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O papel da metrópole na conservação da floresta: a inovação, a modernidade urbana e os desafios para uma futura capital brasileira da bioeconomia

Por Sergio Adeodato em Página 22

Com 2,2 milhões de habitantes, em território rural e urbano quase dez vezes maior que o município de São Paulo, Manaus representa a sexta maior economia entre as cidades brasileiras, com Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 78 bilhões, em 2020, segundo o IBGE. Paradoxalmente, quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), figura em 23º lugar no ranking das capitais, à frente apenas de Porto Velho, Macapá, Rio Branco e Maceió (2010). Trata-se de um complexo cenário econômico, social e ambiental em meio a superlativos naturais, como a maior floresta tropical e a mais volumosa bacia hidrográfica do planeta, entre outros diferenciais que vociferam um recorrente “potencial para o futuro” – agora marcado pela importância na mitigação da mudança climática. Com um componente essencial por vezes esquecido na agenda: a dimensão urbana, resultado do processo histórico de ocupação da região.

Antes e após o período da borracha, apesar das transformações urbanas e do olhar das elites fixado nas modinhas do além-mar, Manaus manteve profunda relação com a floresta até o início da década de 1970. A cidade tinha expressiva extensão de mata e se impunha como entreposto dos produtos florestais extraídos no interior: da pesca à madeira para construção, pau-rosa para perfumaria, sorva para chiclete e juta para sacas de café, além da exportação de peixes ornamentais e dos curtumes de jacaré, entre outros negócios. “O perfil foi para o extremo oposto após a ZFM, com a presença dos grandes grupos econômicos do comércio e telecomunicações, que não conviviam com árvores. Dessa forma, a ligação entre a capital e a floresta, antes econômica, passou a ser gradativamente mais social e familiar, sem mais tantos negócios no interior”, conta Denis Minev, empresário, CEO do grupo Bemol, uma das maiores redes de varejo da Amazônia, que agora investe em energia solar e wifi na floresta para análise de crédito e expansão de vendas.

A concentração de capital na metrópole devido à pujança do comércio e indústria, sem investimentos na produção da floresta, não esvaziou a economia do interior devido a um outro fator: “o enriquecimento das prefeituras abastecidas pelo repasse dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios”, segundo análise de Minev. Junto ao dinheiro de programas sociais do governo e da aposentadoria rural, o serviço público tornou-se a principal fonte de renda no interior, que teve a geografia econômica alterada.

Segundo ele, essas transferências de renda amenizaram o impacto econômico das restrições ambientais na floresta. “Com o maior monitoramento ambiental, tanto quem explorava corretamente os recursos naturais, como quem fazia de forma predatória, não conseguia sobreviver como antes”, aponta o empresário. De toda forma, a injeção dos recursos públicos, argumenta Minev, trouxe ganhos em indicadores de educação, saúde e expectativa de vida nos municípios amazônicos até o retrocesso ocorrido na crise econômica de 2015 e 2016.

Na metrópole, manteve-se o lado cosmopolita e internacional, marcado pela miscigenação desde o ciclo da borracha até a vinda de colaboradores e prestadores de serviço do centro-sul do Brasil para as indústrias tecnológicas da ZFM, além do atual acolhimento de refugiados haitianos e venezuelanos. “Manaus se beneficia dessas várias ondas migratórias, que incluem também sírio-libaneses, japoneses e judeus vindos principalmente do Marrocos”, enfatiza Minev, assíduo nos debates sobre o desenvolvimento sustentável e investidor-anjo de boas ideias em novos negócios com propósito de impacto socioambiental positivo.

O cenário, em sua análise, mistura receptividade, inovação e tradições amazônicas, tanto na alimentação como nas lendas e no folclore das festas do boi. “No tema ambiental, nunca antes nessa intensidade, há uma grande falta de comunicação e empatia entre o público dentro e fora da cidade”, completa. Minev identifica um expressivo nível de rejeição manauara à temática da floresta e do meio ambiente, evidenciada no resultado das eleições de 2018, uma dissonância em relação à conversa global sobre mudança climática — “provavelmente como resposta à piora das condições de vida e falta de oportunidades vinda de anos anteriores”.

“Assim como nos reinventamos para fornecer vacinas contra a covid-19, devemos nos reinventar para Manaus se tornar polo de uma nova economia, com soluções baseadas nas maravilhas da Amazônia”, afirma Minev, cujo avô, o visionário economista manauara Samuel Benchimol (1923-2002), já levantava a bandeira do tema. Ele defendia que a região precisava ser financeiramente recompensada pela conservação da floresta – o que hoje significaria ter Manaus como centro de uma nova economia. “Essa é uma decisão que nunca tomamos”, diz o empresário.

A questão fica na narrativa do “potencial”, como nos dizeres da geógrafa Bertha Becker (1930-2013), também referência no pensamento sobre o desenvolvimento sustentável da Amazônia. “Só precisamos de uma economia; o verde, já temos”, afirmava a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na década de 1990, ela considerava a região como o “grande desafio brasileiro para o século XXI”. Em sua visão, assim como o Cerrado se tornou grande produtor mundial de alimentos como resultado das pesquisas da Embrapa, o Vale do Paraíba se destacou como referência na indústria aeronáutica em função da Embraer, e polos de São Paulo e outras regiões prosperaram com a mudança de paradigma do Proálcool no campo dos biocombustíveis, igual vigor deveria ser empreendido para a transformação da Amazônia em meca da bioeconomia com base na floresta.

Becker participou do Plano Amazônia Sustentável, lançado pelo governo federal em 2008, que já estabelecia o objetivo de “viabilizar uma estratégia de longo prazo que concilie a promoção do desenvolvimento econômico com o uso sustentável dos recursos naturais, inclusão social e distribuição de renda, resultando na melhoria da qualidade de vida da população”.

No livro Um futuro para a Amazônia, escrito em parceria com Claudio Stenner, a geógrafa reforça que o valor do patrimônio natural não se esgota na biodiversidade, que abre fronteiras para a ciência, como a engenharia genética. Assim, a professora projetou a cidade de Manaus transformada em metrópole moderna, uma nova Wall Street, com bolsa de ativos verdes.

