes ao Batrachochytrium dendrobatidis.

Na primeira reunião presencial após os dois anos da pandemia de covid-19, foram lançados vários materiais para engajar os leigos na proteção dos sapos-arlequins, dentre eles, um livro em português, espanhol e inglês com informações e ilustrações sobre as espécies, e ainda, vídeos e canções, produzidos e gravados pela banda colombiana Jacana Jacana.

“Para esse projeto escolhemos quatro espécies, bastante ameaçadas, de quatro países: Panamá, Equador, Colômbia e Brasil. No nosso caso, a brasileira foi o sapinho-manauara, endêmico de Manaus, o Atelopus manauensis”, conta o biólogo Pedro Peloso, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e um dos profissionais envolvidos na ASI.

Para os cientistas, é essencial que esses produtos alcancem um público além do científico.

“Com o livro, chegamos até as crianças. Já a música é uma forma mais lúdica de contar a história e muito mais interessante do que escrever um artigo científico ou um texto que só será lido por pessoas com interesse na conservação de anfíbios”, acredita o coordenador da Iniciativa de Sobrevivência Atelopus. “E, ao trabalhar com crianças, você já quebra o preconceito. Essa coisa de que sapo é nojento ou venenoso é uma questão cultural de geração para geração. É muito mais fácil quebrar esse paradigma com elas”.

O sapo-arlequim Atelopus exiguus é uma espécie exclusiva dos Andes equatorianos. Foto: Jaime Culebras/ASI

Não se sabe ainda se, no longo prazo, os sapos-arlequins conseguirão ganhar imunidade ao Batrachochytrium dendrobatidis, todavia, estudos recentes já demonstram que o importante papel dos anfíbios em seus ecossistemas, de controlar a população de outros animais, como mosquitos, está sendo afetado.

Um artigo científico publicado na Environmental Sciences em 2022 alerta que houve um aumento de casos de malária entre seres humanos na América Central. Nos oito anos após perdas substanciais de anfíbios causada pelo Bd, houve um salto da doença equivalente a cerca de um caso extra a cada mil pessoas, o que significa um crescimento de 70% a 90%.

Para quem precisa de mais uma razão para lutar pela preservação dessas belas e únicas joais neotropicais, está aí uma outra e muito preocupante.


Este texto foi originalmente publicado por Mongabay de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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