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Estudos permitiram melhores técnicas para avaliação da estrutura etária de plantas de pequeno porte em ecossistemas "invisíveis" no País

Por Yasmin Constante – Jornal da USP | Você já deve ter ouvido ou mesmo cantarolado a tradicional cantiga de roda sobre o “alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado”. Mas a que campo, afinal, a cantiga se refere? Os campos naturais são ecossistemas abertos, com vegetação rasteira como ervas e gramíneas, que ocupam cerca de 20% da superfície terrestre. Embora seja uma vegetação nativa, os campos naturais são, além de negligenciados e pouco estudados, considerados áreas não florestais, o que dificulta sua conservação.

Esta foi a lacuna percebida por Giselda Durigan, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e coordenadora do Biota Campos, projeto que busca avaliar as particularidades destas localidades através de uma rede de pesquisadores de diversas instituições. “As pessoas em geral nem percebem que campos naturais existem no Brasil, e raramente dão valor à vegetação que não tem árvores. A falta de conhecimento sobre esses ecossistemas agrava os problemas, pois a gente só valoriza o que conhece”, destaca.

Em regiões florestais, é comum a aplicação de uma técnica chamada de dendrocronologia, que permite saber com exatidão a idade das árvores. Essa medição é importante porque é através dela que se pode reconstruir o histórico climático da região. A contagem é feita a partir dos anéis de crescimento das árvores, que são círculos concêntricos localizados no tronco e representam a quantidade de madeira formada a cada ano.  A depender da espessura dos anéis, é possível saber se seu período de formação foi seco, quando apresenta uma espessura fina, ou chuvoso, com espessura mais larga.  

Apesar do porte pequeno, ervas, arbustos e subarbustos de campos naturais também podem revelar sobre o clima e o passado dos campos naturais. Neste caso, as valiosas informações estão presentes, ao invés do caule, nos órgãos subterrâneos – estruturas desenvolvidas abaixo do solo responsáveis pelo armazenamento de nutrientes – e a técnica de medição empregada é a “herbcronologia”, uma subárea da dendrocronologia. 

A partir de sua aplicação, dois estudos recém-publicados têm mostrado alta longevidade de espécies vegetais dos campos brasileiros, sobretudo do Cerrado.  As análises foram realizadas por pesquisadores do Laboratório de Anatomia, Identificação e Densitometria de Raios-X em Madeira da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, que também integram o projeto Biota Campos. Os trabalhos desenvolvidos estão ligados à valorização e proteção desses ecossistemas e evidenciam a evolução dessas plantas, apesar das condições climáticas nem sempre favoráveis. 

A datação das plantas

Um estudo de datação foi responsável por encontrar espécies centenárias em campos naturais do Cerrado. A descoberta que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a de que cerca de 12% das plantas têm mais de 50 anos. As avaliações foram descritas em um artigo publicado na revista científica Dendrochronologia. Outro dado relevante encontrado é que 55% das amostras formam anéis de crescimento distintos, nos quais é possível aplicar técnicas de medição. 

A identificação é feita a partir de amostras dos órgãos subterrâneos porque estão numa região protegida de fatores adversos como queimadas e grandes herbívoros. “O órgão subterrâneo tem essa função de proteger as gemas que vão rebrotar. Ali está a história toda, desde quando essa semente germinou e começou a crescer”, explica Claudia Fontana, pesquisadora de pós-doutorado no IPA, colaboradora acadêmica na Esalq e primeira autora do artigo. Segundo ela, essa análise contém o registro completo da vida de cada planta. 

No total, a pesquisa avaliou 204 plantas, abrangendo 28 famílias e 107 espécies, coletadas em campos de altitude em regiões de Mata Atlântica, em campos úmidos e campos secos em regiões de Cerrado. As plantas avaliadas foram coletadas durante a amostragem da comunidade vegetal de cerca de 50 localidades, nos Estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Após a retirada, as amostras foram encaminhadas ao grupo de especialistas no laboratório da Esalq.

A próxima etapa do processo foi entender se as espécies formavam ou não anéis de crescimento. Neste momento elas foram classificadas quanto à visibilidade dos anéis, divididos entre: distintos, pouco distintos e indistintos.

“A gente pegava uma raiz mais desenvolvida quando a planta formava várias raízes, que teoricamente poderiam ter mais anéis de crescimento, e fazíamos um corte logo abaixo [de onde estaria] o solo”, explica Claudia. Após o corte na transversal, as amostras foram polidas para que fosse possível observar os anéis com lupas profissionais.