O papel da Zona Franca de Manaus

No centro do debate sobre o desenvolvimento sustentável está o futuro da ZFM, com os seus incentivos fiscais e reflexos no Polo Industrial de Manaus (PIM). Alvo de embates muitas vezes ideológicos, o modelo não de hoje divide opiniões, mas reúne o consenso sobre a necessidade de buscar caminhos de uma maior diversificação, no contexto de uma bioeconomia da floresta, com menor dependência do atual perfil industrial e uma integração mais ampla a compromissos de sustentabilidade. A discussão em torno das questões tributárias e sua efetividade, de um lado, e das demandas da economia na urgência climática, de outro, tem reforçado propostas de soluções que considerem a dinâmica da realidade amazônica e, mais especificamente, da economia amazonense e sua metrópole.

Após 55 anos, a ZFM – com vigência renovada até 2073 – reúne cerca de 450 empresas, com 103 mil empregos e faturamento do polo industrial ao redor de R$ 158 bilhões em 2021, 40% concentrado em três produtos: televisores com LCD, celulares e motocicletas. No rastro dos atrativos de renda, Manaus é hoje a sétima cidade mais populosa do País, com crescimento acelerado, seis vezes maior do que a média nacional, de 1960 para cá.

Houve melhoria no índice de escolaridade. Porém, o aumento populacional não foi acompanhado pelo desenvolvimento da infraestrutura urbana. O resultado está na expansão de ocupações irregulares e na deficiência de fornecimento de água, energia e saneamento básico, entre outros fatores de degradação que expõem a desigualdade social e contrastam com a exuberância da floresta ao redor da grande ilha urbana.

Uma pergunta é recorrente no debate: a existência do PIM tem contribuído para reduzir a pressão do desmatamento? Os riscos inerentes à continuidade do modelo podem induzir a migração da indústria para atividades intensivas em terra?

Enquanto alguns estudos apontam evidências de que o PIM evitou a exploração agropecuária e extrativista ao concentrar atividades geradoras de renda em Manaus, outros pesquisadores dizem que essa dependência entre desmatamento e geração de emprego no setor industrial não é relevante. De certo, para além de uma maior ou menor influência da metrópole, os fatores geográficos, como isolamento de regiões sem acesso por estradas – bem como a criação de reservas ambientais, terras indígenas e outras áreas protegidas – serviram de escudo contra a derrubada de árvores, fazendo com que o Amazonas historicamente tenha índices de desmatamento bastante inferiores em relação aos vizinhos Pará e Mato Grosso.

Em resumo, a atividade industrial na ZFM é composta por grandes empresas internacionais, com as melhores práticas competitivas. De acordo com pesquisadores, como Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), houve expressivos avanços na região por conta do modelo de incentivos, com constituição de um forte mercado consumidor regional, além de um amplo e diversificado mercado de trabalho, universidades e institutos de pesquisa, entre outros. São bases sólidas que se somam ao possível desenvolvimento regional em novos eixos econômicos estratégicos, baseados na riqueza de recursos naturais da região, por exemplo: bioeconomia amazônica (biofármacos, biocosméticos, alimentos nutracêuticos, novos materiais etc), piscicultura, turismo e produção agroflorestal.

Junto a isso, segundo analistas, há a necessidade de ampliar a contribuição da região nas exportações brasileiras, a melhoria de infraestrutura (portuária, ferroviária, rodoviária, fluvial, telecomunicações, etc) e a destinação de recursos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) à qualificação tecnológica para essas atividades associadas à floresta — além de uma maior ênfase produtiva no interior do estado, com fomento de novos polos.

Os recursos gerados pelo PIM, fortalecido por um aperfeiçoamento do modelo fiscal e pelo aumento de competitividade, é que financiarão a nova economia. De acordo com Thomaz Nogueira, consultor em direito tributário e ex-superintendente da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), é necessário aproveitar a cultura tecnológica e a capacidade de gestão empresarial construídas na capital ao longo da história. Em recente artigo, o especialista reforça: “A diversificação vem pelo adicionar e não pelo substituir. O PIM é o mecanismo que vai nos dar, nas próximas duas décadas, os meios e recursos para esse processo de adição à matriz produtiva”.

Capital da bioeconomia?

A expansão das queimadas e do desmatamento nos últimos anos escancarou a urgência por uma agenda econômica aliada à conservação. E, nisso, o Amazonas, impulsionado pela capital, reúne vantagens comparativas: além da tradição industrial, mais de 90% do território estadual permanece coberto por florestas.

“Somos o único estado brasileiro que tem floresta em abundância e, ao mesmo tempo, um ecossistema industrial forte em tecnologia da informação e comunicação, mas é preciso fazer a ponte entre os dois mundos. Falta uma conexão entre a biodiversidade e o que está sendo produzido, e de que forma, no Polo Industrial. E uma maneira de juntar essas pontas é por meio da discussão da bioeconomia e a relação com as cidades”, analisa a economista Tatiana Schor, à frente da Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação, no governo estadual.

Na análise de Schor, há o desafio de arrumar a casa na gestão pública, porque o meio urbano tem importante papel no desenvolvimento da bioeconomia dentro de quatro princípios: conservação da biodiversidade, diminuição das desigualdades socioterritoriais, incorporação de ciência e tecnologia nas suas mais diversas escalas e expansão das áreas florestadas biodiversas. Há quase 20 anos, a professora do Departamento de Geografia da Ufam estuda o tema de cidades e redes urbanas no Amazonas na relação com os mercados dos recursos naturais da sociobiodiversidade. É uma dinâmica que costuma ser invisível: “Corremos o risco de perder várias oportunidades no meio do caminho quando passamos a falar só de bioeconomia e menos de desenvolvimento sustentável”.

O Programa de Bioeconomia do Amazonas, inserido no Plano Plurianual do Estado, reforça as cidades e seus desafios de qualidade de vida como elemento-chave no contexto de uma nova matriz de desenvolvimento econômico somada ao que já foi historicamente construído pela Zona Franca de Manaus (ZFM). O modelo tem inspiração no conceito de “biópolis”, como ocorreu em Singapura no início deste século com a política pública de urbanismo reconhecida internacionalmente por unir o ecossistema de alta tecnologia médico-hospitalar à abertura de espaços culturais e áreas verdes.

Para haver bioeconomia, as cidades precisam ser atrativas, com estrutura de conectividade bem resolvida, mobilidade urbana, circuitos culturais e serviços públicos de melhor qualidade, como na educação, saúde, segurança e saneamento básico. “Se não tratarmos o tema da ilegalidade, do desmatamento, das nossas facções e milícias e do tráfico de drogas que está dominando os territórios, daqui a pouco não teremos bioeconomia porque ninguém vai entrar na floresta”, adverte a secretária executiva.

