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Estudo conduzido na Papua Nova Guiné, país com maior diversidade linguística do mundo, concluiu que o desaparecimento de línguas faladas no país está associado à perda de habilidades e conhecimentos locais

Em todo o mundo, são faladas mais de 7.000 línguas – a maioria delas por pequenas populações nos trópicos. Papua Nova Guiné, onde 9 milhões de pessoas falam 850 línguas, é o lugar com maior diversidade linguística do planeta.

Infelizmente, um novo estudo, realizado com alunos de ensino médio locais, revelou que a habilidade de falar línguas indígenas está diminuindo vertiginosamente na geração mais jovem. 

O estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, foi liderado por Alfred Kik, aluno de pós-graduação da Western Highlands de Papua Nova Guiné – e o primeiro estudante daquele país a publicar um artigo no periódico. 

Robert Colwell, coautor do estudo e professor pesquisador de ecologia e biologia evolutiva na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, atuou como avaliador internacional da tese de mestrado de Kik. 

Anteriormente, Colwell já havia trabalhado em uma equipe de pesquisa liderada por Vojtech Novotny, autor sênior do novo estudo, um entomologista tcheco com décadas de experiência trabalhando com naturalistas locais da Papua Nova Guiné.

Para Cowell, é uma estranha coincidência que os lugares com maior biodiversidade na Terra, como Papua Nova Guiné, também sejam os lugares com maior diversidade linguística.

De acordo com o estudo, o tok Pisin, uma língua baseada no inglês que serve como língua franca da Papua Nova Guiné, e o inglês, a língua da educação formal, estão substituindo as línguas indígenas. 

Kik e seus colaboradores testaram mais de 6.000 alunos do ensino médio do país, que falam 392 idiomas. Ele encontrou um declínio inesperadamente rápido em suas habilidades linguísticas. Apenas 58% dos alunos, em comparação com 91% dos pais, eram fluentes em línguas indígenas. 

Esse processo é impulsionado por uma parcela cada vez maior de famílias com línguas mistas, em que cada genitor fala uma língua indígena diferente, bem como por mudanças no estilo de vida, especialmente a urbanização.

O declínio da fluência no idioma é acompanhado pela perda de habilidades tradicionais, incluindo caça, pesca, cultivo de alimentos básicos, construção de casas com materiais florestais e uso medicinal de plantas. A perda gradual de línguas também leva ao declínio do conhecimento tradicional de plantas e animais da floresta tropical.

As pesquisas em 30 escolas secundárias revelaram que essas instituições de ensino são um foco de extraordinária diversidade de idiomas. Como um exemplo extremo, 381 alunos da Escola Secundária Lae falavam 126 idiomas diferentes da Papua Nova Guiné. 

No entanto, apenas um terço dos alunos fala a mesma língua indígena de seu melhor amigo na escola, sugerindo que as amizades são formadas com pouca consideração pela identidade linguística dos alunos. Essa tendência também pode levar a um maior aumento de famílias com línguas mistas no futuro, acelerando a perda de diversidade de línguas.

Essa diversidade e a ausência de qualquer língua indígena dominante significa que, se dois cidadãos de Papua Nova Guiné se encontrassem por acaso, eles falariam a mesma língua indígena em apenas um de cada 100 encontros. Isso significa que essas línguas são muito localizadas para serem práticas em uma comunicação mais ampla.

Em entrevista ao jornal da Universidade de Connecticut, Colwell acrescenta: “Uma proporção muito grande de pessoas da Nova Guiné vive em suas próprias terras tradicionais, em sua própria área linguística. Elas cultivam e usam plantas nativas de florestas tropicais extremamente ricas, muitas com valores medicinais e outros valores culturais. Entender qual planta deve ser usada em cada situação é um conhecimento crucial. Saber os nomes de plantas úteis e pássaros locais na língua de seus pais nos mostra se esses alunos do ensino médio estão mantendo não apenas a linguagem, mas também o conhecimento tradicional”.

Esse conhecimento vive nas línguas indígenas. Felizmente, a grande maioria (88%) dos alunos quer ensinar línguas indígenas para seus filhos, valorizando seu significado cultural em vez de praticidade. Embora seja crucial para manter as línguas vivas, essa intenção enfrenta fortes pressões externas, pois os fatores-chave (educação, economia monetária, redes de estradas, urbanização) associados ao declínio da língua são valorizados na sociedade contemporânea – não só na Papua Nova Guiné, como em todo o mundo.