A imagem contém uma planta de pequeno porte com um grande órgão subterrâneo

Órgãos subterrâneos são responsáveis pelo armazenamento de nutrientes – Foto: Biota Campos

Técnicas para distinção

Para melhorar a visualização dos anéis de crescimento, outro estudo, publicado na revista científica Flora, aplicou técnicas de autofluorescência e um conjunto de testes histoquímicos. A combinação das abordagens forneceu informações sobre a anatomia e a química dos órgãos subterrâneos. Este é o primeiro trabalho a aplicar o método em campos naturais.

Tiago Marcilio Gomes Pinto, mestrando em Recursos Florestais na Esalq e primeiro autor, explica que ao empregar essas técnicas a pesquisa possibilitou uma visualização dos anéis de crescimento. Porém, destaca que é necessário que as pessoas entendam o que são estes anéis e como essa delimitação está relacionada com a dinâmica do campo.

A técnica utilizada consiste em aplicar corantes na amostra. Cada um dos corantes é ligado a um composto químico do lenho, permitindo que as variações sejam visualizáveis. “Dependendo dos corantes que a gente usa, conseguimos evidenciar mais especificamente alguns compostos químicos, e se eles estiverem atrelados à anatomia ou à forma daquela planta. Isso vai ajudar a gente a ver melhor o anel de crescimento, onde tinha alguma dúvida.”

As técnicas utilizadas podem ser empregadas em qualquer tipo de planta, mas dão uma vantagem maior para aquelas que ainda são pouco pesquisadas. “Pode ser aplicada qualquer planta lenhosa que vai ajudar a ter mais certeza na delimitação, que é a chave para fazer depois a datação”, completa.

Entender o passado através da herbcronologia

Para além de datar as plantas, as avaliações contribuem para o conhecimento daquele local: se a região é uma área degradada, quão longevas são as espécies e quais delas formam anéis de crescimento.

Além disso, permite maior compreensão da relação entre o ambiente e fatores externos, inclusive com uma das maiores características dos campos: as queimadas. Segundo Claudia Fontana, o fogo pode liberar a área, fazendo com que algumas espécies recebam mais sol e nutrientes. Assim como é possível que o fogo não seja tão interessante para outras plantas, “podemos tentar descobrir qual a estratégia da planta de sobreviver a esses eventos”, completa.

Giselda Durigan explica que existe a falsa ideia de que os campos são florestas deterioradas. Mas, com a descoberta de plantas centenárias, não se pode dizer que sejam áreas degradadas. “Elas estavam aqui antes do desmatamento”, destaca. “Se essas plantas estão lá, é a prova mais evidente de que o fogo não mata os campos. Eles se renovam depois do fogo, rebrotam infinitas vezes; são plantas que evoluíram durante milhões de anos para isso.”

A partir do estudo da ecologia das plantas é possível fazer a reconstrução da história do clima de uma determinada região, por isso funcionam como “cápsulas do tempo”. Segundo a pesquisadora, as avaliações não indicam que os campos ocupam uma área que antes era florestal. “Elas [as plantas pequenas] não são desse tipo de ambiente mais fechado, mais sombreado. Então, se aquilo fosse uma floresta antes, nós não encontraríamos algumas das plantas que a gente estudou, porque não é o ambiente delas”, aponta Fontana.

“Se temos uma planta de 100 anos ali, antes dela tinha outra. Para deixar semente para que ela nascesse” – Claudia Fontana

Segundo Tiago Gomes Pinto, os artigos ajudaram a compreender melhor a unidade básica da análise, que é o anel de crescimento. “Se a gente entende essa unidade básica, teremos mais certeza na delimitação dos anéis de crescimento nas amostras usadas em próximos estudos.”

O artigo Herbchronology of woody underground organs in the Brazilian tropical grassy ecosystems: Age estimates and dendrochronological potential está disponível neste link e o artigo Lighting up the underground: Enhancing growth-ring detection in grassland subshrubs using autofluorescence and histochemistry neste link.

Mais informações: giselda.durigan@gmail.com, com Giselda Durigan; claudiafontanabio@gmail.com, com Claudia Fontana; e tiagomarcilio@usp.br, com Tiago Marcilio Gomes Pinto

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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.


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