São pontos estratégicos não somente ao acesso a mercados para o desenvolvimento dos negócios como também à fixação de jovens e à atração de cérebros em busca de oportunidades em novas fronteiras, com o surgimento de startupsspin-offs e outros modelos de empreendedorismo e inovação. “Quem olha para o futuro não fica em cidade sem internet, vida cultural e calçada”, ressalta Schor, lembrando que o problema não é mais tanto a distância geográfica, mas sim a digital.

Além do mais, os negócios em bioeconomia, principalmente no beneficiamento e agregação de valor dos produtos nos locais de origem, precisam de estrutura de laboratórios para o controle de qualidade da água e análises fitossanitárias, por exemplo – um desafio até mesmo para Manaus, como hub dessa rede a ser desenvolvida.

Ao olhar para a floresta no afã de um novo ciclo econômico, com atividades mais diversificadas e baseadas nas soluções da natureza, a cidade mexe no redemoinho de valores urbanos em torno da complexa interface entre meio ambiente e desigualdade social. A existência da imensidão verde pode permanecer no imaginário como um empecilho ao progresso ou ser tratada como um ativo econômico a ser valorizado no mundo em xeque-mate devido às questões socioambientais e os riscos de escassez de recursos vitais, como a água, aquela que existe em abundância no Rio Negro, à frente de Manaus. Na visão de Schor, não enxergá-lo representa um esquecimento sem sentido prático, sabendo-se que o rio nutriu a expansão da metrópole por meio da extração de areia usada na construção civil. Além disso, em suas margens, na área urbana e periurbana, existem hoje pelo menos 58 atracadouros de barcos que servem ao transporte fluvial. “Estar de costas é uma condição mais associada à classe média-alta, fechada em condomínios que se apropriam da floresta como um muro”.

É na metrópole onde está concentrado o poder do consumo da população, inclusive na demanda por segurança e soberania alimentar; e as instâncias decisórias, como grandes empresas ou órgãos públicos, que adotam políticas de compras institucionais sustentáveis com reflexos na produção – e conservação – da floresta. “Bioeconomia para quem?”, questiona Thiago Uehara, pesquisador da Chatham House, em Londres, com experiência em trabalhos de campo sobre o tema em comunidades rurais, nos arredores de Manaus. Segundo ele, a bioeconomia precisa beneficiar não unicamente o capital estrangeiro, mas quem vive na região, seja da cidade de Manaus ou municípios vizinhos, como “atores e ativos centrais nessas dinâmicas de desenvolvimento”.

Ele lembra que o caso de Singapura e sua biópolis, aqui citado, é de grande sucesso e visibilidade mundial devido ao crescimento econômico das últimas décadas, conectado a mercados globais, mas esconde expressiva desigualdade social. “A finalidade não deve ser apenas os indicadores econômicos, mas o bem-estar e a equidade social”, afirma Uehara ao destacar o papel das compras públicas em gerar benefícios públicos à sociedade, olhando para os pilares da sustentabilidade para além da questão ambiental (leia mais no capítulo 4).

Redes de conhecimento

No livro Dinâmica Urbana na Amazônia Brasileira – As Vilas e a Urbanização no Amazonas, lançado em 2021, Tatiana Schor chama atenção para a função das cidades no sentido de viabilizar um novo padrão de desenvolvimento regional, ao centralizar a organização das relações sociais e da produção. O diferencial está na pegada da conservação, que é a vantagem competitiva como região – e Manaus, pelas óbvias razões do gigantismo, tem protagonismo na agenda interconectada com os menores municípios.

A metrópole concentra estruturas de mercado, decisão política e capital humano qualificado a desfazer os nós das redes de conhecimento produtivo da floresta, conceito mais integrador que Schor prefere utilizar no lugar de “cadeias produtivas”. Instituições de referência, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Museu da Amazônia (Musa), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e a Ufam, entre outros, se destacam como ícones desse patrimônio intelectual em Manaus. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por exemplo, sedia o Forest Business School, visando avanços da qualificação em bioeconomia, e mantém unidades acadêmicas em diversos municípios amazonenses.

Juntamente ao acervo de cérebros da capital, no interior há uma grande teia de inteligência normalmente invisível, segundo Schor, também coidealizadora da Rede Recursos Humanos e Inteligência para a Sustentabilidade na Amazônia (Rhisa). Com 100 mil membros e instituições cadastradas, a plataforma colaborativa mapeou os espaços ocupados por pesquisadores para além dos papers científicos, com importância no interior do estado pelo trabalho de chão sobre o conhecimento da floresta.

É urgente a economia digital conversar com a floresta na perspectiva de saltos na demanda da bioeconomia e de uma nova relação com a sustentabilidade. “Nosso grande desafio para evoluir está em dois eixos: energia elétrica e internet”, aponta Vânia Thaumaturgo, presidente da Associação do Polo Digital de Manaus. “A transformação digital vem ocorrendo há algum tempo e é um caminho sem volta, com alto potencial na geração de renda e emprego, além de base para o surgimento de matrizes econômicas”, diz.

O Polo Digital se estruturou gradativamente, de maneira orgânica, como resultado dos investimentos em tecnologia previstos na Lei de Informática, criada há 30 anos no nível federal, com especificidades para a Zona Franca de Manaus. “Precisávamos nos organizar como um ecossistema e começamos a realizar a feira internacional, que, na segunda edição, em 2019, reuniu 25 mil visitantes e mais de 100 palestrantes do Brasil e do mundo”, conta Thaumaturgo. Atualmente, o polo reúne instituições tecnológicas, universidades, grandes empresas, incubadoras de negócios nascentes, aceleradoras e startups de diversos perfis, no total de 8 mil colaboradores com renda média de cinco salários mínimos.

Até o momento, a principal linha de atuação dos investimentos da Lei de Informática tem sido em tecnologias específicas para o setor eletroeletrônico, o maior da Zona Franca, mas há um movimento recente no sentido da diversificação. Manaus pode ganhar visibilidade e se diferenciar de outras capitais – como Recife e Florianópolis, também famosas pelo ecossistema digital – diante do que a floresta tem a oferecer, mantendo-se conservada.

Da biotecnologia para várias finalidades, como na indústria da saúde e alimentação, transporte, turismo e gestão ambiental no novo mundo do mercado de carbono, o céu é o limite para as aplicações que estão por vir. Um dos exemplos, segundo destaca Thaumaturgo, é a aeronave aquática que está sendo desenvolvida por uma startup local em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e que já conseguiu sobrevoar quatro metros acima do rio. “O potencial de tudo isso é altíssimo, mas precisamos de políticas públicas voltadas à capacitação técnica e educação de base para avançar”, ressalva. Inovação é ingrediente básico da relação da maior metrópole da Amazônia com a floresta.

