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Fenômeno que interage com diversos outros, poluição genética traz riscos para a biodiversidade e existência humana na Terra

Poluição genética é um termo popularizado pelo ambientalista Jeremy Rifkin em seu livro “The Biotech Century” para se referir aos riscos da introdução não intencional de genes advindos de espécies domésticas, exóticas ou de organismos geneticamente modificados (OGM) em um genoma selvagem, por ação humana. Isso pode acontecer pela reprodução, com a produção de um híbrido, ou pela incorporação direta ao genoma de um organismo.

OGM e transgênicos

Os Organismos Geneticamente Modificados, como o nome diz, são aqueles que sofreram uma ou mais alterações em seus genes por meio de técnicas da engenharia genética, genericamente conhecidas como tecnologias de DNA recombinante. Mas o que é um transgênico? Organismos transgênicos são OGM que receberam genes de outros organismos. Assim, nem todo OGM é um organismo transgênico, mas todo transgênico é um OGM. 

Outra diferença importante é que as alterações de genes que ocorrem em OGM que não sofrem transgenia são possíveis de acontecerem naturalmente em um longo período de tempo, já as que acontecem em organismos transgênicos, não. Entenda mais sobre essa diferença lendo “Quais as diferenças entre organismos geneticamente modificados e transgênicos?

Como os transgênicos podem afetar o meio ambiente?

Os produtos transgênicos surgiram como uma resposta da biotecnologia para a produção de commodities (produtos de origem primária comercializados internacionalmente)  resistentes a agrotóxicos e pragas e capazes de gerar maior lucro em menos tempo. Entretanto, não há garantias sobre a segurança do uso dessa tecnologia.Plantas transgênicas contêm genes de outras espécies, sejam estas outras plantas, bactérias, vírus, ou animais. Se estes genes modificados são transferidos para outros organismos, há uma contaminação genética ou poluição do fundo genético (“genetic pool”, em inglês) natural.

Esse fenômeno tem o potencial de se multiplicar conforme plantas e microrganismos crescem e se reproduzem e ainda gerar resultados imprevisíveis, pois os OGM não podem ser contidos ao habitat em que foram inicialmente introduzidos. Isso gera grandes riscos para a biodiversidade e, no Brasil, vai de encontro ao Princípio da Precaução.

Transgenia e Princípio da Precaução (PP)

Muitas vezes, a promoção do uso da transgenia é feita com base no marketing de que os OGMs são a solução para a insegurança alimentar e poderiam acabar com a fome mundial, mas isso não é verdade. A fome é um problema de raiz política e não de produção, haja vista que o planeta já produz uma quantidade de alimentos suficiente para alimentar quase o dobro de toda população.

Desse modo, a imprevisibilidade do uso da transgenia, além dos efeitos nocivos que hoje são conhecidos, torna esta contrária ao princípio da precaução. Este princípio é fundamentado no artigo 4 da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938, de 31 de agosto de 1981), que expressa a necessidade da existência de equilíbrio entre o desenvolvimento econômico-social e a preservação da qualidade do meio ambiente, a partir do uso racional dos recursos ambientais e sua disponibilidade permanente, atendendo as necessidades das gerações presentes e futuras. 

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Imagem por Jesse Gardner, disponível no Unsplash.

Efeitos nocivos dos OGMs

Os efeitos da inserção de um gene da castanha-do-pará (Bertholletia excelsa) em grãos de soja para deixá-los mais ricos em sua distribuição de aminoácidos é um exemplo da imprevisibilidade mencionada: a proteína-chave codificada pelo gene inserido se mostrou causadora de alergias, e só após este descobrimento o projeto foi encerrado.

A poluição genética (“genetic pollution”, em inglês) pode afetar negativamente as vantagens evolutivas de espécies adaptadas a um certo ambiente e perturbar ecossistemas. A alteração das características evolutivas de uma espécie também pode resultar no surgimento de ervas daninhas resistentes a herbicidas, que têm seus genes transmitidos para outras espécies através da polinização pelo vento (conhecida como anemofilia). E, assim como certas plantas podem se tornar mais resistentes, os vírus que atingem espécies vegetais podem ganhar resistência e formar novas cepas mais desenvolvidas. 

