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Cientistas constatam que as maiores taxas de especiação – formação de espécies – de pássaros ocorreram em regiões com menor diversidade

Foram necessários mais de 40 anos de coletas, muitas expedições às mais remotas regiões tropicais do globo, realizadas por cientistas de 21 museus de diversos países, e análises do genoma de 1.300 espécies de pássaros para se desvendar um dos maiores paradoxos sobre a origem das espécies nos trópicos. Na região Neotropical, que se estende do México à Argentina, a taxa de formação de novas espécies é mais acelerada em ambientes instáveis e com climas mais extremos, como nos Andes tropicais, do que em áreas mais estáveis, como a bacia amazônica.

“Acreditava-se que regiões ricas em espécies de pássaros, como a Amazônia, eram também as que apresentavam as maiores taxas de especiação, e vimos que isso não é verdade”, afirma o ornitólogo e diretor científico do Museu de Zoologia (MZ) da USP, Luís Fábio Silveira, um dos autores do estudo que acaba de ser publicado na revista Science.

De acordo com o cientista, condições climáticas influenciam de maneira importante a diversificação das espécies. “Ambientes extremos parecem limitar a riqueza e a diversidade, mas ao mesmo tempo oferecem oportunidades para a especiação, enquanto ambientes mais estáveis ou moderados reduzem estas oportunidades, mas possuem baixas taxas de extinção e permitem a acumulação da diversidade, e por isso são tão ricos em espécies”, analisa Silveira.

“Filogenias robustas como a que apresentamos neste artigo provam que a grande maioria das espécies deste grupo se originaram recentemente, entre o final do período Plioceno e no Pleistoceno”.

O trabalho abre uma série de outras questões e sugere que os esforços de conservação para salvar as paisagens tropicais precisam se concentrar não somente em áreas como a Amazônia, que é rica em espécies, mas também em áreas com menor diversidade, como a puna fria e ventosa da Cordilheira dos Andes.

Estudando genes

Durante 40 anos, amostras de 1.300 espécies de pássaros foram coletadas e depositadas nos museus de história natural. Com base nesse material, os cientistas sequenciaram um total de 2.400 genes de cada uma destas espécies. Análises computacionais robustas permitiram à equipe desvendar os padrões de diferenciação e de especiação do maior grupo de pássaros tropicais, conhecidos como Passeriformes Suboscines. “Filogenias robustas como a que apresentamos neste artigo provam que a grande maioria das espécies deste grupo se originaram recentemente, entre o final do período Plioceno e no Pleistoceno.”

Para o pesquisador, este artigo, além de resolver uma questão importante sobre a biogeografia neotropical, é também importante para muitas outras áreas, como a taxonomia, a ecologia e para a conservação.

Como pesquisador e diretor científico do Museu de Zoologia (MZ) da USP, Silveira destaca que nos últimos 20 anos o MZ vem coletando espécimes que integraram o presente trabalho. “A coleção de aves brasileiras do nosso museu é a maior e mais completa do mundo, com um acervo que possui em torno de 118 mil exemplares”, contabiliza. Segundo o cientista, as equipes do MZ realizam cerca de seis a sete expedições anuais a diversas regiões do País. “Muitas dessas expedições foram fundamentais para que este artigo tivesse uma amostragem tão completa”, avalia.

Além de pesquisadores do MZ, o trabalho recentemente publicado na revista Science tem colaborações de cientistas ligados a dezenas de outros museus de história natural, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, no Pará. Muitos dos pesquisadores envolvidos no estudo são da América Latina (Colômbia, Brasil, Uruguai e Venezuela).

“Seria impossível produzir esse trabalho se não fosse a união em rede de cientistas de todo o mundo, e a ciência colaborativa é capaz de produzir resultados de grande impacto, que jamais seriam obtidos por apenas um ou poucos pesquisadores isolados”, diz Silveira.



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