ONGs olham para os bionegócios

No desafio de transformações, a capital do Amazonas é também aglutinadora de ONGs de vários portes – instituições da sociedade civil que exercem papel fundamental na interlocução com comunidades e lideranças, empresas, academia e poder público para impactos positivos no chão da floresta. Na última década, essas organizações evoluíram no processo de gestão para credenciamento a recursos financeiros nacionais e internacionais destinados à Amazônia, mobilizando parcerias para estratégias, políticas e ações socioambientais com maior efetividade.

Empreendedorismo e visão de negócios, associados ao uso sustentável da biodiversidade, conquistaram espaços na agenda das ONGs. “É necessário integrar modelos avançados e tradicionais de modo a sair de um perfil apenas extrativo-vendedor, de modo que a região se veja mais como cliente, ou seja, como demandante de soluções tecnológicas”, explica Carlos Koury, diretor de Inovação e Bioeconomia do Idesam.

A ciência já mostrou o caminho na direção da biotecnologia florestal, agora apoiada com visão de mercado, gerando as bases de produção nas comunidades, com capilaridade de negócios para atendimento de novas demandas e maior escala nas soluções, diz Koury, paulista com passagem profissional por Belém (PA) antes de sentir-se atraído pelos desafios do binômio desenvolvimento-conservação da floresta no Amazonas – estado que, há cerca de 20 anos, avançava na criação de áreas protegidas de uso sustentável.

Em 2004, o engenheiro florestal se juntou ao time sob a liderança de Mariano Cenamo na fundação do Idesam, sediado em Manaus e responsável à época pelo plano de gestão da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uatumã, uma das mais expressivas unidades de conservação no âmbito da política pública estadual que se implementava. Foi uma história de lições aprendidas para novos voos da instituição em projetos voltados à inovação na floresta, hoje em destaque no portfólio, a exemplo da aceleradora de negócios de impacto AMAZ.

A ONG manauara coordena o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), instituído pela Suframa com objetivo de catalisar para o setor uma parte dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento que as empresas de tecnologia de informação e comunicação, instaladas na região com benefícios fiscais, são obrigadas a realizar conforme a Lei de Informática, no total de 5% do faturamento. Anualmente, esses recursos somam R$ 1 bilhão por ano, quase sempre aplicados em tecnologias digitais ou melhorias produtivas das fábricas de eletroeletrônicos. A ideia é que passem a contemplar, em maior volume, também negócios inovadores no uso sustentável da biodiversidade.

Ao intermediar a relação entre as indústrias e os institutos de pesquisa e startups, o trabalho com o PPBio busca viabilizar inovações amazônicas no mercado, principalmente no campo da biotecnologia para novos produtos, beneficiamento, agregação de valor, produção de baixo impacto e soluções de logística. A principal estratégia é o desenvolvimento de comunidades de bionegócios, voltados a resolver gargalos nas cadeias de produtos da sociobiodiversidade, com efeito na redução do desmatamento e mitigação da mudança climática. “Faltava uma visão integrada para entrega de soluções, de forma a melhorar o ambiente dos negócios na floresta, com inclusão social”, ressalta Carlos Koury. Após o sucesso da primeira chamada pública “Elos da Amazônia” para projetos na cadeia do açaí, o Idesam lançou, em 2022, uma segunda seleção, destinada à castanha-do-brasil e óleos vegetais.

De acordo com Koury, Manaus precisa assumir o papel de capital da biotecnologia, conferido pelo Macrozoneamento Ecológico-Econômico da Amazônia Legal, conforme decreto federal de 2010. “Obviamente, não é uma questão de esquecer o eletroeletrônico. Pelo contrário, deve-se fortalecê-lo de modo que a arrecadação reverta em investimentos no uso sustentável, com novo olhar para da floresta”.

Cortina de fumaça

Segundo pesquisadores, vista como cidade-estado por concentrar a população e o Produto Interno Bruto (PIB), Manaus influencia o que acontece ao redor e tem capacidade de induzir um futuro próspero para a floresta. “No geral, os manauaras reconhecem o valor da origem amazônica, mas trata-se de uma relação nostálgica, porque falta uma expressão econômica pulsante entre a capital e a riqueza natural do interior. É preciso fazer a conexão para se evoluir nesse convívio”, enfatiza Koury.

Muitas vezes, a lembrança da localização em meio à floresta vem na estação seca, quando não raro a fumaça das queimadas do entorno cobre de cinza a paisagem urbana, em Manaus. Além do impacto ambiental com a emissão de gases-estufa em tempos de agravamento da mudança climática, a fuligem de árvores carbonizadas causa alta incidência de doenças respiratórias.

Em agosto ou setembro, a poeira faz a garganta arder e suja móveis e objetos das casas, mas há sempre moradores que negam vir da floresta. “Quem reclama das queimadas é acusado de jogar contra o País”, diz Carlos Durigan, diretor do WCS Brasil, ONG voltada à conservação e manejo de recursos naturais, sediada na capital amazonense. “Um dia, quando a neblina de fumaça passar, e, quem sabe, as mentes se abrirem, a espécie humana enfim verá a importância do momento que vivemos”, afirma.

Há quase 30 anos na Amazônia, o geógrafo defende o resgate urbano da relação com a natureza. Ele conta que a floresta impermeabilizada forma uma ilha de calor que tranca as pessoas em ambientes fechados com ar condicionado, como bolhas em condomínios, shopping centers ou dentro das casas em bairros de baixa renda. “Quando há enchentes, o lixo circula pelas águas, mas as pessoas ficam mais preocupadas com a possível invasão de cobras e lagartos”, conta o ambientalista.

Fabiano Silva, coordenador executivo da Fundação Vitória Amazônica, aponta: “As estratégias rurais estão cada vez mais impactadas pelo que vem da cidade, não planejada para integrar a floresta que já existia nela, em sua origem”. Segundo ele, as cidades precisam ser pensadas de outra forma na Amazonia, entendendo o papel no território, e não à luz de modelos externos. Em Manaus, é necessário um zoneamento ecológico-econômico: “A metrópole tem um papel indutor – social, ambiental e cultural – bastante determinante, e o distrito industrial direcionado também às características amazônicas mudaria a visão das pessoas sobre a floresta”.

