Microplástico já contamina praias e peixes da Amazônia

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Pesquisadores da UFPA encontraram partículas plásticas no intestino de peixes amazônicos e em todas as amostras de areia de uma praia da região

Piranha

Três pesquisas realizadas na Universidade Federal do Pará (UFPA) trazem más notícias para a Amazônia: os microplásticos já se acumulam por lá. Dois estudos analisaram a situação dos peixes dos rios Amazonas e Xingu, encontrando resíduos plásticos em cerca de 30% dos indivíduos. Um terceiro estudo, divulgado agora, constatou a distribuição generalizada do microplástico em uma praia no litoral nordeste do Pará.

Os dois estudos sobre a situação dos peixes da Amazônia foram orientados pelo professor Tommaso Giarrizzoa, do Programa de Ecologia Aquática e Pesca do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia da UFPA.

Como parte de seu mestrado, Tamyris de Souza e Silva analisou animais do estuário do rio Amazonas, na costa norte do Pará, que é responsável por 28% de todo o desembarque nacional de pescado. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Marine Pollution Bulletin em agosto de 2018 e revelam a presença de microplásticos em 13,7% dos 189 peixes analisados.

Já Priscilla S. Barbosa, do mesmo grupo de pesquisa da UFPA, estudou em seu mestrado os peixes do rio Xingu. Ela constatou a ingestão de microplástico por cerca de 30% dos 172 indivíduos analisados. O artigo com as conclusões também saiu no Marine Pollution Bulletin, em janeiro de 2019.

De posse desses dados, os pesquisadores José Eduardo Martinelli Filho e Raqueline Cristina Pereira Monteiro, do Departamento de Oceanografia da UFPA, realizaram uma análise da areia da Praia da Corvina, em Salinópolis, no litoral nordeste do Pará, uma praia relativamente bem preservada e de difícil acesso onde foram encontrados microplásticos em todas as amostras coletadas.

Peixes contaminados

Em sua pesquisa, Tamyris estudou 189 peixes de 46 espécies, pertencentes a 22 famílias, coletados na fauna acompanhante do arrasto industrial de camarão. Ela removeu 228 partículas microplásticas do trato gastrointestinal de 26 animais (de 14 espécies diferentes). A maior parte eram pelles plásticos (97,4%), seguidos por folhas (1,3%), fragmentos (0,4%) e fios (0,9%), com tamanhos variando de 0,38 a 4,16 mm.

Ela constatou uma correlação positiva entre o comprimento padrão dos peixes e o número de partículas encontradas nos tratos gastrointestinais. Os principais polímeros identificados foram poliamida, rayon e polietileno. Além do lixo local, uma hipótese levantada pela pesquisa é de que as correntes oceânicas colaborem para levar lixo descartado incorretamente no litoral do Nordeste para a região Norte, aumentando a contaminação dos peixes.

No Xingu, o cenário revelado por Priscila é ainda pior. Ali, no sudoeste do Pará, ela constatou a ocorrência de plástico em 75% dos peixes de uma das espécies analisadas - a Pygocentrus nattereri, mais conhecida como piranha-vermelha. No total, ela analisou 172 indivíduos de 16 espécies, tendo encontrado 96 itens plásticos em 46 desses peixes (26,7%).

cadeia alimentar do plástico
Resumo da rede trófica mostrando o caminho dos resíduos plásticos até os peixes do Baixo Xingu. Imagem: Priscilla S. Barbosa/Marine Pollution Bulletin

O peso do plástico ingerido pelos peixes variou bastante, assim como a porcentagem do resíduo com relação ao total de alimentos presente no organismo dos animais, chegando a 77% no caso de alguns pacus da espécie Ossubtus xinguense. O tamanho dos plásticos encontrados variou de 1 a 15 mm, entre filamentos (53,1% dos itens) e fragmentos (46,9%).

Dentre os microplásticos analisados, a pesquisadora constatou a presença de polietileno (27%), policloreto de vinila (13%), poliamida (13%), polipropileno (13%), mistura de poliamida e polietileno tereftalato (13%), poli (metil metacrilato) (7%), rayon (7%) e PET (7%).

Praia contaminada

No estudo mais recente, cujas conclusões também foram publicadas na Marine Pollution Bulletin, agora em junho, para a edição de agosto de 2019, José Eduardo Martinelli Filho e Raqueline Cristina Pereira Monteiro analisaram pela primeira vez a situação de uma praia amazônica com relação aos microplásticos. O resultado, como já dissemos, não é nada animador.

Praia da Corvina

Eles colheram amostras de quatro áreas de 400 m2 cada isoladas na faixa de areia. A Praia da Corvina, em Salinópolis, tem quase 2 km de comprimento e sua faixa de areia pode chegar a 1 km durante a maré baixa. O local não tem acesso para carros e é preciso atravessar a área de mangue que separa a praia da região urbanizada por trilha.

Ainda assim, todas as amostras (coletadas nos diferentes pedaços e em várias profundidades) continham microplásticos, no total de 5819 partículas, sendo 95% fibras. A densidade encontrada foi de 492,5 a 556,4 partículas por metro cúbico. O número é considerado baixo, mas o que preocupa é a constância de resíduos microplásticos espalhados por toda a praia.

As três pesquisas alertam para a necessidade de mais estudos, já que ainda não se sabe qual será o impacto futuro da presença de microplásticos na Amazônia - ou no corpo humano.


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