O mesmo pode acontecer para outras pestes, além de poder ocasionar o fenômeno chamado de ressurgência, quando pestes que praticamente haviam sido eliminadas têm uma explosão populacional.

Ervas daninhas, vírus e pestes mais resistentes tendem a ser combatidas com herbicidas e pesticidas mais tóxicos, o que afeta o solo, a água, a saúde humana e de outras espécies.

Além disso, os organismos geneticamente modificados podem gerar enfraquecimento genético, com consequências que podem variar da transmissão de características evolutivas negativas à propagação de doenças genéticas, podendo afetar inclusive animais de espécies domesticadas, pois mesmo as técnicas convencionais de cruzamento não seriam capazes de produzir o efeito de receber material genético de variedades transgênicas.

Formas de contaminação genética

A modificação genética de plantas pode ocasionar a contaminação genética de quatro formas, basicamente:

  1. Plantas nativas próximas ao cultivo de plantas geneticamente modificadas (GM) são polinizadas por estas;
  2. Plantações orgânicas ou sem modificações em seus genes são polinizadas por plantações modificadas geneticamente;
  3. Uma população semi-selvagem de plantas GM se desenvolve se um cultivo geneticamente modificado sobrevive tanto em ambiente natural como no da agricultura;
  4. Microrganismos no solo ou no intestino de animais que se alimentam de um cultivo geneticamente modificado adquirem os genes deste.

Invasões biológicas, erosão genética e o gene exterminador

O risco da poluição genética também vem da invasão biológica, quando espécies invasoras se cruzam com espécies nativas. É cada vez mais comum as invasões de espécies advindas de atividades agrícolas e florestais. Assim, a biodiversidade também é ameaçada pela erosão genética, já que, por conta do total desuso de cultivos não híbridos (que deixam de ser rentáveis) e pela poluição genética, há o colapso de fundos genéticos de espécies nativas e perda de biodiversidade.

Outro fenômeno preocupante é o chamado gene exterminador (do inglês, “gene terminator“) e suas consequências de impacto imensurável. Esse gene leva à infertilidade das sementes formadas após a primeira geração, obrigando o agricultor a comprar novas sementes para cada novo plantio, o que gera dependência para o agricultor e  um lucro permanente para os produtores das sementes da primeira geração. O agravante é que, espécies modificadas com esse gene podem invadir áreas para além do seu cultivo intencional, e disseminar esse gene e seus efeitos para espécies selvagens. 

O perigo da poluição genética para a soberania alimentar

Por conta do mercado de commodities, a poluição genética ameaça também a soberania alimentar. Uma das bases desta é o acesso de agricultores a sementes de qualidade, mas mesmo os agricultores que não utilizam sementes geneticamente modificadas podem ter a qualidade de suas plantações alterada, sendo uma possível consequência disto a incapacidade de produzir novas gerações, caso ocorra a poluição genética advinda de uma espécie modificada com o gene exterminador. Esse risco pode ter consequências que inviabilizem a produção de alimentos e a existência de vida humana na Terra.

Como o risco da poluição genética pode ser minimizado?

As empresas de biotecnologia responsáveis pela criação de novos organismos geneticamente modificados e transgênicos, em conjunto com atores políticos, podem tomar algumas medidas para reduzir o risco da poluição genética:

  • Avaliações independentes dos impactos ambientais devem ser realizadas a fim de evitar ao máximo o cultivo de espécies GM.
  • Ao plantar cultivos GM, isso pode ser feito com espaços reduzidos entre os indivíduos, pois isso tende a reduzir a abundância de flores. Nas bordas destes cultivos, podem ser plantadas fileiras de variedades de genótipos inertes, com reduzida ou sem a capacidade de gerar híbridos.
  • Testes de campo dos cultivos GM devem ser feitos em espaços confinados.
  • Além disso, é importante que novos cultivos de espécies GM não tenham lançamento comercial até a comprovação de que estes cultivos não causem poluição genética.