Na análise de Silva, os pontos críticos estão no avanço das ocupações irregulares, mais conhecidas na cidade como “invasões”, na falta de saneamento com a poluição pelo esgoto e resíduos sólidos, na violência do tráfico de drogas e nos impactos da especulação imobiliária, com o avanço urbano sobre as Áreas de Preservação Permanente (APP) que protegem os cursos d’água. De acordo com ele, antes da revisão do Código Florestal, em 2012, com regras mais flexíveis no meio urbano, existiam nessas áreas mais de 5 mil edificações irregulares listadas pelos órgãos de controle para Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Depois da nova lei, o número caiu para 1,7 mil.

Uma metrópole peculiar

O ambientalista tem participado das discussões em torno das dinâmicas urbanas de desenvolvimento por meio de estudos para suporte ao planejamento e a proposta de redefinir conceitos para os treze municípios da Região Metropolitana de Manaus. É uma das maiores do País, somando 127 mil km², mais extensa que o território de Portugal. “Na área, os municípios são conectados espacialmente pela floresta com produção de alimentos e fluxo humano, havendo dificuldade de se compartilhar uma agenda de serviços públicos integrados, como é o caso de consórcios de aterro sanitário”, explica. Junto a isso, mudanças de hábitos alimentares, com maior consumo de produtos industrializados e descarte de embalagens, aumentam o desafio da gestão dos resíduos.

Em paralelo, enfatiza Silva, “comunidades ribeirinhas são reféns da vulnerabilidade social e do crime organizado, que tem Manaus como hub de distribuição de drogas após a entrada pela fronteira amazônica”. Ele diz que a capital não deve permanecer encolhida como uma ilha de concreto cercada de verde, e que, na Região Metropolitana, há um bom modelo de busca por soluções, em Novo Airão (AM): “O município não vê mais a existência de áreas protegidas de floresta como empecilho à economia, mas como atração de investimentos e indutor de desenvolvimento, com polo naval e hotéis de selva cinco estrelas”.

“Estar na Amazônia confere singularidades para a relação entre cidade e floresta, o que exige reflexão por conta do nicho urbano relativamente pequeno diante da área florestal rural muito grande”, concorda Tiago Jacaúna, presidente do Observatório da Região Metropolitana de Manaus. É um território atípico no País. Ao contrário de outras metrópoles, a área reúne tanto os problemas de uma zona rural como as ameaças da própria expansão urbana, dentro de um complexo de alta diversidade social e ecológica. “O debate atual, muito importante, é como o planejamento pode integrar municípios hoje com políticas desarticuladas”, afirma o professor do Departamento de Ciências Sociais da Ufam.

O desafio, segundo ele, é somar alternativas econômicas para descentralizar renda por meio de atividades de baixo impacto ambiental, envolvendo as três esferas de governo. “Quando se mostra a Amazônia como um vazio demográfico com fronteiras que precisam ser ocupadas, o resultado é o esquecimento dos problemas urbanos”, pondera Jacaúna. Na capital do Amazonas vive mais da metade da população estadual, com graves problemas de degradação ambiental – ilhas de calor, poluição do ar e falta de arborização que, na análise do professor, representam um paradoxo em meio à Amazônia. “Como manauara, se não formos em busca da natureza, como o lazer dos balneários do Rio Negro, a natureza não vem até nós”, ilustra o professor, hoje dedicado a estudar como a agenda climática está sendo incorporada pelos municípios da Região Metropolitana.

Manaus e a emergência climática

A capital amazonense figura entre as 25 maiores cidades emissoras de gases do efeito estufa no Brasil, gerados sobretudo pela energia termelétrica e resíduos urbanos, segundo a plataforma SEEG, do Observatório do Clima. Além disso, por concentrar as atividades econômicas e mais de 60% da população estadual, a metrópole é estratégica para o plano de neutralização de carbono lançado pelo Amazonas em 2021, na perspectiva de atrair investimentos e avançar na Política Estadual de Mudança Climática, criada em 2007 e ampliada em 2020. No entanto, o município não tinha, até março de 2022, um plano de ações para a mitigação de emissões e adaptação aos impactos já em curso em todo o planeta.

No site da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a única referência ao tema da mudança climática está em um dos nove capítulos da minuta do novo Código Ambiental de Manaus, que entrou em consulta pública em 2021. O documento, porém, estabelece apenas princípios genéricos para uma futura política municipal neste campo, sem apresentar – neste estágio do processo – metas e ações para alcançá-las.

A Prefeitura de Manaus participou, em 2017, de uma oficina do Projeto CiAdapta: Mudança Climática e o Processo Decisório de Manaus, promovida pela Universidade de São Paulo (USP) e o Observatório da Região Metropolitana de Manaus, com o objetivo de discutir os riscos e as estratégias de mitigação e adaptação. “Precisa haver integração com as demais agendas municipais, como da mobilidade, resíduos, energia e planejamento, sem estar restrita à área ambiental”, recomenda Jacaúna.

No Brasil, diferentes capitais já elaboraram e aprovaram planos de ação climática, a exemplo do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Salvador, que tiveram apoio no âmbito da rede global C40 Cities. Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no início de 2022, reforça a urgência da adaptação das cidades com medidas que reduzam riscos de desastres ambientais que afetam a economia e, principalmente, as condições de vida da população mais pobre das periferias. Em lugares mais desemparados, a mortalidade causada por eventos climáticos extremos foi quinze vezes maior, na última década, do que em regiões mais adaptadas.

Entre as ameaças, Manaus apresenta alto índice de vulnerabilidade ao impacto de vazantes e cheias dos rios, como ocorreu na maior enchente da história do Amazonas, em junho de 2021 — eventos extremos que deverão ficar ainda mais frequentes e intensos devido ao aquecimento global, com consequências catastróficas se o aumento da temperatura do planeta atingir 5 graus até o final do século em comparação ao período pré-industrial.

A questão acende o sinal de alerta sobre a forma de lidar com a Floresta Amazônica. Manaus, como maior metrópole desse importante sumidouro de carbono do planeta, apresenta riscos, mas também oportunidades na chamada “economia climática”. Nesse contexto, o olhar estratégico requer especial atenção, tanto no contexto das políticas econômicas como no planejamento urbano.

Revitalização à vista

Do início da década de 1970, com a implantação da Zona Franca de Manaus, até 2010, a população cresceu sete vezes, e o território urbano, 25 vezes: “Ocorreu um intenso processo de espraiamento, uma explosão sem controle pelo poder público”, revela Pedro Paulo Cordeiro, arquiteto e urbanista do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), com experiência de 23 anos no setor. Em 1975, lembra o especialista, até foi criado um instrumento para evitar o pior com a expansão sobre a floresta: o Plano de Desenvolvimento Local Integrado, não seguido pelos governantes subsequentes.

Ele destaca que, atualmente, a principal iniciativa consiste na valorização da orla para a população conviver em maior harmonia com o Rio Negro, na zona central da cidade – e não apenas na praia da Ponta Negra, bairro que hoje concentra os atrativos de lazer. O programa Nosso Centro reúne 34 ações para a revitalização do território em quatro anos por meio da promoção de novos negócios e startups de inovação. Entre as áreas trabalhadas figura o Mirante da Ilha, que permitirá avistar o rio, junto a uma marina, um teleférico e um novo espaço cultural e gastronômico.

“A estratégia é ocupar os eixos viários já abertos e ainda sem muitas habitações, evitando espraiamento maior da cidade”, ressalta Cordeiro. Ele adverte que Manaus continua crescendo de forma preocupante, no compasso do êxodo resultante da falta de oportunidades e infraestrutura no interior. “Temos que adensar áreas urbanas já ocupadas, e não mais expandir sob o risco de impactos à floresta”, explica. No entanto, o adensamento acima de determinado nível acaba por agravar problemas sociais em conglomerados populacionais de baixa renda da cidade (veja no capítulo 5).

Segundo dados do Implurb, só 12% das calçadas estão adequadas para uso. Caminhar nessas condições, além do calor ao sol ou da chuva intensa no inverno amazônico, não é uma tarefa fácil – exceto para o artista plástico Otoni Mesquita, habituado a andar a pé pelas ruas cidade na busca de referências regionais para a produção da sua arte, objeto de exposições em espaços culturais importantes da cidade. São madeiras, ossos de animais, grafismos amazônicos. “O objetivo é a sensibilização das pessoas para o meio ambiente, principalmente a redução do lixo que vai parar no Rio Negro”, revela Mesquita, também jornalista com doutorado em História.

“A minha ligação com a floresta vem da academia”, diz o artista, incomodado quando lê sobre políticas que conservavam os igarapés no século XIX e vê o atual distanciamento entre a cidade e a natureza. Ele conta que, após a visão de progresso imposta pelo início da ZFM, ocorreram movimentos de resistência, principalmente na Ufam e no INPA, contra a derrubada de árvores. “Éramos cercados na avenida Constantino Nery por batalhões com cacetete”, diz Mesquita.

A sensibilização para os valores amazônicos impressos no imaginário da metrópole inspira o diálogo para avanços no direito ao meio ambiente saudável. “Manaus representa uma grande contradição, com o majestoso Rio Negro à frente e, por trás, a floresta engolida pelo contínuo espalhamento urbano”, destaca Neliton Marques, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Ufam. Ele integra o movimento Ficha Verde, criado na capital amazonense no contexto das manifestações de rua que marcaram a vida política do País em 2013, no rastro do debate anticorrupção em torno da Ficha Limpa, mas com um propósito diferente: mobilizar atores locais e suas redes para fortalecer a sociedade na cidadania ambiental, com influência da temática nas urnas.

A importância do voto

O primeiro ato, nas eleições municipais daquele ano, foi engajar os candidatos na assinatura de uma carta-compromisso com temas prioritários. Em outra frente, o movimento participou da proposta de criar no município uma Área de Proteção Ambiental (APA), conectando fragmentos florestais para a conservação do sauim-de-coleira, primata endêmico da Região Metropolitana de Manaus. Além disso, por meio da mobilização do governo e sociedade, a espécie, criticamente ameaçada de extinção, foi reconhecida por decreto municipal como símbolo da cidade (leia no capítulo 3).

Com apoio do movimento Ficha Verde, foram empreendidas ações em defesa do Encontro das Águas, principal cartão-postal da cidade, sob o perigo da construção de um novo porto para o Distrito Industrial. “Vivemos o equívoco do mito da abundância, pelo qual a fartura de água e floresta ao lado, na Amazônia, fecha os olhos para os espaços verdes na cidade”, lamenta Marques, assíduo nos momentos de lazer e inspiração a bordo de seu barco nos rios da região.

Para ele, “valores culturais marcantes, como a farinha e o peixe, não são suficientes para imprimir identidade e influenciar tanto a qualidade de vida com conservação de fragmentos florestais, como a escolha de governantes e políticos condizentes com essas expectativas”. Impera, segundo o pesquisador, a cultura do paternalismo e o afã de resolver o problema individual, não o coletivo.

Na visão de Luciana Montenegro Valente, servidora do Ministério Público Federal (MPF) e integrante do Ficha Verde, a questão tem origem histórica: “É como a ‘tragédia dos comuns’, vinda dos tempos de Manaus como a Paris dos Trópicos, no ciclo da borracha, identificada com o estrangeiro, não com as raízes indígenas”. Ex-secretária municipal de Meio Ambiente (2005-2008), Valente enfrentou a reação das construtoras contra normas de tratamento de esgoto e costuma fazer referência à famosa canção “Porto de Lenha”, de Zeca Torres e Aldisio Filgueiras, “hino” de Manaus na década de 1970. No verso “Tu nunca serás Liverpool”, uma crítica ao saudosismo da borracha, cuja decadência deixou a economia – e a autoestima do povo – em frangalhos.

Porto de Lenha, tu nunca serás Liverpool…

Com uma cara sardenta e olhos azuis

Um quarto de flauta

Do Alto Rio Negro

Pra cada sambista paraquedista

Que sonha o sucesso

Sucesso sulista

Em cada navio

Em cada cruzeiro

ZECA TORRES E ALDISIO FILGUEIRAS,
NA CANÇÃO “PORTO DE LENHA”

“Não dá para continuar neste caminho, sem perceber o diferencial de estar na Amazônia”, afirma Valente, para quem um desafio é descolonizar o pensamento, reconhecendo e valorizando a face indígena e os fragmentos florestais, por exemplo. Daí a importância das vozes que não se calam e dos sinais de alerta vindos de movimentos como o Coletivo Floresta Manaós, que somou forças ao Ficha Verde e conseguiu o veto ao Projeto de Lei 280/2020, que pretendia retalhar a Área de Proteção Ambiental Floresta Manaós para favorecer a construção de um empreendimento.

Raízes culturais da floresta

Apesar do ideário urbano como um muro que separa da floresta, Manaus acolhe tradições que sinalizam a origem amazônica

“Envelhecido de entrega do eu que pouco assumi, o espelho de minhas águas se embaça ao me refletir/Me percebo em face estranha com bizarra maquiagem, ressaltando em meu semblante traços de outras paisagens/Perdido de mim, alheio-me dos sabores do meu chão/ Vago rios, mirando mares, mergulhado em solidão/O meu deus, ambíguo sonho, mestiço na minha fé, ora é sacrário de padre, ora é rito de pajé/Quando em lampejo de sonhos me embalo no tapiri, vejo trançada nas palhas a face que já perdi/Qual marcas na baladeira das penas que eu abati, no rugário do meu rosto as vezes que já morri”

CELDO BRAGA, POETA E CANTOR, MEMBRO
DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES

No jardim da casa no bairro Santo Antônio, em Manaus, um pé de pião-roxo e outro de pião-branco se destacam logo na entrada, “para afastar os maus espíritos”. Ao lado, uma árvore-de-cuia, também conhecida como cabaceira, compõe o microclima do verde em meio ao calor da tarde na metrópole. Mais que isso, aqueles frutos na forma de grandes bolas ocas inspiram sonoridades para a poesia de Celdo Braga, compositor e cantor que tem a produção artística – e a vida – marcada pela relação com a floresta. Ao seu lado, o percussionista e parceiro João Paulo Ribeiro, o JP, ouve com atenção as histórias do anfitrião para depois mostrar relíquias que a dupla guarda na sala.

Em 40 anos de trabalho, 30 deles no interior, em Benjamin Constant (AM), Braga destacou-se como integrante do grupo musical Raízes Caboclas: “Devido ao convívio com a floresta, temos o olhar apurado para uma realidade que muitas vezes não percebemos”. Ele conta que viveu conflitos de identidade em consequência de estereótipos por viver tão longe dos centros econômicos, mas encontrou, justamente nas tradições culturais, o caminho para dar a volta por cima. “Dediquei-me a cutucar a vergonha de quem não sabe verbalizar o valor das nossas coisas”, revela o cantor. Ele reforça que é raro o manauara conhecer nomes de árvores, porque falta uma relação de pertencimento junto aos símbolos ligados à floresta. “Nos lugares onde tocamos, levantamos o tema nas entrelinhas das canções, e as pessoas, muitas vezes, choram”, diz.

Licenciado em Letras, o poeta e músico, também membro da União Brasileira de Escritores, extrai da floresta e da cultura amazônica os elementos trabalhados em suas obras, como na composição “Sementes Sonham”:“Semente se veste de fruto bonito/não raro cheiroso de bom paladar/talvez sugerindo a quem o desfrute/lembrar do saber e querê-la plantar/nem sempre a pessoa que come uma fruta/entende a permuta que a polpa insinua/vi tantas sementes jogadas no lixo/às vezes à toa no meio da rua/não sei até quando a mão insensata/que a vida maltrata entenda o valor do gesto gratuito da mãe natureza/que pare oferendas do pai criador”.

A influência da floresta e o poder de observação lhe fizeram admirar os mais velhos e indígenas com os quais conviveu. Segundo Braga, o homem amazônico, na sua grande maioria, ainda não despertou para o valor da poesia sonora e paisagística. “Tenho registro de 43 municípios do Estado do Amazonas, e em todos eles os bancos de madeira em espaços públicos são colocados de frente para a rua e de costas para os rios”, relata o poeta em trabalho de pesquisa realizado pelo INPA.

Para o artista, predomina uma negação social da paisagem – o que, em Manaus, adquire ainda maior dimensão, requerendo um especial processo de educação. “Fazemos a nossa parte na música”, afirma o poeta, com sonho de percorrer o Igarapé do Mindu, da nascente à foz, para conscientização com palestras e shows, utilizando instrumentos musicais confeccionados por JP com materiais da floresta. “Queremos criar a primeira orquestra sinfônica do mundo com bioinstrumentos”, revela Braga.

Da cuia que imita sons de sapo a sementes de vagens amazônicas que funcionam como chocalho, uma amostra das muitas possibilidades está cuidadosamente guardada em uma espécie de showroom na casa. São, ao todo, 70 peças, como instrumentos que reproduzem a vocalização de macacos guariba demarcando território. Madeiras inspiram tambores. O sopro na folha de manacá plagia o canto do tucano na mesma nota e frequência: “Isso resgata práticas antigas do interior distante, em que os músicos ‘tocavam’ em folhas porque não havia instrumento musical”. Esses e outros materiais conferem a instrumentos de corda a sonoridade amazônica – potencial trabalhado em cursos de percussão no Liceu de Arte Claudio Santoro, com plano de replicar o conhecimento e aumentar a conexão com os sons da floresta.

Patrimônio imaterial

Na Festa do Boi, seja na paixão pelo azul do Caprichoso ou pelo vermelho do Garantido, Manaus absorveu a tradição que marca a grandiosa “Ópera da Floresta” no mês de junho em Parintins (AM), a 370 Km da capital. Na metrópole, o espetáculo das torcidas ganha vozes cosmopolitas, mas é pelo paladar que o manauara é mais fisgado pelas heranças culturais da Amazônia. Apesar de importar de outras regiões brasileiras grande parte dos alimentos que consome, a capital manauara tem a alimentação recheada de simbolismos regionais. Um exemplo marcante é o x-caboquinho, sanduíche com polpa de tucumã, banana regional e queijo coalho – sem falar do consumo de peixes, como o popular jaraqui, tombado como patrimônio imaterial de Manaus, sobre o qual reza a lenda: “quem come não sai mais daqui”.

chef de cozinha manauara André Luiz Parente, o Dedé, dono de famosos restaurantes em Manaus, coloca o sabor da floresta em receitas que misturam tradição e contemporaneidade. De criação em criação, vêm lembranças sobre a existência da floresta ao redor, como é o caso das folhas de jambu que fazem tremer a boca em vários itens do cardápio. Ou, então, da apreciada ventrecha de pirarucu (a carne da barriga) autenticamente defumada para se transformar em algo semelhante ao bacon. “O plano é ajudar comunidades amazônicas que fazem o manejo do pescado na natureza a fazer também a defumação como forma de uma maior valorização do produto”, revela Dedé.

Em região cheia de desigualdades, o lado social da gastronomia se destaca no trabalho do chef, como no apoio ao restaurante indígena Miskui, na comunidade Três Unidos, no entorno da capital. O projeto uniu oficinas de culinária e turismo para que um grupo de mulheres locais, marcadas por uma difícil história de exclusão, obtivessem renda com as delícias do conhecimento tradicional. Dedé compara: “Elas conservam a Amazônia como guardiãs nos quartéis”.

No clima quente e úmido, os materiais de origem vegetal e a estética orgânica da floresta poderiam marcar uma relação mais íntima entre a metrópole e a natureza também na arquitetura. A vida real cosmopolita está bem longe disso, na urbanidade impregnada pela economia industrial e pelos olhares no que vem de fora, sem identidade própria desde os tempos áureos da borracha. Entretanto, para o arquiteto Sérgio Santos, nada está perdido; há inteligência para a mistura do orgânico com o sintético, da cultura de raiz com busca da praticidade e durabilidade de prédios e moradias na cidade moderna.

“Sofri preconceitos e críticas no passado, como se tivesse cometido um atentado ao progresso, mas aos poucos fomos conquistando elogios”, conta o arquiteto, que tem a característica de trazer para a metrópole a arquitetura adaptada à realidade amazônica. Além da Torre do Musa, o Museu da Amazônia, Santos projetou a maloca do centro comunitário do Parque das Tribos (veja no capítulo 4), misturando aço a madeira de reúso tirada de barcos, além de grafites com temáticas indígenas, com patrocínio da Embaixada da França. “Devemos valorizar a estética das árvores, das sementes e dos paneiros, mas também fazer mais com menos, como se tivéssemos a última madeira para usar”, afirma.

Da biodiversidade da floresta provém a inspiração para o sucesso do artesanato em peças de madeira produzidas pelo indígena baré Célio Arago, filho de carpinteiro construtor de casas e autodidata que aproveitou o conhecimento tradicional no novo negócio. Da comunidade Nova Esperança, Baixo Rio Negro, os produtos chegam à capital e de lá partem mundo afora no rastro das vendas em marketplaces de grandes redes de varejo na internet. O carro-chefe são as arraias esculpidas em madeira, um trabalho iniciado há uma década, após o artesão se mudar da periferia da capital para a tranquilidade do povoado de origem, onde atualmente mobiliza e ensina os filhos e outros jovens locais para repetir a história e obter renda no ofício.

“Muitos na cidade têm a visão que a vida na floresta é difícil, mas quando conhecem a nossa realidade mudam de opinião: temos escola, médicos, cultura que preservamos. Já os povos da floresta olham a cidade como oportunidade: incentivamos os jovens a ir estudar e voltar já formados para ajudar as comunidades. No passado, os mais velhos só iam para Manaus fazer compras e voltar, tirar documentos ou resolver burocracias; agora, os mais jovens olham como chance de um futuro melhor”.

No cais do porto, histórias de vida

Símbolo desse vaivém de pessoas e produtos nos rios entre a capital e o interior, o chamado Porto da Manaus Moderna, à frente da mais popular feira da cidade, é porta de entrada e saída não somente para o fluxo do comércio, mas para as pessoas que carregam histórias de vida, planos, sonhos de mudança. Assim entranhado no cotidiano urbano, à beira do Rio Negro, o lugar é cenário de pelo menos dois projetos culturais que ilustram a relação com a floresta.

O grande muro que margeia o rio, com as escadas de acesso aos atracadouros, se tornou espaço de trabalho para o artista plástico Luiz Antonio Ferreira no propósito de dar vida nova a um local abandonado e degradado pelo sobe e desce das águas. Ele coordenou um projeto de pintura de mural que decorou uma extensão de 700 metros daquele paredão com ícones da fauna, flora e povos da Amazônia. Da vitória-régia ao guaraná, da seringueira aos rostos de etnias indígenas, a iniciativa envolveu quinze artistas da cidade, bem ali à frente de quem embarca e desembarca no cais. “A ideia do painel, ao mudar as feições urbanas do lugar por meio da arte, foi despertar atenção e sensibilizar a autoestima da população para o valor dos símbolos amazônicos”, explica Ferreira. “Falta educação para uma cidade mais amigável”, completa, sem desanimar ao ver as pinturas já desbotadas pela ação natural das cheias e vazantes do rio.

Em outro projeto, o Porto da Manaus Moderna serviu de locação para o curta-metragem O Barco e o Rio, do diretor e roteirista manauara Bernardo Abinader, premiado no Festival de Gramado em 2020. O filme reforçou a figura de quem vive na maior metrópole da Amazônia ao contar o conflito de duas irmãs que cuidam de um velho barco na zona portuária – uma, mais conservadora e evangélica, quer permanecer ali; e a outra, de perfil mais alternativo, deseja se livrar das amarras e ir embora, fugindo das limitações da rotina e do sustento no lugar. “A história retrata o que acontece por sermos vulneráveis e esquecidos pelo Estado”, revela Abinader.

Ele pergunta: “Como viver em uma cidade apartada do restante do País, isolamento pior do que em uma ilha, porque aqui estamos cercados de floresta e rios, e a questão não é só pegar um barco e atravessar para terra firme”. Na busca por respostas, primeiro veio a experiência com o curta manauara urbano Os Monstros. Depois, na tentativa de vencer barreiras da produção audiovisual na região, surgiu a oportunidade para o primeiro filme profissional, selecionado em edital de apoio cultural da Prefeitura de Manaus, por meio da Manauscult. Após o sucesso de O Barco e o Rio nos festivais, a temática inspira o atual projeto de um longa-metragem sobre a vivência ribeirinha, “um lugar de dinâmica própria entre o urbano e o indígena, com ênfase nas contradições da influência evangélica”.

Com formação em Letras e mestrado em Literatura e Cinema, o diretor se diz invisibilizado pela narrativa externa da Amazônia como natureza, o que ocorre mesmo na metrópole que abriga um polo industrial e digital e toda uma gama de serviços compatíveis com esse perfil. “Não há filmes sobre a vivência manauara e o caos do crescimento desordenado; apenas sobre o romantismo da floresta com indígenas sem capacidade de reação – um olhar raso, sempre no lugar comum”, critica Abinader, hoje dedicado a apresentar uma perspectiva de dentro da cidade. “Quente e feita para carros, Manaus não é uma cidade para os fracos; o banho de rio é coisa de fim de semana, não do dia a dia, e o mato é para cortar e invadir”.

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